"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Desesperança

Imagem: @_5le,
 Disponível em http://www.imgrum.org/media/889099935589827218_470347527
Chegaram-me hoje notícias de longe
de Green Point, de Cape Town
notícias de meninas pretas
lavadas em sangue,
jogadas em fossas
estupradas,
"corrigidas".

Chegaram-me hoje notícias de longe
de homens engravatados
grávidos de ódio
agravando abismos
em nome de deus.

Disseram-me forte hoje,
eu que burguesamente há dias
me esvaio em lágrimas
peito aberto, sangrado, sofrido
lamentando mais um sonho perdido
e desesperando por causa de amor...
eu recebi notícias de longe
que me ferem tal qual o abandono,
notícias que me tiram o sono,
notícias que me ampliam a dor.

Tanta treva
me trouxe à memória
notícias velhas de mis hermanas
putas pobres, travestis,
retirantes nordestinas
e imigrantes venezuelanas.

Sinto como se fosse minha cada ferida
e vago nesse escuro,
minha voz e meu verso são impotentes
embora eu não fique em cima do muro
sinto-me inválida, solitária e triste
diante da violência que avança
com a espada em riste
e veloz, vertiginosa
subverte sujeitos
e criminaliza afetos
nega aos não-normatizados
sua condição humana
e os descarta,
como abjetos objetos...


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Capa de" J'ai besoin de tendresse", de Ange Axel Moncorgé.2016.

Vou guardar meus poemas
meus três metros de mensagens
sem respostas
minhas mãos passeadeiras em suas costas
meus abraços fora de hora
meus beijos doados sem medo
minha boca, meu tesão
vou guardar a ânsia de te ver
vou guardar a ânsia de te ouvir
vou guardar a ânsia de viver
e do teu lado dormir.

Vou guardar pra mim
os atos de amor escondidos
na compra de supermercado
no banho do seu cachorro
no wafler de limão
no vinho na geladeira
na roupa nova pro colchão
no sexo de segunda-feira
e a aquarela em que eu, inteira
me coloquei na sua mão.

sim meu amigo
não se preocupe, eu não brigo
sou desse jeito, e no meu peito
pelo sim, pelo não
Vou guardar aqui  
o que você, na sua sandice
amarga e duramente 
me pediu que eu não repetisse...
não vou deixar meu amor se esvair completo
nessas lágrimas em que há tantos dias 
eu me derramo, derramo, derramo...
repito e guardo pra mim,
já que você, distante e covarde, prefere assim
não te digo mais que eu te amo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar"

"quem cultiva a semente do amor
segue em frente e não se apavora
se na vida encontrar dissabor
vai saber esperar sua hora..." 
Tá escrito, grupo Revelação
estão se indo os dias de chuva,
é cedo, cedo e a menina samba
constrói um espinhaço
espiral de energia que ascende ao espaço
braço, perna, quadril
tudo a mil
rodopia
fecha os olhos e dentro
sapateia com gosto de quem se vinga
as brotadas ervas daninhas
mentira tristeza decepção desamor

ela requebra
faz um sapatinho
e olhando pra cima não vê
as memórias de alguém
que sequer saberia dizer
o poder que tem sambar
pra curar seu coração.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Descontrolada e incerta

A duras penas tenho aprendido
que o incerto não é errado...
O incerto é esse cinza que me embaça o olho
miro-o como quem encara a lança no peito
como quem perde o último fôlego rio adentro
como quem, da forca, sente a abertura do cadafalso
enfrento-o na rua e no leito
no dia raiado, na tarde murcha
na madrugada insone
o incerto a tudo vence
e nos consome...

debato-me frouxa com o desejo inconformado,
descontrolado,
de controle.
eu que tarde descobri as lições do fluir
ainda me perco amiúde entre quereres e fervores
me acinzento
desacatando crepúsculos e amanheceres
que se acumulam na retina pra me lembrar que me afogo
que me firo a ferro e fogo
ao tentar, por força
esse jogo vencer.

afiro a vida
e respiro de novo,
e de novo,
e de novo
invocando o mantra que me tortura e salva
 - pois que destrói quem, tolamente, acreditei ser:
"não lutar,
nem temer."

