"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 16 de maio de 2017

Fênix*



à espreita na noite vazia
à espreita na hora vazia
à espreita na vida vazia
você procura o inimigo
e só, das dores vazia,
e esvaziada de si
assim segue bem consigo.

você procura os sinais
insiste, apura e quer mais
uma dor, uma cor, um adeus
fareja, fuça, fustiga
firma e fulmina - fatais,
afetos afoitos, os seus.

e nessa busca de cura
você vive intensa e livre
cheira toca lambe cospe
morde e goza - criatura recriada;
assim você se revive
tu mulher, é perigosa
quando se encara no espelho
descarta o velho modelo
se abraça e veste de novo...

pois vou te dar um recado
pra de mim não te perder
logo verás que a procura
a loucura, a cura, o encanto
são bordado do teu manto
de puta triste e santa má
desde o início até o fim.

haja ternura
nessa busca para a cura
da doçura e amargura,
loucura de ser quem és...
procura sem medo, toca
nas tetas, atos, nos testes
nas réstias de tantos tatos
nos restos de tantos tratos
nos ecos de tantos textos...
mas tenta, tão simplesmente
sobre rastro tão dantesco
nas trevas, tretas e tantras
entoar teus próprios mantras
ser tu o palimpsesto.


*Ou a respeito do propósito de "me curar de mim", cantado por Flaira Ferro.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

De quem?

foi por engano, me diz
aquela mensagem infeliz
me expulsando do peito, das horas, da vida
que por ora eu ainda acreditava passível
de ser compartida

foi por engano, me diz
a semana silenciosa
a distância calculada
a vida insossa perdida entre horas
de TV 
e nada

foi por engano, me diz
que você decidiu partir
repartir o que antes unira
e partir em mil 
esse coração que sozinho delira

diz que foi engano
mas especifica:
se foi meu, parte
se foi teu, 
fica. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Das razões dessa flor.

"Se perguntar o que é o amor pra mim. Não sei responder. Não sei explicar. 
Mas sei que o amor nasceu dentro de mim.
 Me fez renascer. Me fez despertar..." 
Arlindo Cruz


É mais do mesmo, é tudo novo de novo mas deixa eu ver se me explico.
Claro, meu caro, que se decide por isso.
Pode ser mais ou menos conscientemente, mas a gente vai enumerando motivos antes de pular do abismo. Num ato de egoísmo se vai calculando a queda, o vento rasgando a pele antes da pedra, sim, a gente vai minuciosamente medindo tudo... escolher a companhia para o pulo é um jeito de não morrer mudo, um jeito de ser ouvido, de permanecer por ter estado. Escolhe-se o outro numa estratégia de permanecer, de se estar quando já se foi. O outro tropeça-nos e se avalia o tropeção. Decidimos se é bom ou não e se for uma maneira melhorada de se estar... bem, eu creio, meu bem, que em grande parte é disso que se constitui o amar.
Não tem enguiço, há que se admitir o feitiço de anos de observação... meus olhos sempre se detiveram nesse All Star preto, na calça larga, nos lábios grossos e nesses olhos apertados de índio... Sim, essas coisas que eu acho lindas. É fato que não és tão alto quanto em geral me toca, mas sempre com esse enigma indecifrável na face, esse meio sorriso no canto da boca, me atraías pra fora da toca, qual seria afinal sua verdade? E finalmente tinha o agora objetivo da minha e da sua caminhada:  o fato de estarmos sós e querermos companhia pra andar de mãos dadas... Feito gata, apostei uma das vidas pra matar a curiosidade que sempre tive: arranho, arrisco, me enrosco, pergunto: posso? Não me contive. Consentida, ouvi sua voz suave no meio da madrugada, encontrei o pelo a pele o cheiro a cor... toquei e descobri o gosto da saliva, as mãos que passeiam fazendo a pele vibrar em carne viva... horror seria não me deixar gozar, fingir que não foi bom, negacear...
Mas alto, alto lá que não é tão simplório assim, não pra mim. Houve ainda outros passos antes do salto. As horas passaram, os dias passaram e ainda assim não nos faltava assunto... e é tanto e tanto mais carinho que tudo o que eu queria era estar ali, junto a ti, sorrindo ao ouvir um vinil, no jogo de uma piadinha vil, nas raivas compartilhadas sobre o Brasil, nas tramas de família, ilhados pela internet que não ajuda... e qualquer coisa que a gente fizesse, uma louça que a gente lavasse, um livro que a gente lesse, uma aula que a gente ouvisse, uma música resgatada... fizemos tanto, não fizemos nada e nos intervalos fazíamos amor e pareceu-me uma prece. Assim, aos poucos, fui me soltando no espaço de queda onde o amor se fortalece.
A queda tem sido brusca, pois nem tudo, aliás, quase nada entre nós possui leveza. Somos densos, tu dirias. Mas não há como negar tanta beleza no peso de sermos nós... assim fui tocando e retocando os laços, refiz os passos de suas histórias e as costurei caprichosamente por dentro, como se fossem minhas... tu me ouvias, eu te ouvia e a cada reconhecimento de atitude, a cada vicissitude superada, a cada trauma e marca na alma identificados, a cada palavra gêmea proferida eu fui assim, do meu jeito, projetando outros caminhos... e as bagagens agora levadas em par pareceram tão mais leves de se levar...
Essas coisas todas me chegaram somadas num pacote de presente e encontraram-me com a dolorosa e inescapável consciência da nossa efemeridade. Juro, de verdade, é isso que me faz ter tanta urgência do presente, do agora, do tempo que não se pode jogar fora, de fazer valer a promessa primeira, estar junto pra estar bem, pra se acompanhar até o fim do mundo, pra ir mais fundo nessa vulnerabilidade que nos reforça o vínculo. É urgente essa partilha planejada.
Daí que você pergunta se eu te amo tanto assim... Daí você quer saber as razões que movem a mim... e eu enumero toscamente nesse texto as razões pro que te assusta. Saiba que me jogar de novo nesse abismo que é amar também me custa, às vezes, uma parte enorme da alma. Mas tenha calma, criatura. Já tenho idade pra saber que desse mal também se cura. Não vamos morrer de amor, mesmo que ele chegue a nos afogar. Amar, assim como ficar bem, não tem garantia, mas é decisão a se tomar.
Sei que é tola a iniciativa de se explicar o que se sente. Fato é que eu já saltei e o resto todo depois se vê.
Sim, eu já apostei novamente: sem dúvida eu amo você.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Para o poeta com um beijo.

