"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 20 de novembro de 2018

No ventre blue de minha mãe

São Paulo. Imagem disponível em
https://pixabay.com/pt/brasil-edif%C3%ADcios-cidade-cityscape-1842205/
Volto a São Paulo como se voltasse ao útero
enorme e disforme útero blue.

Jovens descolados
ainda andam sós ou em bandos
ainda falam alto ou fecham as caras
cheios de certeza de que o mundo lhes serve.
Reconheço artistas, ambulantes, moradores...
Da rua
em cada esquina do Jardim Paulista
o cheiro de marijuana e tabaco,
marijuana e incenso,
marijuana e marijuana,
se instala e atravessa minhas narinas:
Ali um par de motoboys no almoço
Lá dois barbudos com coletes sujos e pesados de couro
Aqui um rapaz com camisa de clube e duas meninas.

Observo o augusto desfile
das mulheres elegantes, homens despojados
Rumo ao Centro e nos limites da Liberdade
se me escancara a realidade de cada um
disputado ou negligenciado
por igrejas, igrejas, igrejas
e sinagogas e centros e mesquitas
e partidos e lojas
e lojas
e lojas
onde curiosamente se empilham
cruzes, elefantes, olhos  gregos e figas...
sim, há ainda fé, fragmentada, diluída
como há o eterno aviso de "não toque"
nas antiguidades, nas jóias.

Há arte invisível em todo canto
enquanto os olhos colonizados
são atraídos para o anúncio de quinze metros
da nova série de garotos brancos
do serviço privado de TV.

São Paulo é essa pilha de desejos
vivos, toscos, ocos, secos,
depositados sobre objetos e objetos e objetos
mais sagrados que os corpos abjetos
que se estendem com vida
e frio
e fome
pelas calçadas
aqui
ali
e lá
sob as marquises da Paulista.

O semblante cansado
ainda predomina no metrô
inúmeros cristos crucificados dormitando de pé
pendurados pelas mãos
pregadas para o alto
no trem que se arrasta
vagarosamente sob a chuva
para a zona leste.

Crendo-se o sangue desse imenso nada
a imensidão de corpos mansos e amansados
segue feito um rio de gente pelas escadas rolantes
escorrem sendo o sumo da cidade menstruada
líquido aborto,
do suor o sal, extraído, excluído
vertido nas linhas amarela,
azul, coral...

Milhões de vidas contidas em  vagões e caixas de cimento
árvores maduras voltam seus galhos aos céus
descobrindo-se incapazes de retirar, da luz, seu alimento.

Flores de resistência rosas e amarelas
são pisoteadas nas calçadas
nas manhãs de primavera,
mas em qualquer estação
tua cor segue cinza São Paulo,
nas ruas e calçadas e muretas que resistem
enegrecidas pela tua
"anticorrupta e moderna" poluição.

Eu, tua filha ranzinza
retorno, vejo, fujo
pois muito te amo mas também odeio
e sigo não desejando teu doentio seio
E sigo dizendo que te quero,
minha Sampa,
mas não te quero não.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Desfazimento

Turner, W. Vapor sob tempestade de neve. 1842. Tate Gallery, Londres.

eu à deriva
as ondas são pessoas ao redor
muitas
ondas
por vezes um vento sopra ao longe
uma moça grita e tenho a ilusão de companhia
alguma
alguma embarcação se aproxima?
ninguém se aproxima
coisa nenhuma
o navio se afasta em busca de seu irmão
sou deixada ali,
e não precisa explicação.

naufrago na chocante realidade
da solidão acompanhada
a completa descomunhão
descomunicação
conflito tempestuoso pelo destrinchar
de más palavras
ele se afasta
observo e inventario os danos
respiro mas piora:
não há engano.

mantenho-me fixa nos calcanhares
nada mais do que o vácuo negro
do palco futuro me olha
o ruído ao redor torna todas as coisas
todas as coisas
todas
inaudíveis
eu digo
eu grito
mas não haverá embarque
o vulto se afasta
e se perde,
desfeito vira ilusão
no horizonte.

eu à deriva
tomada da realidade que me traga
as ondas são pessoas ao redor
não há engano
é dano sobre dano sobre dano
e lentamente meu coração naufraga.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Minha chance
Está dada
Quando te chamo
Pra que me chames
Pra que me ames
Mesmo em chamas
Exangue
Inexata
Perdida
Entre
Enxames
De exames
E
Ex.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Há cura*


naquele dia
o sol sorria beijando as ruas
as árvores as casas
as mariposas nuas
os beija-flores inocentes...
e aquele convite quente
para a abrir as asas
deixou seu coração feliz
sem muita razão.

