"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Receita de Feliz Natal

INGREDIENTES

Há que se ser paciente
com os vais e vens e vãos
mesmo nas horas cansadas.

MODO DE FAZER

Deixe que corpo e vontade
digladiem na arena do tempo
até a exaustão.
Remova as arestas da reserva
e entregue tudo a lenta e
contínua combustão.

MODO DE SERVIR

No centro da madrugada
com pitadas de raro gozo
salpicados pela cama
e pelo chão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Apenas relaxe

E se você não parecer tão forte
se você não parecer tão duro
se você não parecer tão fechado
se você não for uma CAT completa
se você admitir vulnerabilidade
na construção da intimidade
com essa poeta
ainda assim
- pode confiar -
eu não vou fazer nada
nada
nada mesmo
na intenção
de te machucar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A filha pródiga, ou dos resultados da meditação.

I
Primeiro acreditei que era incapaz
de conversar, de sorrir, de partilhar,
acreditei que era incapaz de me superar,
acreditei que estava pronta pro nunca mais
acreditei que era incapaz de acreditar.

II
Com um fiapo de dignidade reagi
e quando finalmente findei
com a "solidão a dois de dia"
eu já não era, eu era só agonia
destroçada, não me reconhecia
e não queria viver mais.
Uma dúzia e meia de meses atrás.

III
Para desistir da forca
o primeiro passo foi respirar
e respirei feito louca, embora ainda não pudesse
nem de longe me suportar.
Rigidamente impus flexibilidade ao meu corpo
que gordo, esquecido, torto
se fez dolorido e abandonado,
de mim, pela desesperança sequestrado
era um corpo perto do fim.

IV
Cozinhei-me devagar e com paciência
reconheci e expulsei
pânicos, inseguranças e outras doenças
reconstruí, naco a naco
a deusa que me habita
e é o silêncio da minha mente quem agora grita
e meu coração finalmente está em paz.

V
Olho-me do alto, árvore renascida
deusa-mãe, mulher, completa e decidida
reconheço em meu tronco cada marca, cada ferida
sei quem me impôs o último golpe aniquilante
e sei que fui cúmplice na queda vertiginosa
ao abandonar a consciência de ser rosa,
ser jasmim ou onze horas
flor simplérrima sobre o chão
beleza efêmera, odor de ocasião
permiti as sucessivas podas
que devastaram-me o jardim do coração.

VI
Hoje vejo brotar a palavra perdão
para quem me feriu,
para o mundo que assistiu
para mim mesma, na totalidade do que sou.
Quero caminhar consciente da beleza
de que respiro e sou parte completa da natureza
de que meu corpo vibra e minha voz pode embalar
sou quem sou,
nem anjo nem demônio,
não estou pra destruir nem salvar
sou apenas um ser completo
capaz de me entregar,
de amar e reamar.

Sim, por fim
a mim mesma
eu voltei a cultuar.






segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Amar é clichê

sim, 
ainda há dores
e coisas fora do lugar
há diversos dissabores
e nem todas as cores vibram
como poderiam vibrar
de lado a lado ainda há problemas
e medos e traumas 
mas há novas canções e poemas
e entrega e carinho e calma.
Cada minúscula parte do que sou
está feliz pelo que fiz:
meu coração
 - que castigado, quase secara - 
agora é toca para um leão
espécie rara que em meu peito se aninha
ronrona, delira, me inspira
a reencarnar a apaixonada poeta.
Reescrevo, sem culpa, todos os clichês 
nessa bela história de amor que hoje completa
dezesseis anos 
e um mês.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Pariceiros

MATARAM AS HORAS, SUBJUGARAM O TEMPO E TOCARAM O ÍNTIMO DA ETERNIDADE...