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Feita d'água.


http://cultura.culturamix.com/arte/esculturas-de-gelo
fluo líquida
espalhando-me empática
pelo terreno do outro

fluo líquida
e por vezes esbarro em gélidas superfícies
solidifico ali
presa à negativa temperatura
rígida
tomo formas belas
mas estou quase sem vida
sinto-me agredida
quando me vejo
pedra e sal
cubo de gelo braços atados
no peito arde um temporal...

é tempo de espera esse
vou ressecando aos poucos,
tomo ar
tomo ar
tomo ar
atinjo lenta a desintegração que me renova
é longo o processo que me leva, leve, de novo
ao movimento
fluido
solto.

me sei líquida de um jeito oposto
essa entrega ao terreno do outro
mas sinto gosto é quando sou contida
sinto gosto é de ser aquecida
gosto quando me sorvem
ou me evaporam
toda fervida.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

o que eu proponho
é bem mais simples que um simples sonho:
é dia dos namorados
e como nós - incomunicados
não falamos mesmo a mesma língua
ainda assim, não fiquemos à míngua
sejamos nós menos orgulhosos e mais sábios:
eu lavo-te a glande com saliva
tu levas a língua aos meus pequenos lábios
e juntos fazemos a noite mais viva.


domingo, 4 de junho de 2017

Postagem de dor, saudade e gratidão


Se hoje eu me autodenomino Elimacuxi, devo em grande parte à generosidade dela, que me acolheu, me amou, me encorajou. Há mais de uma década atrás, quando o termo macuxi ainda era usado como ofensa por muita gente que chega de fora a essa terra, foi ela quem me disse "pois não deixe que te questionem não, se alguém frescar perguntando porque macuxi pode dizer, 'porque sou filha da dona Rosilda Raposo'".
Ela preparava um caxiri docinho pra mim. Uma mujica gostosa. Um abraço doce. Ela me adotou e eu a adotei pra que ninguém 'frescasse' comigo. Ela me encorajou a me tornar a Elimacuxi que sou hoje. 
 É impossível expressar a dor da sua perda... Você estará para sempre no meu coração, minha mãe.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Fênix*



à espreita na noite vazia
à espreita na hora vazia
à espreita na vida vazia
você procura o inimigo
e só, das dores vazia,
e esvaziada de si
assim segue bem consigo.

você procura os sinais
insiste, apura e quer mais
uma dor, uma cor, um adeus
fareja, fuça, fustiga
firma e fulmina - fatais,
afetos afoitos, os seus.

e nessa busca de cura
você vive intensa e livre
cheira toca lambe cospe
morde e goza - criatura recriada;
assim você se revive
tu mulher, é perigosa
quando se encara no espelho
descarta o velho modelo
se abraça e veste de novo...

pois vou te dar um recado
pra de mim não te perder
logo verás que a procura
a loucura, a cura, o encanto
são bordado do teu manto
de puta triste e santa má
desde o início até o fim.

haja ternura
nessa busca para a cura
da doçura e amargura,
loucura de ser quem és...
procura sem medo, toca
nas tetas, atos, nos testes
nas réstias de tantos tatos
nos restos de tantos tratos
nos ecos de tantos textos...
mas tenta, tão simplesmente
sobre rastro tão dantesco
nas trevas, tretas e tantras
entoar teus próprios mantras
ser tu o palimpsesto.


*Ou a respeito do propósito de "me curar de mim", cantado por Flaira Ferro.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

De quem?

foi por engano, me diz
aquela mensagem infeliz
me expulsando do peito, das horas, da vida
que por ora eu ainda acreditava passível
de ser compartida

foi por engano, me diz
a semana silenciosa
a distância calculada
a vida insossa perdida entre horas
de TV 
e nada

foi por engano, me diz
que você decidiu partir
repartir o que antes unira
e partir em mil 
esse coração que sozinho delira

diz que foi engano
mas especifica:
se foi meu, parte
se foi teu, 
fica. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Das razões dessa flor.

