"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 18 de março de 2017

Aprendizados

Crying Woman, Pablo Picasso. 1937
quando sentiu aquele cheiro
atiçando a suspeita
de que morrera a emergência apaixonada,
primeiro chorou.

engasgada
esforçou-se para limpar a boca:
com palavras inexatas
e lágrimas e dor
engoliu o regurgitado coração,
e se fez silenciosa
em espera e observação.

mas foi repetido o novo gesto de tanto faz
e as novas prioridades
tomando a frente dos dias perfilados
ressaltavam para ela
um espetáculo macabro:
quase nada aprendera com a vida
e os amores passados
e mais uma vez, com susto e enfado
verificava que as horas vazias
restavam amontoadas
apenas do seu lado.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Entre o fazer, o ter, o ser.

Detalhe de tumba do século XIX em Santarém, PA.
Eu sou do tipo que quer beijo de língua às três da tarde da quarta-feira
que põe poesia na vida, sem hora, a vida inteira
carinhosa carente,
que de carinho carece e dele se faz exigente
hedonista, não sei, mas gosto e quem não gosta de prazer?

na curva dos enta, sou a que tenta mudar
hoje estou cansada de tanta obrigação de fazer
e fazer
e fazer
e fazer
sim, posso e até quero fazer,
mas entre isso quero, sobretudo, ser
porque é preciso ser pra fazer história
quero ser mãe que acolhe e cuida no meio da madrugada
sem pensar no dia que vem e nas correções dos trabalhos e na entrega das notas
e em mais nada
porque uma filha, irmã, amiga precisa de mim no agora.
Quero ser professora que dá bronca e chance, mas nunca ignora,
quero ser aquela que abraça, recorda, aparece do nada,
a que adota o gato resgatado na estrada,
quero ser filha que manda o dinheiro necessário
sem pestanejar ou pensar na outra prestação
e quero ser a namorada que troca mensagem no meio da reunião...
Quero ser presente para quem está presente na minha vida
porque o poder mais transformador é o amor e a lida
as tarefas, as dores, as feridas e todas as coisas mais
se vão numa virada de destino
numa curva mal feita, na reação a um remédio,
pela arma na mão de um menino,
pelo safanão do homem que se pensava amar,
pela queda besta no banheiro,
pelo coração que decidiu parar,
pelo sangramento que não se pôde evitar,
pela tentativa bem sucedida
que fez da partida não desejada
um adeus completo...
Penso nisso, respiro, me aquieto...
Quero ficar aqui e ser
e há nesse desejo, eu sei, muito de ego
a ideia de permanecer plantada, por carinho
por intenção e por gesto,
em quem por mim foi amado ou amada...
Por isso o desejo de presença, por isso a crença
de que é necessário é preciso é urgente
dizer eu te amo a quem eu amo e estar presente
numa mensagem, num abraço, num olhar.
Sou desse tipo
estou desse tipo
e nada tem me convencido
de que é necessário mudar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carta ao corpo

Observo-o como a um filho
o corpo em si não é problema,
o corpo é um corpo feminino
que vive seus ciclos e tem
cabeça, tronco, membros,
sistemas, órgãos, ossos cobertos
de carne e pele,
na superfície,
unhas encravadas e cravos nas costas,
pelos e cabelos,
áreas úmidas,
oleosas,
ressequidas...
sim, um corpo normal
com quarenta e três anos de uso
por vezes comedido, por vezes irracional
um corpo apenas
veículo e única materialização possível do que sou
sujeito à minha colonização
meu planeta pessoal
meu corpo.

E, humana no limite,
desprezo-o
não tomo consciência completa dele,
não sinto suas dores, não me compadeço de seu cansaço
não observo nem respeito quando tudo de que ele necessita
é do meu abraço
do meu cuidado
do meu carinho
minha atenção.

Ah, corpo meu,
perdoa deixar-te tão sozinho
e ir voar entre tarefas inúteis?
Desajeitada e tosca
proponho uma trégua na guerra que me declaras
na esperança de uma singela, talvez frágil
mas sincera
reconciliação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

De conversas sobre o tempo




O corpo apresentará seus limites,
a mente acompanhará assustada,
a alma se perderá no caminho...
O tempo, implacável, nos come a todos,
sem tempero nem gosto, sorve
matéria e espírito,
Com ou sem lamento
tudo em nós, em breve,
será corpo do tempo.
Ignorar que somos dele a refeição
não diminui seu apetite voraz.
Tampouco haverá modo de evitar-se
que ele nos degluta...
Ah, tempo, tempo filhodeumaputa,
Eu me vingo sendo sempre
fervida,
e muito doce, ou amarga demais
Pra que cada mordida tua e cada vez
Que por ti sou engolida,
Que cada saliva tua que me banha
Com irrefreável sanha
Traga viva a lembrança da única verdade sustentada:
Sou seu alimento, breve serei nada,
Mas do agora de cada hora,
Enquanto conscientemente respiro,

Sou eu, a plena senhora.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Oração da lua ao sol*.