O Beijo. Constantin Brancusi. Cemitério Montparnasse.
É pouca noite pra muito assunto
a gente junto...
tanta energia que nos aquece
o cansaço se alivia
desaparece
pele na pele
o desejo nos revela
enovelados

a manhã
vem surpreender
o nosso afã apaixonado
e quando a luz nos trava as retinas
sorrimos os dois
cerramos as cortinas

porque é pouca noite
pra muito assunto
a gente junto



segunda-feira, 28 de novembro de 2016


domingo, 20 de novembro de 2016

Nossa missa

"nas manhãs de domingo, vejo flores em você"

verti as taças possíveis
lânguida
lambi a noite
jardinei-me em promessas
e tu me ouvias
mergulhada no rio da memória
desses dezesseis anos
e quinze dias

é culto de muitas horas
te adoro
me adoras
a pele e os lábios
precisos e em prece
destroem os cansaços
e tropeçamos nos braços
que a vida oferece

do outro lado da cortina
o dia raia impassível
e eu de bruços recebo
as lições e os laços
a conceber:
o presente é canoa
que por ora conduzimos
querendo reflorescer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Minuto de silêncio

Amanheceu
meu mundo amorenou.
Uma pele pura
sobre a carne crua
presente
promissora e permissiva
perfeita
pôs-me perplexa
e por hora
perpassada
por poucas palavras.

domingo, 6 de novembro de 2016

Recaída

imagem disponível em http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/eclipse-solar.htm

"nas manhãs de domingo parece que todos olham pra você..." IRA!
Embora envolta em dor fina
aferi meus poros lambi-me a pele
lambi-me os pelos
levei-me para fora da toca
e em braile dei-me a ser lida.

quando da noite se fez despedida
sob o céu nublado
também chovia em mim
endorfina pra todo lado
e revi meu corpo levitar
completamente dopado!

é seu ofício e meu horror:
o domingo se arrasta sobre tudo
com o mesmo vagar
o sol beija a tudo e aquece com o mesmo fervor
e observo a velha ferida
sob os efeitos do predileto vício...

Salve! Pois que nessa vida
dura, torta e desmedida
sempre será justo comemorar
a possibilidade dessa recaída.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Desprendimento


No dia de tudo
pois que tudo morre
amanheço acúmulo de não pertenças
sozinha com a vida
criança na floresta
onça na avenida
miserável na classe média
privilegiada entre miseráveis
paulistana-macuxi-paulistana
humana
mulher entre travestis

pestanas abertas para o caos
encravada entre pele, pelos, ossos
sou pluma chegada ao chão do abismo
acúmulo de solidões profundas
por desistências provocadas
ausentes amizades
e descontato contínuo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poema de primavera















Quando venta
e o vento traz assim, de longe
uma palavra tua, doce irmã,
eu, que ao amor respeito,
suspeito que entre nós ele é espada de são jorge
é espada de iansã,
é lança de ogum:
raízes fincadas, parece seco mas resiste vivo
no peito, na pele, na cabeça...

transformado
se espalhou à beça
e espera, espreita
um encontro ou dois
um par de noites
um samba, um bolero
um brega
para atiçar depois
sob o açoite do desejo
renovada entrega.

talvez seja isso,
basta um morno e úmido beijo
pra irromper, de novo, um verde broto
amor maroto de quilate raro:

fruto maduro
dentro de nós.

 

sábado, 17 de setembro de 2016

posso
pois sou osso
sobrevivo
à carne
que entre a morte e a arte
estira-se sobre as sobras do tempo
estreita espaços
se importa
comporta
e conforma a vida.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Canto aos ignorantes

eu confundo cansaço e tristeza
e sei que isso é falta de madureza
emocional da minha parte
é por isso que faço arte

eu tenho ressaca
de trabalho, de açúcar, de sexo e de sono
por isso à observação silenciosa
por vezes me abandono

eu tenho amor por quem comigo anda
pois não sei ser falsa
e agir conforme toca a banda

só sei viver com paixão meu dia-a-dia
por isso sou professora
e escrevo poesia.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cena do clássico Rock Horror Show.

