"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



segunda-feira, 18 de junho de 2018

Sísifo - de Ticiano. (1549/49). Museu Nacional do Prado.
meu espírito
anda cabisbaixo...
nas telhas, de manhã
a chuva parece
querer tocar um fado.
afasto a cama da goteira
pro outro lado

andei perscrutando
o que está se passando e
descobri porque diabos
o sono tem faltado
está pesado
andar na rua
e ver tudo molhado
cachorro, poça, chão, gente
criança seminua
tudo misturado...

levanto sem ter dormido
afasto a cama pro lado
a chuva parece novamente
querer tocar um fado
e o fato apurado
é que meu coração quer
carregar o mundo
mas está pesado.

domingo, 10 de junho de 2018

Caravaggio: São Jerônimo escrevendo, 1606, 112x157 cm, Galeria Borghese, Itália

nos últimos tempos tenho ouvido uma porção de estetas.
um poeta que me diz que poetas não falam do que é ser poeta,
outro que julga o cânone e, para dele se afastar,
acaba perpetuando-o, por ora como modelo a se evitar
outro, que sem pudor, brada que amor não é tema de que se trate
e aquele que, na entrelinha de sua fala
julga que poeta mesmo é aquele que se cala
aquele que, antes que a vida lhe arrebate, se mate.

fecho-me emimesmada em meu quarto
vaidosa de mim e dos meus defeitos todos
livre e orgulhosa de sê-lo
divagando sobre tantas regras que não quero
outras com que converso
outras que não aceito,
deixo o julgamento pros juízes
e espalho-me feito lama nesse espaço
que é frágil e cheio de deslizes
que não busca nem dispensa
café ou fama
que é construto do amor que vivo
na sala
na rua
muitas vezes na cama.

nos últimos tempos tenho ouvido uma porção de estetas
e para minha imprecisa verve de poeta
penso que eu não preciso
pois que espelho-me em mim 
e só me escrevo
(não porque a mim eu dedique enorme apreço
mas porque construo um possível lago de narciso
e me banho
nos versos que entreteço).


*a maior obra que você será capaz de construir é a si mesmo. 


terça-feira, 5 de junho de 2018

Ines Doujak, Hera, 2008.
Exhibition View CARLONE CONTEMPORARY. Belvedere2018.
photo Johannes Stoll
só e lindamente líquida
me integro ao mundo
me entrego ao mundo
me espalho
cobrindo peles
e páginas.

desincrusto de cada poro
e entrego maduro
o fruto
do profundo
e intestino desejo

amo muito
e a energia de que me despojo
suplanta o medo
escapo ilesa para ser presa
no topo que almejo:

e gozzzzzzo
gozo
goooooooozo.

domingo, 20 de maio de 2018

Às claras

Nu, folhas verdes e busto. Pablo Picasso, 1932

Amor é coisa grande pra estender na varanda
na praça, no sol, na chuva, na rua...
amor que é amor
põe a vida nua. 

Amar com leveza é coisa pros grandes
Não o espere de quem te pede segredo
ou se apequena diante do medo
porque a verdade 
é que não importa aonde
amor é coisa que, uma vez sentida,
não se esconde. 


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Pra sua hipocrisia com um beijo.

Le baiser de L'artiste, Orlan, 1977.
você viu?
a guerra anda beijando a terra
explodindo criança, velho, igreja, homem, mulher
você viu? 

você viu?
a ganância beijando o ambiente
desfazendo rio, planta, morro, mamífero, serpente
você viu?

você viu?
a chuva beijou as roupas da família
que caminhava novas trilhas
na BR 174
em busca de boas vistas
e, quem sabe, com comida
um novo prato...
você viu???

você viu?
a miséria beijando o estômago dos meninos
e distribuindo-os pelos sinais, 
vulneráveis e franzinos
você viu? 

você viu?
todo dia 
buracos abertos no asfalto e nas consciências
beijam meninas 
as derrubam arrancando pele, 
rompendo ossos
você viu?

você viu
que no hospital
a má fé dos poderosos beija a todos
com seu atraso
e em plena agonia, 
sem leitos nem materiais
sobram soberbos os beijos do descaso 
você viu?

você viu?
me diz se você viu esses beijos?
ou se você é daquelas
que só vê, se horroriza e comove
com beijos de amor gay 
nas novelas?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Entre amigos

Foto: wildlifeday.org

o dia segue pro fim
flutuo na cadeira onde trabalho
trabalho, trabalho, trabalho 
e quase não caibo em mim.

não se descreve sensação tão grata
de desangústia e assossegamento, 
cansaço contente, de quê? Um abestamento
temperança na tempestade
a amizade é coisa de certeza insana: 
 - calma, bacana, que eles existem
e tudo está bem!

o coração bate tanto quanto 
ainda há coisas por fazer 
e males a sanar
e o mundo segue a girar e girar e girar.

mas hoje eu não vou,
fixei-me nesse espaço de me dar
tempo, um lar, amor, cuidados
meus amigos cultivados
amores pra se cantar

avisem à loucura que hoje não vou
porque estou plena
e a levitar. 
  

terça-feira, 10 de abril de 2018

De perdas e perdão.

