"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 4 de julho de 2018

Infinita Railway...


Edouard Manet, The Railway. 1873. Galeria Nacional de Arte. Washington.
Você tem 3, 4, 5 anos. Quero te abraçar e te dizer que vai passar. A saudade que você sente da sua mãe, que foi de novo trabalhar, vai passar. Vai chegar o dia em que será você quem partirá. Não se preocupe. A distância pode crescer, se alongar. Mas o amor de vocês não passa.

Você tem 7, 8, 9 anos. Quero te abraçar e te dizer que não há de ser nada essa humilhação de ser enxotada de baixo da banca da feira. É só uma cenoura, é besteira. Haverá repolhos e maçãs e tomates meio estragados que você poderá levar pra casa. E seu pai vai cozinhar e vai ficar gostoso e isso será só lembrança um dia. Mote pra viajar e fazer poesia. Chegará um dia em que não faltará comida na sua mesa. Quero te abraçar e te dizer que isso é certeza: a vida, nesse sentido, vai mudar. E você, que durante muito tempo não chegara aos 50 quilos, um dia desejará até emagrecer. Eu sei que é difícil acreditar, mas confie em mim, isso vai mudar e nunca mais a comida haverá de te faltar.

Você já tem 10, 12 anos. Quero te abraçar e te dizer que esse barraco com coisas empilhadas, essa bagunça onde não se encontra nada, onde você se sente perdida e desorientada, essa angústia e culpa pela desarrumação, vai habitar por muito tempo os sonhos que terás nas madrugadas. E é de coração, quero que saibas que está tudo bem não conseguir organizar as ideias, não conseguir manter as memórias, carregar os souvenirs da vida, não poder manter tudo sob controle. Você vai se entristecer muito por isso, até descobrir que tudo bem não poder ajeitar tudo, tudo bem que a vida esteja vez ou outra, muitas vezes, fora do alcance da sua arrumação. Bem mais tarde você descobrirá que isso não precisa deixar mudo seu coração.

Você tem 13, 14, 15 anos. Quero te abraçar e te dizer que seus muitos irmãos não se converterão todos em amigos. Algumas daquelas de quem você hoje troca fraldas amanhã estarão separadas de você por diversos motivos, te acharão insuportável, metida, exigente, exibida. Não entenderão nem serão gratas pela ajuda que você tentar oferecer. Te julgarão sem nunca terem passado pelo que você passou. Mas quero te dizer que você conseguirá fazer de seus irmãos mais próximos em idade seus verdadeiros amigos. E você não se sentirá sozinha para sempre. Além da multidão de pessoas que sinceramente manterá enorme apreço pelo que que você é, haverá amigos fiéis com os quais você poderá contar a qualquer momento. Pode acreditar, você nunca deixará de fazer novos amigos e a amizade será sempre seu refúgio e seu unguento.   

Você tem 18, 20, 35... A vida vai seguir rápida, você se verá adulta. Quero te abraçar e dizer que embora você se mantenha por um tempo considerável ao lado das pessoas que ama, as perdas acontecerão. Amigos se perderão no caminho, uns por falta de sabedoria e pelo fim do carinho, outros pra violência da polícia e do trânsito. Quero te abraçar e dizer que o susto da gravidez não pode nem vai te derrubar. Terás três frutos incríveis, que maduros, te acompanharão com amor incondicional. Serás mãe, da forma mais extraordinária, de mulheres admiráveis que, na vida, serão tua limalha. Sofrerás dores de amores que te farão pensar em morrer. E serás órfã de pai, como suas filhas também serão, quando te tornares viúva de um iluminado ser chamado Vavá. Quero te abraçar e te dizer que isso vai doer pra sempre, mas que você se surpreenderá. Porque serás capaz de carregar com leveza a saudade e a dor. E converte-las constantemente em mais poesia e mais amor.

E quando um dia finalmente te vires bonita no espelho, quando reconheceres a importância e o deleite de teu corpo, mais de quarenta anos já terão em ti se achegado. E embora faças yoga, terapia, meditação e te cubras de tantos cuidados pra que novas tentativas de romper com a própria vida não voltem a acontecer, sentirás medo. Quero te abraçar e dizer que respires e lembres que o medo da vida pela frente só tem sentido se você desprezar todo esse passado. Você já tem a consciência de que é um cadáver adiado, tudo bem. 

