"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 11 de abril de 2018

Entre amigos

Foto: wildlifeday.org

o dia segue pro fim
flutuo na cadeira onde trabalho
trabalho, trabalho, trabalho 
e quase não caibo em mim.

não se descreve sensação tão grata
de desangústia e assossegamento, 
cansaço contente, de quê? Um abestamento
temperança na tempestade
a amizade é coisa de certeza insana: 
 - calma, bacana, que eles existem
e tudo está bem!

o coração bate tanto quanto 
ainda há coisas por fazer 
e males a sanar
e o mundo segue a girar e girar e girar.

mas hoje eu não vou,
fixei-me nesse espaço de me dar
tempo, um lar, amor, cuidados
meus amigos cultivados
amores pra se cantar

avisem à loucura que hoje não vou
porque estou plena
e a levitar. 
  

terça-feira, 10 de abril de 2018

De perdas e perdão.

The Daily Bread, by Thomas Benjamin Kennington, National Museum Liverpool.
Venta.
o sino não para de tocar na varanda
o céu azul encobre a manhã 
que se doura
lentamente.
acordo do sono induzido
venta
o coração pressente o dia
a pele se arrepia
e venta, venta, venta.
sacolas vazias alçam voo nas ruas empoeiradas
e o menino a quem falta comida, 
trabalho, casa, cama
suspira, olhos fechados:
que bom, venta...

Não há venda nos olhos de quem não vê
mas falta vontade no corpo de quem não ama.

Revejo a imagem de um menino ao longe
aos treze anos, debruçado sobre o pai morto
ouvindo seu coração silenciado:
o menino que em breve teria o dedo torto
um menino, que em breve seria só mais um
navegando na miséria de São Paulo...
 
Meu pai!
Como venta hoje na cidade ao norte!

Tocado cedo pela morte
aquele menino que o senhor foi me tira o sossego. 
O dia nasceu
e tu andas ainda, pai, 
nas memórias do meu degredo
nessas ruas que o vento lambe e teus pés jamais pisaram
te vejo em centenas de outros meninos
desesperançado, perdido, com medo, 
sozinho nas ruas, insone e faminto.
Não é segredo, meu pai,
nem é destino!
e como eu sinto...
eu sinto muito, 
perdão meu pai.  

domingo, 1 de abril de 2018

Auto de fé*

Lucas Velázquez, Auto da fé. 1853.
 [Public domain], via Wikimedia Commons
Creio.
Se o que se preza
é não temer a perigosa
curva da estrada
se o viver, eu bem sei
pode a qualquer momento
esvair-se no nada
me prostro agora
diante de ti
e nesse altar
em que fartamente
me alimento,
danço, canto, represento
acendo incenso e velas,
por um momento
ascendo ao eterno.

E não me importo
se de descrença e medo
se enchem as horas tortas
em desalinho
sou de fé, sigo o caminho estreito
faço do amor porto e morada
e gozo e reza
ressurreição na qual me faço
reinventada.

E não me importo
não me importo de ser devota
de cada centímetro do teu corpo
e de cada gota que, de ti, brota.
À tua voz, teu olhar e teu sorriso
sou fiel e rendo culto nesse instante
do modo mais precioso e preciso:
sendo sua amada
e sua amante.

*ou Poema de Páscoa para Vitor.

terça-feira, 27 de março de 2018

Pergunta aos pais.

Imagem disponivel em https://www.rapidonoar.com.br/ah-os-filhos/
Não te dói
ter de ensinar à menininha
que é perigoso estar sozinha?
Não te dói
explicar a lição
de que ela deve ter o ar mais grave e sério
ao passar perto de uma construção?
Não te dói
dizer a ela que não viaje sozinha
que não dê carona
que não fale de si
que mude sempre o caminho
que não beba, não dance
não mostre muito do corpo
não se destaque, não brilhe
não seja bela, nem livre
não sorria para estranhos
e que se cubra de remorso
quando a violência lhe encontre?
Eu te digo, não me dói
na verdade me destrói
corrói a alma e o osso
repetir essas noções
como se fôssemos frágeis
quando a verdade
é que a única fragilidade
tristemente repetida
é a do valor que os homens
dão à nossa feminina vida.

domingo, 18 de março de 2018

Aviso - ainda que eu ache que você saiba

"Eu sou o cio da tribo e posso até fecundar"*

Quando amo
sem medo ou engano
dou
dou minha casa, meu carro, meus livros
meus sorrisos, meu dinheiro,
meu afeto
meu corpo e seus produtos
por completo
dou a pele, as mucosas, os olhares...
Se quiseres
serão teus os gozos de esquecer o tempo
as unhas e os dentes
a saliva
os pensamentos
e em cada pelo
um apelo da carne viva.