Quer saber? Eu canto
bizarra não sou eu,
bizarro
é seu espanto
homem branco
cara pálida,
não é incrível que dominando tanta
parafernália
você ainda creia que minha roupa
tem de ser ditada pela minha genitália?
você pergunta, eu te digo
que "tipo de humano" eu sou:
tipo homo sapiens
modelo único, sabes, doutor?
se você não percebeu
a minha humanidade
se na sua idade não entendeu
que assim como sua mãe
eu choro, rio, amo e odeio
acredite, você faz feio...
sim senhor, doutor, eu sinto
pense, o que me impediria?
o fato de ser fêmea com pinto?
não fosse trágico e eu gargalharia...
mas sei o que você temeu,
que a bizarria te atingisse
só que a bizarra não sou eu
é a sua cretinice,
por isso eu canto, doutor,
bizarro foi o espanto
que hoje te acometeu
porque ser humano, doutor,
é algo tão seu quanto meu.

sábado, 20 de agosto de 2016

Descolorido

esse poema
queria ter a cor da morte 
que acampou no quintal
há exatos quinze dias
e está levando com tanta dor
há mais de vinte horas
a pequena adotada a menos de três meses.

ele também queria ter a cor da alegria
da filha aprovada na última disciplina
a filha, sentada feito o pai
a filha, falando de sua pesquisa. 

ele queria ter a cor do cansaço
e da sensação de dever comprido
cumprido
no final de mais um seminário

mas ele mal se resume à cor 
dessa taça
rubro
como meu peito diante da vida

como meu peito
aberto feito uma cova
diante da vida.

sábado, 13 de agosto de 2016

Book de namorados

em fotografias a grafia dos afetos
sorrisos e gestos, 
amorosos afagos 

o tempo se vinga 
do pretendido congelamento:
fatalmente nos fere
desfaz o feitiço
amofina o amor

quem se afirma
na força dos fatos
é o fastio,
e as fotos
essas fotos
atestam, ferinas,
toda a ferocidade 
da nossa falência.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

keelinggallery.com






















































"Flutuar suspende as dores..." Siba

O céu vai estar azul
mesmo que chova
e o ar fará resplandecer cada osso

haverá curas
e não me ferirá a maldade pretendida
por quem já me inferiu prejuízo e exige reparo

ponho o ar para dentro como quem bebe um remédio
ponho o ar para dentro, como quem quer engolir o mundo
e se aquietar engrandecido, integrado, completo
ponho o ar para dentro, em cada célula, em cada gota do que sou
ponho o ar para dentro, cheio de perdão
para anular a culpa pela incapacidade de olhar adiante
ponho o ar para dentro
no instante pleno
e por dentro
ponho-me no ar.

Respiro e confio
será assim
quando sorrisos voltarem a nascer
no terreno do meu coração.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Abominação*

Tatouage. Jean Chaîney. 
In: http://ohbythewayblog.blogspot.com.br/2011/07/beauty-art_4959.html

Somos peritos em sobrevivência
pretos, pobres, putas
travecas, viados, machudas
transitamos perigosamente livres 
convertidos num risco 
pra você que não muda,
que não tem dúvida,
pra você que vive de bom grado o roteiro pronto
e fica até meio tonto 
de ver como reafirmamos 
nas linhas tortas da marginalização
a nossa existência e orgulho
nossa resistência contra sua humilhação.

Para seu "mundo perfeito"
que conserva o patriarcado capitalista
e tanta violência, e tanta intolerância
com exploração, ódio e incompreensão mandando na pista
somos e queremos ser perigosos
nossos sexos livres se levantam
contra seus nexos belicosos
afetos, afeitos e afoitos, nos movem
dominam pele, rim, estômago e coração
amamo-nos com pureza de corpo
e nesse seu 'mundo perfeito'
o que nos parece perfeito 
é ser abominação.


*Para Tatiana Lionço, com amor. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Triste crônica da nossa derrota em Vitória.

Eu não queria escrever esse texto que lê em nossos corpos essa culpa antiquissimamente plantada, nosso direito de simplesmente ser, abortado.

No dia em que livre e deliberadamente decidimos que não íamos cumprir, por algumas horas, as tarefas pre-estabelecidas para a manhã ,eu queria falar das nossas escolhas, do nosso livre passear, das descobertas pelas ruas de Vitória, da arte nas paredes e dentro de nós. Da nossa decisão de seguir à esquerda, para o Lago Azul e deixar o Mirador da Floresta, à direita, pra depois.