The Daily Bread, by Thomas Benjamin Kennington, National Museum Liverpool.
Venta.
o sino não para de tocar na varanda
o céu azul encobre a manhã 
que se doura
lentamente.
acordo do sono induzido
venta
o coração pressente o dia
a pele se arrepia
e venta, venta, venta.
sacolas vazias alçam voo nas ruas empoeiradas
e o menino a quem falta comida, 
trabalho, casa, cama
suspira, olhos fechados:
que bom, venta...

Não há venda nos olhos de quem não vê
mas falta vontade no corpo de quem não ama.

Revejo a imagem de um menino ao longe
aos treze anos, debruçado sobre o pai morto
ouvindo seu coração silenciado:
o menino que em breve teria o dedo torto
um menino, que em breve seria só mais um
navegando na miséria de São Paulo...
 
Meu pai!
Como venta hoje na cidade ao norte!

Tocado cedo pela morte
aquele menino que o senhor foi me tira o sossego. 
O dia nasceu
e tu andas ainda, pai, 
nas memórias do meu degredo
nessas ruas que o vento lambe e teus pés jamais pisaram
te vejo em centenas de outros meninos
desesperançado, perdido, com medo, 
sozinho nas ruas, insone e faminto.
Não é segredo, meu pai,
nem é destino!
e como eu sinto...
eu sinto muito, 
perdão meu pai.  

domingo, 1 de abril de 2018

Auto de fé*

Lucas Velázquez, Auto da fé. 1853.
 [Public domain], via Wikimedia Commons
Creio.
Se o que se preza
é não temer a perigosa
curva da estrada
se o viver, eu bem sei
pode a qualquer momento
esvair-se no nada
me prostro agora
diante de ti
e nesse altar
em que fartamente
me alimento,
danço, canto, represento
acendo incenso e velas,
por um momento
ascendo ao eterno.

E não me importo
se de descrença e medo
se enchem as horas tortas
em desalinho
sou de fé, sigo o caminho estreito
faço do amor porto e morada
e gozo e reza
ressurreição na qual me faço
reinventada.

E não me importo
não me importo de ser devota
de cada centímetro do teu corpo
e de cada gota que, de ti, brota.
À tua voz, teu olhar e teu sorriso
sou fiel e rendo culto nesse instante
do modo mais precioso e preciso:
sendo sua amada
e sua amante.

*ou Poema de Páscoa para Vitor.

terça-feira, 27 de março de 2018

Pergunta aos pais.

Imagem disponivel em https://www.rapidonoar.com.br/ah-os-filhos/
Não te dói
ter de ensinar à menininha
que é perigoso estar sozinha?
Não te dói
explicar a lição
de que ela deve ter o ar mais grave e sério
ao passar perto de uma construção?
Não te dói
dizer a ela que não viaje sozinha
que não dê carona
que não fale de si
que mude sempre o caminho
que não beba, não dance
não mostre muito do corpo
não se destaque, não brilhe
não seja bela, nem livre
não sorria para estranhos
e que se cubra de remorso
quando a violência lhe encontre?
Eu te digo, não me dói
na verdade me destrói
corrói a alma e o osso
repetir essas noções
como se fôssemos frágeis
quando a verdade
é que a única fragilidade
tristemente repetida
é a do valor que os homens
dão à nossa feminina vida.

domingo, 18 de março de 2018

Aviso - ainda que eu ache que você saiba

"Eu sou o cio da tribo e posso até fecundar"*

Quando amo
sem medo ou engano
dou
dou minha casa, meu carro, meus livros
meus sorrisos, meu dinheiro,
meu afeto
meu corpo e seus produtos
por completo
dou a pele, as mucosas, os olhares...
Se quiseres
serão teus os gozos de esquecer o tempo
as unhas e os dentes
a saliva
os pensamentos
e em cada pelo
um apelo da carne viva.

Dou-te cores de cegar
dores de tirar dos trilhos
e quando você me acessar
pulsando o amor em meus sistemas
dou-te filhos, muitos filhos:
os meus e os teus poemas.


*Neuber Uchoa em Cruviana