Você tem 42, 43, 44. Quero te abraçar e dizer que nem sempre você dará sorte com um namorado. Haverá covardia e maldade no seu caminho. Mas a esperança de dar certo o plano de partilhar a vida te fará sempre tentar de novo, você não negará carinho. E isso é surpreendente e belo, você se renova, sonha e se entrega. Quero te dizer que apesar do medo, é coragem quem te move, você age com o coração. E nesse momento não importa apontar o quanto isso é negativo ou bom. E que deves sim abrir mão das convicções antigas e permitir-se a alegria de ser amada por quem parecer mais improvável: você pode e a alegria que virá disso te fará de novo, do amor, uma aprendiz. 

Então você completa 45. No rosto e no espírito já tens vincos... Como mulher crescida que observa a criança que ainda é, quero te abraçar, te pedir perdão pelas vezes que te abandonei e te dizer que em toda e qualquer hipótese, estarei ao seu lado. Amorosamente te reconheço como meu suporte, meu tronco, fruto e raiz. Orgulhosamente me apodero do que és, do que de ti eu fiz. Quero me abraçar e me dizer que tudo bem ser quem eu fui, ser quem eu sou e que a meta é me fazer, o mais possível, mais e mais feliz.    


domingo, 24 de junho de 2018

Predicados de domingo

Pensamos sobre nós
E pesadas as provas de que somos
Pernósticos,
pervertidos,
preguiçosos
e procrastinandores
Nos percebemos
Mais que um par perfeito:
Puta parzão da porra!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sísifo - de Ticiano. (1549/49). Museu Nacional do Prado.
meu espírito
anda cabisbaixo...
nas telhas, de manhã
a chuva parece
querer tocar um fado.
afasto a cama da goteira
pro outro lado

andei perscrutando
o que está se passando e
descobri porque diabos
o sono tem faltado
está pesado
andar na rua
e ver tudo molhado
cachorro, poça, chão, gente
criança seminua
tudo misturado...

levanto sem ter dormido
afasto a cama pro lado
a chuva parece novamente
querer tocar um fado
e o fato apurado
é que meu coração quer
carregar o mundo
mas está pesado.

domingo, 10 de junho de 2018

Caravaggio: São Jerônimo escrevendo, 1606, 112x157 cm, Galeria Borghese, Itália

nos últimos tempos tenho ouvido uma porção de estetas.
um poeta que me diz que poetas não falam do que é ser poeta,
outro que julga o cânone e, para dele se afastar,
acaba perpetuando-o, por ora como modelo a se evitar
outro, que sem pudor, brada que amor não é tema de que se trate
e aquele que, na entrelinha de sua fala
julga que poeta mesmo é aquele que se cala
aquele que, antes que a vida lhe arrebate, se mate.

fecho-me emimesmada em meu quarto
vaidosa de mim e dos meus defeitos todos
livre e orgulhosa de sê-lo
divagando sobre tantas regras que não quero
outras com que converso
outras que não aceito,
deixo o julgamento pros juízes
e espalho-me feito lama nesse espaço
que é frágil e cheio de deslizes
que não busca nem dispensa
café ou fama
que é construto do amor que vivo
na sala
na rua
muitas vezes na cama.

nos últimos tempos tenho ouvido uma porção de estetas
e para minha imprecisa verve de poeta
penso que eu não preciso
pois que espelho-me em mim 
e só me escrevo
(não porque a mim eu dedique enorme apreço
mas porque construo um possível lago de narciso
e me banho
nos versos que entreteço).


*a maior obra que você será capaz de construir é a si mesmo. 


terça-feira, 5 de junho de 2018

Ines Doujak, Hera, 2008.
Exhibition View CARLONE CONTEMPORARY. Belvedere2018.
photo Johannes Stoll
só e lindamente líquida
me integro ao mundo
me entrego ao mundo
me espalho
cobrindo peles
e páginas.

desincrusto de cada poro
e entrego maduro
o fruto
do profundo
e intestino desejo

amo muito
e a energia de que me despojo
suplanta o medo
escapo ilesa para ser presa
no topo que almejo:

e gozzzzzzo
gozo
goooooooozo.

domingo, 20 de maio de 2018

Às claras

Nu, folhas verdes e busto. Pablo Picasso, 1932

Amor é coisa grande pra estender na varanda
na praça, no sol, na chuva, na rua...
amor que é amor
põe a vida nua. 

Amar com leveza é coisa pros grandes
Não o espere de quem te pede segredo
ou se apequena diante do medo
porque a verdade 
é que não importa aonde
amor é coisa que, uma vez sentida,
não se esconde. 