Nem era tudo alegria o que eu queria. Eu queria escrever um poema sobre o absurdo de extinguir onças para construir onças de pedra. Falar dos micos se equilibrando nos fios de eletricidade. Queria falar da felicidade daquele exercício de autonomia e liberdade ao qual estávamos entregues, com meu peito arfando, cansado e consciente da respiração, na subida do morro.

Mas surgiram homens. Primeiro um, parado, nos mirando. Depois outro. E outro. E nos tomou a lembrança, a sombra assustadora dos corpos femininos dilacerados, das vidas destruídas, dos montes de vítimas no rastro violento de homens e homens e homens que subjugam mulheres por serem mulheres.

E silenciosamente nos vimos, as três, em pânico. E saímos dali, o mais rápido que pudemos, lamentando a liberdade que não temos somente porque somos mulheres.

Para Evelly e Elen, que comigo fugiram da Gruta da Onça

terça-feira, 12 de julho de 2016

"Porque o instante existe e minha alma está completa..."

E eu, que desejara uma pele
de tocar
e uma boca improvável
a me dizer inaudíveis indecências
vi-me sobre o vime
da cadeira de balanço
recostada e só
ponto sem nó
perdida conta
que ninguém busca.

Na boca o ranço
e a tristeza brusca
nem cachaça nem cerveja
carne afogada de quem não deseja...

Eu que fogo fora
a ferro me ferira
não mais surfava as ondas
dessa alma que delira...
esvaziada de tudo que outrora teve sentido
mas contive em mim o gemido
e aos poucos emudeci esse pranto.

E se acaso perguntarem por mim
"como ela anda?"
diga apenas que à tarde,
na varanda,
eu canto.

domingo, 3 de julho de 2016

Presente de aniversário.

Duas da madrugada
duas pupilas
dilatam-se diante do desejo
deito-me, deixo-me...

duas mãos dadas ao desfrute sem pejo
devagar deslizam,
deveras demoram-se
doces,
débeis,
densas,
dilaceram deliciosamente a deletéria solidão
quando descem-me aos recônditos da cripta.

Eu declaro convicta
que é divina a autofagia.

Deem-me denominações descoladas
digam-me doida
pois devoro-me e dedico
deflorada
desvairada
deslumbrada
desmedida
a alma à dupla decolagem:
bela e besta!

Eu deliro:
deusa ambidestra.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Corpos

o corpo violado
o corpo violão
o corpo

o corpo generalizado
em homens e mulheres
o corpo sem gênero
em bebês com cara de joelho e roupa amarela
o corpo mumificado da história
o corpo de Cristo
mascado nos rituais de domingo
o corpo velho
inútil escrita do tempo

o corpo cavalo, músculo e relincho
o corpo mosca, suja leveza
o corpo corda, balde e poço

o corpo livre
em queda do oitavo andar

o corpo são
todas identidades cabíveis
e só o que importa
ser.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

me afogo
não me comovo com o fogo dos deuses
que aí transita
corre ruas esburacadas e atrapalha
trabalho e trânsito
digam que estou oca
mas não me comovo com o fogo de deuses importados
adentrando a maloca

me comovem mais esses gatos atropelados pelo asfalto
esses cães abandonados pelo campus
a injustiça dos ladrões me governando
me comove mais a cegueira e o descaso

eu
que venho há tempos tentando fechar ferida
reacender em mim o fogo da vida
que venho esticando músculo e cartilagem e osso
para ver se espremo uma gota de fogo que seja
no suor que lava a pele
não sei me comover com a artificial exterioridade
desse fogo dos deuses

prefiro ainda a centelha
do olhar dos garotos diante do poema
a centelha que brilha no olhar úmido
dos garotos diante do poema
fogo surgido da palavra que trabalha
única chama viva
que intransitivamente
por ora me calha.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Talvez queira ser só beijo
entrega, esfrega de língua na língua
e aquele torpor final, 
e fim.

Talvez queira ser só cheiro
de café vindo de lugar que não se sabe
no meio da tarde
assim.

Talvez essa palavra presa
não deseje ser vela acesa na escuridão
nem remédio, nem pão

Aspiro-a para dentro do peito
e ela jaz incômoda
sem saber se é poema
ou não. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Porque Temer?