"Se perguntar o que é o amor pra mim. Não sei responder. Não sei explicar. 
Mas sei que o amor nasceu dentro de mim.
 Me fez renascer. Me fez despertar..." 
Arlindo Cruz


É mais do mesmo, é tudo novo de novo mas deixa eu ver se me explico.
Claro, meu caro, que se decide por isso.
Pode ser mais ou menos conscientemente, mas a gente vai enumerando motivos antes de pular do abismo. Num ato de egoísmo se vai calculando a queda, o vento rasgando a pele antes da pedra, sim, a gente vai minuciosamente medindo tudo... escolher a companhia para o pulo é um jeito de não morrer mudo, um jeito de ser ouvido, de permanecer por ter estado. Escolhe-se o outro numa estratégia de permanecer, de se estar quando já se foi. O outro tropeça-nos e se avalia o tropeção. Decidimos se é bom ou não e se for uma maneira melhorada de se estar... bem, eu creio, meu bem, que em grande parte é disso que se constitui o amar.
Não tem enguiço, há que se admitir o feitiço de anos de observação... meus olhos sempre se detiveram nesse All Star preto, na calça larga, nos lábios grossos e nesses olhos apertados de índio... Sim, essas coisas que eu acho lindas. É fato que não és tão alto quanto em geral me toca, mas sempre com esse enigma indecifrável na face, esse meio sorriso no canto da boca, me atraías pra fora da toca, qual seria afinal sua verdade? E finalmente tinha o agora objetivo da minha e da sua caminhada:  o fato de estarmos sós e querermos companhia pra andar de mãos dadas... Feito gata, apostei uma das vidas pra matar a curiosidade que sempre tive: arranho, arrisco, me enrosco, pergunto: posso? Não me contive. Consentida, ouvi sua voz suave no meio da madrugada, encontrei o pelo a pele o cheiro a cor... toquei e descobri o gosto da saliva, as mãos que passeiam fazendo a pele vibrar em carne viva... horror seria não me deixar gozar, fingir que não foi bom, negacear...
Mas alto, alto lá que não é tão simplório assim, não pra mim. Houve ainda outros passos antes do salto. As horas passaram, os dias passaram e ainda assim não nos faltava assunto... e é tanto e tanto mais carinho que tudo o que eu queria era estar ali, junto a ti, sorrindo ao ouvir um vinil, no jogo de uma piadinha vil, nas raivas compartilhadas sobre o Brasil, nas tramas de família, ilhados pela internet que não ajuda... e qualquer coisa que a gente fizesse, uma louça que a gente lavasse, um livro que a gente lesse, uma aula que a gente ouvisse, uma música resgatada... fizemos tanto, não fizemos nada e nos intervalos fazíamos amor e pareceu-me uma prece. Assim, aos poucos, fui me soltando no espaço de queda onde o amor se fortalece.
A queda tem sido brusca, pois nem tudo, aliás, quase nada entre nós possui leveza. Somos densos, tu dirias. Mas não há como negar tanta beleza no peso de sermos nós... assim fui tocando e retocando os laços, refiz os passos de suas histórias e as costurei caprichosamente por dentro, como se fossem minhas... tu me ouvias, eu te ouvia e a cada reconhecimento de atitude, a cada vicissitude superada, a cada trauma e marca na alma identificados, a cada palavra gêmea proferida eu fui assim, do meu jeito, projetando outros caminhos... e as bagagens agora levadas em par pareceram tão mais leves de se levar...
Essas coisas todas me chegaram somadas num pacote de presente e encontraram-me com a dolorosa e inescapável consciência da nossa efemeridade. Juro, de verdade, é isso que me faz ter tanta urgência do presente, do agora, do tempo que não se pode jogar fora, de fazer valer a promessa primeira, estar junto pra estar bem, pra se acompanhar até o fim do mundo, pra ir mais fundo nessa vulnerabilidade que nos reforça o vínculo. É urgente essa partilha planejada.
Daí que você pergunta se eu te amo tanto assim... Daí você quer saber as razões que movem a mim... e eu enumero toscamente nesse texto as razões pro que te assusta. Saiba que me jogar de novo nesse abismo que é amar também me custa, às vezes, uma parte enorme da alma. Mas tenha calma, criatura. Já tenho idade pra saber que desse mal também se cura. Não vamos morrer de amor, mesmo que ele chegue a nos afogar. Amar, assim como ficar bem, não tem garantia, mas é decisão a se tomar.
Sei que é tola a iniciativa de se explicar o que se sente. Fato é que eu já saltei e o resto todo depois se vê.
Sim, eu já apostei novamente: sem dúvida eu amo você.