naquele dia
provisoriamente deixou de lado
a maldade e a solidão dos outros
a hipocrisia e a fome no mundo
o escuro do medo
do inferno, o fundo
despiu tudo que lhe feria
olhou-se no espelho
e pela primeira vez reconheceu
o que queria.

para definir aquele insight
não havia palavras no glossário
gargalhou do sofrimento autoimposto
botou a melhor expressão  no rosto
"há que se inventar novo vocabulário"...
escolheu um vestido estampado
e saiu feliz consigo mesmo
sobre o primeiro salto
para fora do armário. 

*para todos os homofóbicos de plantão, com um beijo. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

In communication

A lua, uma noite dessas, no bairro Murilo Teixeira, Boa Vista.
 Por Elimacuxi. 

"é cada um por si, na sua própria bolha de ar" Tiê
ontem a noite
envolta em sonhos
de medo e prejuízo
dormi profunda
e docemente acolhida

desperto admitindo os vermelhos
e azuis e roxos
dessa estrada

de fato
permita que eu te afete
e sonhe e sonhes
comigo, contigo
colagem de complexa harmonia.

é um lampejo a forma
como em ti
me vejo

como traduzir minha certeza
de que não existe palavra nua?

e viva na lembrança
do seu beijo
a esperança atua:
minha bolha tocou a tua?

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Esvaziar

quando por algo me esgoto
e as mágoas não se absorvem no solo
de tristeza me emboto
e dura e fria vou direto ao outro pólo:

porque sou dupla e entre duplos me esboço
sol que brilha no resto de chuva, na poça,
lembrança de quebrada promessa
seriedade de criança fazendo troça.

e à semana que inicia já pesada
com reunião e falsidade que, no entorno
foi, por quem pensa ser correta, semeada,
entrego o resto do que sou, um resto morno
a física presença, de meu ser esvaziada.

é meu corpo quem me grita meus cansaços
quando a mente se despede e se despende
num tropel raivoso de pensamentos soltos
e nessa hora, ao fim da estrada, busco pouso
e tudo o que desejo é abrir meus braços
pra me perder no vão de braços outros.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Klimt, G. O Abraço. Parte do Friso Stoclet. 1904-08. Áustria.

"Você sabia
que tristeza contagia
e o mundo vai assim
em autofagia
numa espiral profunda
carregando a tudo
com uma energia imunda?"
me disse o sábio
quando perguntei
"por que, sem aparente motivo,
às vezes não me sinto vivo?"

desde então, muitas vezes inutilmente
tento permanecer consciente
da direção a que me leva a corrente...

Por isso hoje coloquei em perspectiva
vou me deixar sentir em carne viva
que doa o que doer, até vir o cansaço
ou uma corrente oposta
que neutralize essa tristeza,
disposta
na energia sincera de um abraço.

domingo, 2 de setembro de 2018

Domingo de tarde

Nicolas Lancret, The Swing (1794)
Indianapolis Museum of Art at Newfields

comida e sol
e folga
e cerveja
deixam a gente
levemente lesa...
tem hora melhor
para ser prato principal
e sobremesa?

domingo, 26 de agosto de 2018

Meios outros

De E.Manet, Le Suicidé, 1877. Foundation E.G. Bührle, ZuriqueSuíça
sentiu muito
e era tanto
que tinha a dizer
que mal cabia em si

mas tão pouco pode
ou conseguiu
exprimir

e quando estava
a ponto de implodir

na ânsia
de digerir
a língua
enrolou-se 
garganta adentro
empurrando angústia, tristeza
saudade e mágoa
pensou: está findo!

rompeu a traqueia
e sufocada
tentou aniquilar
com soda cáustica e água
a manhã de domingo.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Camatkarasana*

Louise Bourgeois, por Anne Leibovitz, 1997.

Conheci uma menina
que de tudo tinha medo
trovão, escuro, silêncio
tristeza, calma, folguedo
ela tanto se escondia
que já vivia em degredo:
conheci uma menina
que de tudo tinha medo.

A menina tinha medo
de se olhar no espelho
o medo doía em tudo
da cabeça até o artelho
tinha medo de correr
e machucar o joelho
tinha medo de amar
e conceber um fedelho
tinha medo de sair
e ser bulida por velho
tinha medo de facão
tinha medo de martelo
tinha medo do azul
tinha medo do amarelo
e temia as outras cores
o lilás e o vermelho
tinha medo de aprender
e tinha medo de conselho
tinha medo do diabo,
tinha medo do Evangelho
e como muito temia
e como temia a tudo
ela foi desconhecendo
a alegria do mundo
e foi se amofinando
de gente sendo arremedo:
conheci uma menina
que de tudo tinha medo.