Brasileiro, brasileiro
você acha que está indo tudo bem
Previdência o Ministério já não tem
mas sabemos que não faltará trabalho
coisa boa é você ter tanto dinheiro
providência é não ser filho de operário
e nem ser do povo um funcionário
que maravilha é ser filho de banqueiro!

ah, que bom que você já tem dinheiro
brasileiro, meu querido brasileiro
pouco importa se no próximo janeiro
já tenhamos dado fim a essa bobagem
para quê direitos a quem vive à margem
sem cultura por não viajar o mundo?
com esses nomes de Maria e de Raimundo
quem precisa de direito e proteção?

vamos exigir silêncio sobre a crise
se o acidente, a depressão ou a hemoptise
te atacarem só para te por no chão
brasileiro, meu querido brasileiro
tu tens dinheiro, se avexe não
pagarás médico e internação
pagarás quarto e medicação
pagaremos, somos um povo abastado
alegremente viveremos no mínimo estado
vivas à privataria,
e um viva ultra especial
ao financiamento privado da campanha eleitoral

brasileiro, brasileiro
que bom que temos dinheiro
tanto faz se entregarmos mais ligeiro
a biodiversidade amazônica, o pré-sal

aproveitando essa onda de melhoras
que a ciência reveja o que prescreve
o melhor é nomearmos um pastor
pra ensinar a doutor o que se deve
nada disso de usar nome social
feminismo é uma abominação
e aborto um pecado sem perdão
essas coisas só atrasam a nação
e diminuem nossa grandeza e vulto
ensinemos com que roupas ir ao culto
ensinemos a odiar como ninguém
ensinemos toda a culpa às meninas
ensinemos a extorquir como convém
micaretemos com louvores nas esquinas
vamos naturalizar pedofilia
elevemos a mito quem tortura
nós sabemos como disfarçar orgias
educação sexual é uma vergonha
garantida a hipocrisia que se sonha
para nós que somos a nação mais pura!
brasileiro brasileiro, meu querido brasileiro
inda bem que tens tanto e mais dinheiro
pra pagar pela vossa educação
o melhor, meu companheiro,
é alguns não poderão
voltaremos ao real de nossa origem
com a fina flor da sociedade a se formar
ah que sonho é privatizar a educação
e impedir que gente que vem de baixo
figure entre médicos e advogados
às vezes sendo até mais preparados
nos expondo à enorme humilhação...

o topo aos tops, aos demais, os guetos!
privatizando, minguarão os pretos
índios não precisam, (para quê querem estudar?)
ah, brasileiro, brasileiro,
é assim que nós vamos assistir de novo
o crescimento das filas com gente do povo
brigando pela vaga de "secretários do lar"
gente doida pros nossos banheiros lavar
pra nossa roupa engomar
e nossa comida servir
sem vale transporte nem jeito de se aposentar
mas sobretudo sem falar
sem se exibir
E vai estar tudo bem
sem ter SUS pro pré-natal do neném
nem bolsa família pra alimentar vagabundo!
Finalmente, brasileiro
nós que temos dinheiro
vamos ser primeiro mundo!

continuemos a botar nosso rosto
gravado na GoPro do carrão
dirigindo e gravando vídeo contra a corrupção
Derrubaremos a Dilma e o PT
a Globo, o Jucá e o Temer cuidam de tudo pra você
brasileiro, brasileiro
que bom que tens dinheiro e a crise está a acabar
vai viajar pelo mundo, que bom gosto
finalmente voltarás a ser feliz
Nova York, Dubai, Milão, Paris
Berlim, Londres, Xangai e outras mais,
tomar vinhos de Bordeaux, Napa ou Toscana
descansar renovando nas Maldivas...