imagem disponível em

é vento que te passeia por dentro
e escapa devagar por entre os dentes
úmido de saliva
ah, a poesia...
proferida em silêncio no respirar do poeta
é um cometa que se acende no ar...

gosto sobretudo do cheiro dela
e é isso que me impele, continuamente a tocar
suave e incerta, com meus lábios
os lábios doces
de quem a faz vibrar.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Da inquietude dos dias.

Você não me diz, mas deixa
assim nós dois pra depois
pra depois do expediente
pra depois da conta paga
pra depois da aula dada
pra depois depois depois
e o encontro vai ficando
pra depois do seu cansaço
e o abraço, a troca, o gesto
vão passando nesse passo...

Depois o café esfria
depois nem o sono vem
o gosto vai se perdendo
o cheiro some também.
E tanta coisa bonita
amor, desejo, paixão,
se empedra e se apodrece
quando só o depois vigora...

Pelo que eu sei agora,
eu te peço, não ignora:
depois se perde, por um triz,
o que a vida trouxe de graça
e essa chance de ser feliz
deixada assim, pra depois
também passa.

terça-feira, 28 de março de 2017

Angústia confessada

Por mim
você bem que podia parar agora.
Essa chuva fina caindo lá fora
essa dor fina no entre do osso
essa angústia afiada marcando os segundos
o mundo e toda a maldade do mundo
tudo isso junto só me convence
que é injusto esse trabalho tanto
que essa luta ninguém vence...
o meu coração apertado de saudade
se aborrece ao ver o teu caminho cheio
e me pergunto, menina abandonada
se era pra não estar,
pra que veio?

É bem assim
que eu me sinto agora
por mim você bem que podia parar
por mim
já se passa da hora.

sábado, 18 de março de 2017

Aprendizados

Crying Woman, Pablo Picasso. 1937
quando sentiu aquele cheiro
atiçando a suspeita
de que morrera a emergência apaixonada,
primeiro chorou.

engasgada
esforçou-se para limpar a boca:
com palavras inexatas
e lágrimas e dor
engoliu o regurgitado coração,
e se fez silenciosa
em espera e observação.

mas foi repetido o novo gesto de tanto faz
e as novas prioridades
tomando a frente dos dias perfilados
ressaltavam para ela
um espetáculo macabro:
quase nada aprendera com a vida
e os amores passados
e mais uma vez, com susto e enfado
verificava que as horas vazias
restavam amontoadas
apenas do seu lado.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Entre o fazer, o ter, o ser.