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Pra sua hipocrisia com um beijo.

Le baiser de L'artiste, Orlan, 1977.
você viu?
a guerra anda beijando a terra
explodindo criança, velho, igreja, homem, mulher
você viu? 

você viu?
a ganância beijando o ambiente
desfazendo rio, planta, morro, mamífero, serpente
você viu?

você viu?
a chuva beijou as roupas da família
que caminhava novas trilhas
na BR 174
em busca de boas vistas
e, quem sabe, com comida
um novo prato...
você viu???

você viu?
a miséria beijando o estômago dos meninos
e distribuindo-os pelos sinais, 
vulneráveis e franzinos
você viu? 

você viu?
todo dia 
buracos abertos no asfalto e nas consciências
beijam meninas 
as derrubam arrancando pele, 
rompendo ossos
você viu?

você viu
que no hospital
a má fé dos poderosos beija a todos
com seu atraso
e em plena agonia, 
sem leitos nem materiais
sobram soberbos os beijos do descaso 
você viu?

você viu?
me diz se você viu esses beijos?
ou se você é daquelas
que só vê, se horroriza e comove
com beijos de amor gay 
nas novelas?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Entre amigos

Foto: wildlifeday.org

o dia segue pro fim
flutuo na cadeira onde trabalho
trabalho, trabalho, trabalho 
e quase não caibo em mim.

não se descreve sensação tão grata
de desangústia e assossegamento, 
cansaço contente, de quê? Um abestamento
temperança na tempestade
a amizade é coisa de certeza insana: 
 - calma, bacana, que eles existem
e tudo está bem!

o coração bate tanto quanto 
ainda há coisas por fazer 
e males a sanar
e o mundo segue a girar e girar e girar.

mas hoje eu não vou,
fixei-me nesse espaço de me dar
tempo, um lar, amor, cuidados
meus amigos cultivados
amores pra se cantar

avisem à loucura que hoje não vou
porque estou plena
e a levitar. 
  

terça-feira, 10 de abril de 2018

De perdas e perdão.

The Daily Bread, by Thomas Benjamin Kennington, National Museum Liverpool.
Venta.
o sino não para de tocar na varanda
o céu azul encobre a manhã 
que se doura
lentamente.
acordo do sono induzido
venta
o coração pressente o dia
a pele se arrepia
e venta, venta, venta.
sacolas vazias alçam voo nas ruas empoeiradas
e o menino a quem falta comida, 
trabalho, casa, cama
suspira, olhos fechados:
que bom, venta...

Não há venda nos olhos de quem não vê
mas falta vontade no corpo de quem não ama.

Revejo a imagem de um menino ao longe
aos treze anos, debruçado sobre o pai morto
ouvindo seu coração silenciado:
o menino que em breve teria o dedo torto
um menino, que em breve seria só mais um
navegando na miséria de São Paulo...
 
Meu pai!
Como venta hoje na cidade ao norte!

Tocado cedo pela morte
aquele menino que o senhor foi me tira o sossego. 
O dia nasceu
e tu andas ainda, pai, 
nas memórias do meu degredo
nessas ruas que o vento lambe e teus pés jamais pisaram
te vejo em centenas de outros meninos
desesperançado, perdido, com medo, 
sozinho nas ruas, insone e faminto.
Não é segredo, meu pai,
nem é destino!
e como eu sinto...
eu sinto muito, 
perdão meu pai.  

domingo, 1 de abril de 2018

Auto de fé*

Lucas Velázquez, Auto da fé. 1853.
 [Public domain], via Wikimedia Commons
Creio.
Se o que se preza
é não temer a perigosa
curva da estrada
se o viver, eu bem sei
pode a qualquer momento
esvair-se no nada
me prostro agora
diante de ti
e nesse altar
em que fartamente
me alimento,
danço, canto, represento
acendo incenso e velas,
por um momento
ascendo ao eterno.

E não me importo
se de descrença e medo
se enchem as horas tortas
em desalinho
sou de fé, sigo o caminho estreito
faço do amor porto e morada
e gozo e reza
ressurreição na qual me faço
reinventada.

E não me importo
não me importo de ser devota
de cada centímetro do teu corpo
e de cada gota que, de ti, brota.
À tua voz, teu olhar e teu sorriso
sou fiel e rendo culto nesse instante
do modo mais precioso e preciso:
sendo sua amada
e sua amante.

*ou Poema de Páscoa para Vitor.