à nossa sagacidade e muita grana
brasileiro, meu querido brasileiro
é chegada a hora de dar vivas! 




quinta-feira, 19 de maio de 2016

Poema do bebê que eu quase matei

Silêncio
a pele azulada me implodiu em culpa
os olhos entreabertos, a boca cerrada...

paralisada
o vi ser reacordado
ouvi seu choro
e eu não sabia
quem era aquele bebê que eu esquecera
(eu esquecera!)
- e quase matara - 
na água fria.

foi com seu choro
- e nenhum alívio- 
que despertei suada
assustada, dolorida

e não sei se sou eu, 
minha mãe,
minhas filhas,
não sei se é meu sonho
meu medo
minha lida
sei que sua imagem me assombra 
desde cedo
e temo que não saia nunca mais
da minha vida.

domingo, 1 de maio de 2016

a Bárbara Rolland

os cabelos curtíssimos
e os olhos vivos
assentavam-se sobre a pele branca
ela sorriu para mim 
enquanto falava
e depois
as palavras de sua boca raivosa
deram vazão a um mundo incerto
onde signos do que somos
"eu, tu, nós"
tocaram-me dentro.

nem uma palavra sequer compreendi do que dizia
mas estou certa de que aquele calor e aquela energia
que lhe tomei no abraço pedido, 
consentido, 
trocado
foram suficientes para que intuísse
 - caso quisesse - 
que por sua arte em mim despertara
um tanto de amor represado.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mulher de Verdade - ou de como reajo à hipocrisia e machismo.

Embora não faça alarde
é liberdade quem me urde
por isso não faço contas,
não sei de quantos usufruí prazeres,
(além da língua
nos pequenos lábios
há os prazeres da palavra
na boca dos sábios...)

Não
não sei em quantos dias posei
de bela ou de fera
lavando glande com saliva
erupcionada
no interno calor
algoz e cativa.

Não
não conto os dias de roupa suja e pia cheia
os dias de leite e pão e miojo
assim como não conto feijoadas e lasanhas
minuciosamente planejadas
não conto as horas de encerar o chão
onde me deito com quem amo
distribuídos em tantos dias do ano.

é tão boa a roupa de cama cheirosa
quanto a manchada de amor
sou eu quem escolhe, da minha vestimenta,
o comprimento e a cor
não venha ditar o que me cai bem
você não me conhece, neném.

VEJA e deseje, esbanje hipocrisia,
meu corpo e meus dias
são pra minha felicidade
não estou pras suas falhas
esses contos de fada urdidos por canalhas
porque sou e quero ser mulher de verdade,
sou "bela, recatada e do lar":
dou a quem eu quiser dar
uso a roupa que eu quiser usar
como-me nua na frente do espelho
e não serve-me nem para limpar o cu
seu tosco e machista conselho.

sábado, 16 de abril de 2016

Pesadelo

nem o peito nu
revelando a pele branca
do entorno dos mamilos,
nem o entra e sai
de rostos conhecidos e desconhecidos
 - todos alunos -
na pequena sala.
nem o esquecimento do nome
do fotógrafo premiado,
nem as interrupções constantes
que nos afastavam do tema a ser
apresentado,
nada, naquele mar de desconforto,
me feria tanto quanto a certeza
queimando dentro
de que exausta, embora ininterrupta e brutalmente
eu lutava para não ser levada
pela frustração que em intensa corrente
buscava me tragar.
fui verdadeiramente rude
e bravamente
lutei em vão
tentando voltar ao tema
voltar ao quadro
retomar a aula
tudo completamente inútil.
já sem forças
caí em lágrimas suplicando compreensão
de uma conhecida e fleumática
estudante sentada no chão...

É excruciante viver esse duplo
observar o outro a fazer coisas que condeno
e que meus seios nus denunciam não serem eu.

Entre soluços e lágrimas
encerrei o mergulho implodindo:
as pálpebras abertas
denunciavam junto com os poros que o sol do sábado
já aquece demasiado o pequeno quarto.
fica essa sombra do medo infinito,
a consciência desse apego à razão
e a certeza de que tudo permanece caos
sob o lago escuro que sou.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Poeuma

leio os antigos poemas
como quem revira bagagens
e o coração recolore as imagens:

é catar-se entre pedras e grãos
diluída entre as frestas e vãos
dos versos, lavrada na palavra
carne viva, latejada
fratura
exposta pela ponta dos dedos.