"Dá-me que eu me sinta teu"

Adona-te de mim, sol
sequestra-me de quem sou
faz de meu corpo tua habitação
toca, beija e consome.
Seja amor o cimento das fundações
do teu edifício
e de luz cobertas,
as paredes desse quarto
sejam floridos sorrisos.
Seja a cama aquecida com
pequeninos e prazerosos dèjavus.
Eu que já não sou mais flor fresca
à beira do lago
eu que trepadeira me espalho,
folhas secas sobre o noturno orvalho...
voa sobre mim como ave
toca-me o púbis, move-me a pelve
apascenta o lugar pra ti reservado:
a vida toda.
Volta,
desloca as fomes, os medos, as misérias
os segredos, as maldades e as imperceptíveis
ignorâncias
para baldios inóspitos e distantes
anula-os como aos germes
e me ama.
Vem,
e sejam cada instante,
cada vivência,
cada tarde, noite, hora,
manhã ou madrugada
seja cada toque ínfimo
um despertador
e cada chamado,
cada notícia ou conta
chegadas de dentro ou de fora
uma aventura nova
com sabor de vida plena
seja a vida
esse reescrito poema
porque estamos juntos
a iluminar essa estrada.


*por ocasião dessas cem noites ensolaradas.





.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Cena 3 pra quinta-feira

Ei...
quinta...
quinta dá? pra gente ficar junto?
Enquanto isso eu fico aqui
juntando assunto
ignorando a ânsia que me devora
pondo em ordem
a trilha sonora que me morde
o coração...
e embora saibamos exato
cada passo desse chão,
e embora não haja trato que nos trate
e que evite os colaterais efeitos
da paixão
essa amnésia que faz
tudo ser novidade
me parece boa, me apraz
me apazigua e regenera
subtrai minha idade e a dilacera.
A pele, o poro, o pelo, pedem
o corpo grita que quer mais...
então... dá? quinta, dá?
pra essa cena repetida
esse clichê que me dá vida
entrar em cartaz?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bliss - ou dos saberes fundamentais de um homem

Capa do CD de Jan A.P.Kaczmarek

Ele sabe
ele sabe sim
ele entende o caqueado...
a criatura
me mete a mão na cintura
me cheira, me vira de lado
num passo de dança
se lança
beija meu pescoço
como se lambesse a alma e o osso
me inspira em reticências
e lentamente conquista
licença pra entrar em mim.
Ele sabe.
Ele sabe sim.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

apassionata

Foto de Emannuel Keller. (http://animaliajungle.blogspot.com.br/2013/12/especie-hiena-malhada.html)

é um vírus instalado
que danifica sistemas consolidados
capaz de se impor
e quebrar rotinas,
desativar o abandono,
revirar o estômago,
apagar o sono,
retirar a paz e
ainda assim
num só compasso
destruir o cansaço
é o que ele faz.

Feroz e voraz
uma vez ativado
esse bicho cavalo-leão-hiena
age assim, sem vergonha ou pena
espalha marcas roxas 
no pescoço
e suja, sem culpa
meus cabelos, meus lençóis.

Começou o ano
e se contaminada
ardo na febre de mil sóis
é simplesmente 
porque eu amo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Novo de novo...

Quando o assunto não se esgota
mas a manhã
ao negrume do céu desbota,
nos permitimos, silentes
o curso de nova rota...

A  textura, a cor, o cheiro
aguçam cada sentido por inteiro
mesmo constantemente lavada
a carne viva
com esperma e suor e saliva
não se aplaca essa fome
por tanto tempo controlada
- embora ativa...

Já sabemos de cor o nome
e de onde deriva:
é amor
essa recidiva.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Receita de Feliz Natal

INGREDIENTES

Há que se ser paciente
com os vais e vens e vãos
mesmo nas horas cansadas.

MODO DE FAZER

Deixe que corpo e vontade
digladiem na arena do tempo
até a exaustão.
Remova as arestas da reserva
e entregue tudo a lenta e
contínua combustão.

MODO DE SERVIR

No centro da madrugada
com pitadas de raro gozo
salpicados pela cama
e pelo chão.