Um dia a cidadezinha
onde a menina vivia
acordou cedo e com festa
quebrando a calmaria
a menina temerosa
perguntou: que sucedia?
e descobriu que um dever
naquela noite teria
pois que ali em sua vila
repousaria a rainha
e apresentar-se a ela
a todo súdito convinha.

Assustada a menina
sem saber o que fazer
amuou-se na escada
cheia de muito temer
como poderia ela
à rainha conhecer?
Que roupa ela usaria?
de que modo proceder?
como se comportaria?
que penteado fazer?
deveria depilar-se?
não dava pra emagrecer...
e se o sapato quebrasse
e se a roupa não servisse
e se à noite chovesse
e a rainha nem lhe visse?
e os ses foram crescendo
dentro do seu coração
as horas passavam e ela
ali sentada no chão
a perguntar-se: e se?
tomada de ansiedade
paralisada e aflita
diante da novidade
mais uma vez se escondendo
de gente sendo arremedo
porque era uma menina
uma menina com medo.

"Tenho de ver a rainha"
lembrou então, assustada
olhando naquela hora
para a poeira da estrada
e a menina correu
aprontou-se como deu
não se importou com o que quis
na roupa não tinha cor
porque só usava gris
e ao sair pela porta
viu que já não era cedo
mas sentiu-se protegida
na sombra do próprio medo.

Quando a rainha surgiu
pra receber saudação
a menina foi chamada
no meio da multidão
abriu-se o reino pra ela
que sem saber a razão
seguiu bem timidamente
olhos colados no chão.
Então disse-lhe a rainha:
"retire esse seu chapéu
e olhe na face minha
como quem olha pro céu
pensa que eu não reconheço
essa sua cicatriz?
mocinha, não há ferida
pra te impedir ser feliz...
chegue mais perto e beije
as mãos da sua rainha
e me ofereça o que trouxe
minha doce menininha."
A menina ainda surpresa
já não sabia a que vinha
e prostrou-se no lajedo
mirando sua rainha.

Tinha os cabelos compridos
o rosto seco enrugado
o corpo envelhecido
feito um tronco encurvado
mas o olhar dela brilhava
mais do que o sol no lavrado
e a menina, aquele instante
não pode crer no que via
pensou que estava sonhando
diante do que assistia.
A rainha disse: "ouça!"
e ela então ouviria
um som que lhe acompanhava
mas antes, nada dizia
era um rufar no seu peito,
seu coração que batia
e desse som, o milagre
a menina entenderia...

"Pode respirar profundo
pode se esquecer do mundo,
trouxe o que você procura
para todo esse seu medo
ansiedade e loucura
eu te revelo um segredo
tenho em minhas mãos a cura".

A menina olhou as mãos
engelhadas da mulher
que tocavam sua fronte
fazendo-a ficar de pé
emanando tanto amor
tranquilidade e leveza
que pela primeira vez
a menina viu beleza.
Daquelas mãos uma onda
de grande sabedoria
recobriu toda a menina
a iluminou e foi guia.
Foi assim que a rainha
que à menina acolhia
partiu em muitos pedaços
os medos que ela sentia
deixando-a plena de si
trabalhada na ousadia.

Ao perceber que a noite
já virava madrugada,
na velha que lhe sorria
a menina agradecida
sem então dizer mais nada
só se via refletida.

E muito tempo depois
quando veio me contar
a história que agora
eu resolvi repassar
a menina conhecida
que de tudo tinha medo
tocou também minha fronte
e me contou seu segredo:
que pra me sentir bem viva
pusesse meu medo à margem
e que seguisse serena
compondo nova paisagem
pra ter essa confiança
mesmo antes da ação
me detivesse ao rufar
do som do meu coração
olhasse minhas mãos de velha
me reconhecesse a cura...
como uma noite aprendera
quando então conhecera
a tal rainha em visagem
me ensinou a menininha
contra uma vida mesquinha
que paralisa e espezinha
há que se ter só coragem!


A todas as mulheres que, selvagens, partilham entre si suas estratégias de vitória sobre os medos.

*Camatkarasana é uma pose yogue também conhecida como Wild Thing, em que se abre o chakra da coragem.