versejo
rompo tempo e espaço para ser milhares
sou espiga no milharal embonecado
da memória do meu pai
sou saudade da casa grande do interior
da memória da minha mãe
sou menina apaixonada pela primeira e pela milésima vez
sou campeão e sou freguês
tudo me dói e me alivia

versejo
e gosto do que vejo:
sou a um tempo
poeta e poesia. 

terça-feira, 15 de março de 2016

Me deixem.

percam
pudores e
prazos

printem
posts
pérfidos

passem
posses e
poses

partam
pernas e
portas

permitam-me
penas e prosas
pecar
por prazeres e pratas
pedir
petúnias e prímulas
prover
palavras e poemas
pensar e portar
palmas e prismas,
pragas e prendas
pães e pestos,
pulsar, pender, pirar
perigosamente em
partes de
pura pele.

terça-feira, 8 de março de 2016

Eu canto a mim e a mil
canto mil vezes um milhão
para quebrar o silêncio pelo medo do tapa
e a angustiada escolha da roupa
canto por cada barriga contraída para a foto
canto por cada uma que foi chamada de louca
canto porque a fome e a miséria são mais nossas
canto porque nosso corpo não nos pertence
seja em terra, no ar ou levado pelas marés,
canto porque é injustiça
e violência
o que nos marca da cabeça aos pés.

contra o medo de viajar sozinha
contra o pavor de ser mãe de menininha


canto a mim e a mil e mil vezes um milhão
sou sua mãe, sua irmã, sua colega, sua esposa
e canto
por um dia em que um dia seja só mais um dia
e toda mulher possa ser livre e feliz

e cada maldade não seja atribuída à mãe
do filho da puta 
por um dia em que um dia seja só mais um dia
e possamos entoar mais cantos de alegria
com menos motivos para cantos de luta. 

sábado, 5 de março de 2016

domingando
sem cobranças nem amarras
nos demos ao salto
emocionados
cada um com sua mala de motivos

madrugada
e mergulhamos juntos

eram bolhas de ar
os corpos unidos
sob o branco do lençol
lado a lado submergidosprofunda
profundamente entregues

adentramo-nos sem medos
nem expectativas
foi quase prece aquele toque
fazendo-nos presença que aquece
que marca a vida
e torna o outro parte
sem preço.


flutuamos
sem reserva nem temor
e não há porque não admitir
que por todos esses anos
foi e é amor.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Comovida
em pele e ferida
sozinha e lida

amostrada
escondida.

ora é falta, ora é contrapartida
ora o demo, ora querida
crê e duvida

despreza e convida
devora a fera com venida
nereida úmida e homicida
cuida e liquida
expurga-se toda
e segue a vida.





domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sonho feito carne

Rococo. In Metamorphosis, de Jonathan Ducruix

De imagens surdas e
memórias soltas
se compôs o quadro:
e eram milhas
de poros e pelos roçados
sem gravidade e sem limites
aos corpos entrelaçados...

os olhares e as línguas
o pulsar compassado do sangue
nas veias
a paz inserta nos peitos
imóveis, desertos,
e feito insetos nas teias
certificamos o eterno.

e foram horas
de ais em suspiros profundos
era tanto gozo e tanta alma e tanta vida que,
no fundo,
amado,
eu sabia que aquele dia
fora real
e sonhado.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Amargarida

Foto Gabriel de Paiva, agência o Globo - Lagoa Rodrigo de Freitas, RJ.

Farta
da ausência de surpresas
desses olhos mortos
desse imenso mar de olhos mortos
de nadar entre afogados
por tanta e tonta
informação.

Margarida quer perdão
quer não ver, furem seus olhos!
mirar o sol, fugir, morrer
quer ser mais um na multidão
Margarida quer renascer
meio morta pra acabar com a solidão.

Margarida ao sol
tostada sem amor nem piedade
chora por manter-se úmida, acreditar-se única ainda sendo parte.

Foi a palavra quem fez Margarida
enxergar de olhos fechados
a si mesma,
foi a dura palavra quem encheu a tudo de significados
madurez na pele e no sentido,
Margarida limitada na materialidade da linguagem
vê-se perdida, espessa, burra
não traduz o que lhe afronta
acerca-se, resseca-se, ressaca-se 
e chora.