Detalhe de tumba do século XIX em Santarém, PA.
Eu sou do tipo que quer beijo de língua às três da tarde da quarta-feira
que põe poesia na vida, sem hora, a vida inteira
carinhosa carente,
que de carinho carece e dele se faz exigente
hedonista, não sei, mas gosto e quem não gosta de prazer?

na curva dos enta, sou a que tenta mudar
hoje estou cansada de tanta obrigação de fazer
e fazer
e fazer
e fazer
sim, posso e até quero fazer,
mas entre isso quero, sobretudo, ser
porque é preciso ser pra fazer história
quero ser mãe que acolhe e cuida no meio da madrugada
sem pensar no dia que vem e nas correções dos trabalhos e na entrega das notas
e em mais nada
porque uma filha, irmã, amiga precisa de mim no agora.
Quero ser professora que dá bronca e chance, mas nunca ignora,
quero ser aquela que abraça, recorda, aparece do nada,
a que adota o gato resgatado na estrada,
quero ser filha que manda o dinheiro necessário
sem pestanejar ou pensar na outra prestação
e quero ser a namorada que troca mensagem no meio da reunião...
Quero ser presente para quem está presente na minha vida
porque o poder mais transformador é o amor e a lida
as tarefas, as dores, as feridas e todas as coisas mais
se vão numa virada de destino
numa curva mal feita, na reação a um remédio,
pela arma na mão de um menino,
pelo safanão do homem que se pensava amar,
pela queda besta no banheiro,
pelo coração que decidiu parar,
pelo sangramento que não se pôde evitar,
pela tentativa bem sucedida
que fez da partida não desejada
um adeus completo...
Penso nisso, respiro, me aquieto...
Quero ficar aqui e ser
e há nesse desejo, eu sei, muito de ego
a ideia de permanecer plantada, por carinho
por intenção e por gesto,
em quem por mim foi amado ou amada...
Por isso o desejo de presença, por isso a crença
de que é necessário é preciso é urgente
dizer eu te amo a quem eu amo e estar presente
numa mensagem, num abraço, num olhar.
Sou desse tipo
estou desse tipo
e nada tem me convencido
de que é necessário mudar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carta ao corpo

Observo-o como a um filho
o corpo em si não é problema,
o corpo é um corpo feminino
que vive seus ciclos e tem
cabeça, tronco, membros,
sistemas, órgãos, ossos cobertos
de carne e pele,
na superfície,
unhas encravadas e cravos nas costas,
pelos e cabelos,
áreas úmidas,
oleosas,
ressequidas...
sim, um corpo normal
com quarenta e três anos de uso
por vezes comedido, por vezes irracional
um corpo apenas
veículo e única materialização possível do que sou
sujeito à minha colonização
meu planeta pessoal
meu corpo.

E, humana no limite,
desprezo-o
não tomo consciência completa dele,
não sinto suas dores, não me compadeço de seu cansaço
não observo nem respeito quando tudo de que ele necessita
é do meu abraço
do meu cuidado
do meu carinho
minha atenção.

Ah, corpo meu,
perdoa deixar-te tão sozinho
e ir voar entre tarefas inúteis?
Desajeitada e tosca
proponho uma trégua na guerra que me declaras
na esperança de uma singela, talvez frágil
mas sincera
reconciliação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

De conversas sobre o tempo




O corpo apresentará seus limites,
a mente acompanhará assustada,
a alma se perderá no caminho...
O tempo, implacável, nos come a todos,
sem tempero nem gosto, sorve
matéria e espírito,
Com ou sem lamento
tudo em nós, em breve,
será corpo do tempo.
Ignorar que somos dele a refeição
não diminui seu apetite voraz.
Tampouco haverá modo de evitar-se
que ele nos degluta...
Ah, tempo, tempo filhodeumaputa,
Eu me vingo sendo sempre
fervida,
e muito doce, ou amarga demais
Pra que cada mordida tua e cada vez
Que por ti sou engolida,
Que cada saliva tua que me banha
Com irrefreável sanha
Traga viva a lembrança da única verdade sustentada:
Sou seu alimento, breve serei nada,
Mas do agora de cada hora,
Enquanto conscientemente respiro,

Sou eu, a plena senhora.