Dou-te cores de cegar
dores de tirar dos trilhos
e quando você me acessar
pulsando o amor em meus sistemas
dou-te filhos, muitos filhos:
os meus e os teus poemas.


*Neuber Uchoa em Cruviana

terça-feira, 6 de março de 2018

Inflamada

acordo mar em ressaca
espinheiro espraiando por dentro
machucando a qualquer movimento
e me impondo
silêncio
e parada.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Eu, humano

disponível em http://www.soues.com.br/plus/modulos/agenda/ver.php?id=192&categoria=5

Eu sou, pois sei que sou e não sou
quarta, domingo e segunda
joelho e bunda, cara e mão
digo sim e digo não
gosto e não gosto de chuva
sou adulto e sou criança
não me encaixo feito luva
cheio de mim e de insegurança
existência
complexa
como o que é simplório
muito sorrio e choro
vivo e versejo sem pejo
morte e vida
benefício e dano
Eu sou,
pois sei que sou
e não sou
sapiens
e
humano.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018


Chorei uma bacia inteira
o branco, o cotingo, o maú
o miang, o cachorro, o alalaú
me enchi.

o ar que me invadiu se agitou,
primaverou e sem nuvem
sol tocou-me todo o corpo,
se entremeou vagaroso
me aqueceu fazendo cor
e decretou poderoso
 - tão cedo, de mim, não sai.

e pra quem me ouviu chorar
só vim aqui avisar
tô em tempo de secar
eu tô feliz bagarai! 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Do meu anacronismo amoroso*


"Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha."  
Cecília Meireles

quando teus olhos 
se afogam em meu corpo 
cada poro meu vira porto, 
o tempo perde o poder
e eu simplesmente anseio 
em meu seio, para sempre,
te ancorar, te suster.
isso é amar, creio eu,
encontrar um sentido 
e ser.

II
tua presença espelhada, 
espalhada em horas de bem estar
me faz alçar voo sem sair do chão
e o clichê só comprova 
que a eterna "doce ilusão"
em mim se renova.

III
urgência sentida no agora: 
do poeta, ter e querer,
da voz, o timbre 
da pele, a textura 
do hálito, o cheiro 
e do texto, a ternura...

é e será minha meta
no gozo da hora mais pura
agir feito esteta 
que, do mundo, ignora a loucura
e por isso se empodera 
e se cura. 

IV
esse poema é sobre 
o que me encanta e descobre
e o que eu sigo, peito aberto,
acolhendo sem temor
pois que o horizonte é incerto 
e "meu peito é puro deserto"
se não está cheio de amor.

* Para Bandeira e Cecília Meireles (na foto) e todos os demais poetas modernos que me ensinaram a não ter medo do amor, a vivê-lo com urgência e alegria, mesmo diante de sua infalível falibilidade...

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Mãos do vento*

#surubaparacolorir
Em silêncio, varrendo a verve
que inválida
invertia as ondas de arrepio
vieste
morno e suave
lufada de vento ávida e viril,
vieste,
navegaste esse corpo
que se tornou todo um rio
e minha alma, vela cheia,
singra solta pelo espaço do cio.

voluntariamente atada e cega
sou vanguarda-velha 
vejo vergastada 
a voracidade da solidão
e como nada nos fora vedado 
o coração vocifera
vulnerável 
no sentido mais vil e valoroso
da palavra que em mim você destrava.

a confiança da entrega
que violenta e valente me descongela, 
é brotada semente,
vivência que assusta e adoça
e nos entres do dia-a-dia
me refaz e me remoça.

É presente do universo
a lúbrica poesia 
colhida de tuas mãos, língua, falo
frente e verso...
me sopra crepitando a superfície
e de braçada
nada em mim e em mim mergulha
me adormece e me desperta 
na forma mais líquida 
e da forma mais certa.


*Cumprindo o poema-promessa pra quem me acaricia feito vento.