Margarida ao sol
tostada sem amor nem piedade
fecha os olhos
e chora por manter-se úmida
acreditar-se única,
ouvir a voz que lhe convida
a saber-se, no mar de mortos
ainda com vida.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Mergulho

Foi mergulho mesmo
desses de tirar o ar completo
desses de afagar por dentro
cada gota dos meus setenta por cento.
foi mergulho mesmo
dias em si,
entre paredes feito um jabuti
a mirar desejos, medos, cicatrizes
tocando por dentro os atores e atrizes
que me habitaram silenciosos
experimentando-me numa autofagia
de reconciliação
foi mergulho mesmo
inalando uma paz branca e inerte
espessa e especialmente preparada
para a ocasião.
Foi mergulho mesmo
na esperança de voltar à tona
com renovado coração.
  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Desavenida.

Rufavam tambores e peitos
explodindo em sorrisos multicores.

Eu não.
Com os dentes
desfiz em vermelho
fiapo por fiapo
a lembrança daquela carne.

Permiti que o fogo do tempo
tostasse lentamente qualquer esperança
e embora o couro que embala
surdamente meu pacote de neurose
pedisse ansioso por nova dose,
samba que dá vida à vida,
pele que à razão repele, atrevida... 
e embora emoções e pensamentos tenham estado
tão loucamente desorientados no chão das horas,
não pude mais
engoli em seco

e fui embora.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Sexuada.


Digo sim
porque quero, porque gosto quando gozo
ninguém dono desse corpo mais que eu
digo sim na noite clara
de segunda
digo sim com minha cara e minha bunda
digo sim com meu sorriso e poesia
sou do tipo que aboliu o não pro sonho
sou do tipo que aboliu o não pra si:
se o que há é só carinho -  e eu desejo -
não me nego de fartar-me, dou sem pejo
e isso é direito meu, eu bem suponho.

Se incomoda o meu querer, é por ser livre
das amarras que quiseram me meter
o meu corpo é meu inteiro e nele vive
livremente o meu sexuado ser.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016


eram turvas as águas,
havia restos de plantas
e sabe-se o que mais
no lodo do fundo.
era imundo
embora a luz brilhasse na superfície
embora o sol convidasse
embora tudo deixasse tão rapidamente
de fazer sentido.
respirou em cada poro
conscientemente incontido
despudoradamente corpóreo
enlevado de desejo e sombra
e jogou-se.

e ainda voa
quando o vento bate
na pele fina da lagoa.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Vício de aço*.

eu não sei se dopamina
se serotonina
e pouco me importa
é um tipo de imã
a atrair pra outra órbita.

e tudo bem que me impeçam
o tempo e o espaço
tudo bem que isso passe
nada disso me é fracasso
nem pode me liquidar

pois sucesso na vida, pra mim
é sim
ser capaz de sempre
me reapaixonar.

*A respeito de um TED Talk com Hellen Fisher sobre o amor.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Proposta acadêmica


proponho comunicação oral
traduzível apenas na sua língua
nada mais.

combinamos posteriormente
a inserção nos anais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Convite pro cinema

Há muito mais pra ver
pra fazer
do que as comédias românticas
que te assustam
te irritam
te afastam.

Há personagens
tão bem compostos
que justapostos
já rendem, por si
lindas histórias.

(E embora eu te queira
por inteiro
pra qualquer tipo de roteiro
não proponho drama, terror nem suspense
pra estrelar com você...
pra começar o ano
podia ser um documentário
sobre amizade
e a poesia do cotidiano
ou - mais imediato e menos raro -
um simples pornô-gourmet.)

sábado, 2 de janeiro de 2016

Trabalho maravilhoso de Matt Blum,The Nu Project. https://thenuproject.com/galleries/in-north-america
moça
não faça troça
aceita e segue essa missiva:
mete-se
atravessa a praça
não faça mesura
não meça as palavras
esmorece esse medo
assimila o selvagem e
esmiúça-me a pele
amassa-me até os ossos
amacia-me o ego
amansa-me

moça
arremete-se
como se me amasse.