"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Paixão

Francisco de Goya, Saturno devorando a su hijo (1819-1823)
O que me farta
é o que me falta
aflora
me aflige
fala, frustra
finca, finge, foge
enfeia e difere
me reforça
quando me fere.

O que me define
afina e afere
não me freia
antes me afoita
afoba
afoga
fareja em mim o fim
é festa, fúria, batalha
navalha fixa na pele
meu fino flerte com a falha...
felicidade.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Carta ao Vavá*

Comício de Lula em São Paulo, 1989.
nós na rua...
eu tenho isso vivo na memória
sua greve, minha performance nua
uma fé filha da puta que invadia nosso peito
e mantinha a gente na luta

nós na rua
em ação
cidadania contra a fome e pela vida
nós na avenida, gritando, berrando, dançando sambão
atando nós de esperança incontida
de construir algo maior do que nosso próprio coração
para além da nossa vida...

me lembro da gente na rua, enlaçados num nó, tudo junto
rindo por quem nascia, bebendo defunto
ensinando e aprendendo novas formas de afeição
pensando em quem não tinha
casa, estudo, sonho, pão...
me dói hoje
de eleição em eleição
ver campear a ignorância, a falta de amor,  a solidão
fermentam o nosso medo, sufocam nosso tesão
o conhecimento ancestral, há tanto jogado fora
e até a ciência, que é recente, se ignora
"a Terra é plana", "nunca houve ditadura"
"a vacina adoece", "o nazismo é de esquerda"

Quanta merda!
Me fecho numa prece
e peço aos deuses todos que nos guardem
dessa onda que acontece
porque fizemos história com o teu e o meu suor
e brevemente mostramos
que sim, "sabemos de cor
e só nos resta aprender".

vejo o Brasil ser tomado
por essa "gente de bem"
mostrando finalmente sua cara,
como pedia o Agenor
você tem visto esse horror?
Eu cá, sem você, me pergunto
por Maomé, Shiva, Cristo
se essa tristeza não vem
por nossa idade também
se política pra melhorar o mundo
não é coisa de vagabundo
ou ideia obsoleta
e me ouço gritar, no fundo de mim,
que Não!
que ESSA ONDA É REAÇÃO
devemos seguir em frente.

lembro de você, de mim,
fico contente
e no fim das contas me animo
a encontrar novas formas,
de política pra se fazer
de nadar contra a corrente
e estabelecer nova meta.
nossa vivência de luta é meu arrimo!
escrita por nós, com tantos nós
a nossa história recente, embora dura
destruiu a ditadura
fez o primeiro operário
e a primeira mulher presidente!
Nos orgulhemos de tê-la vivido
pois viver sem crer e lutar para melhorar o mundo
pelo amor, pela vida das pessoas
não tem nem nunca terá o menor sentido.

*ao Betinho, a mim, a você, que, embora golpeados por todos os lados, ainda lutamos por um mundo melhor.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

De uma guerra em mim.

Los desastres de la guerra, 1810-15. Francisco Goya.

como quem observa uma fera
ferida de morte
por tiro ou por corte
na jaula do zoo
me vejo e doo.

a cabeça pesa uma tonelada
e os ombros não aguentam
o peso da estrada
as pernas quebradas
me pedem pra parar.

em preto e branco
ou em explosão de cores?
que desconexa essa peça
que papel, senhores, que papel!
nem céu nem terra:
tateio meu coração
e é ao fundo do fundo do mar
que ele se aferra...
comigo não tenho calma
que papel, senhores, que papel!
o tempo me roça, cruamente
e sinto a alma, e o corpo e a mente
cedendo lentamente a seu cinzel.

nesses dias em que eu sangro mais escuro
e que futuro não parece haver
numa única célula do que sei ser,
não há pra onde recuar
e eu me empurro contra o muro
eu me jogo e me afogo
em meu próprio poço
e por mais que me debata
rasgando a pele, quebrando o osso
por mais que grite e busque palavras
que me traduzam
e me limpem com alívio do que sou
já não posso
desatar os laços
dessa angústia que me enforca.

por fora
nalgum lugar quando sorrio
eu sei que há ar, azul e vôo
mas no fundo eu sinto frio
cá dentro
tudo é lâmina e caco de vidro
mastigado e engolido...
a vida é uma escola?
tudo é prego enferrujado
fundo de garrafa, vidro quebrado
no baldio onde se joga bola...
tudo acidente previsto
eu sei, mas corri o risco
e agora danço em alguma parte
dessa carne macerada de leve
entre os dentes do destino.

sessenta e cinco dias se passaram
e mil lágrimas não operaram milagre
e tudo em mim ainda oscila
tudo em mim é matéria intranquila
que transita entre o nunca e a eternidade.
coberta de insustentável
e vergonhosa saudade
sou a um tempo o caçador
e a fera que se debate...
.
É por tudo isso
que sinto que morro
e ainda assim não ouso
pedir socorro.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Desesperança

Imagem: @_5le,
 Disponível em http://www.imgrum.org/media/889099935589827218_470347527
Chegaram-me hoje notícias de longe
de Green Point, de Cape Town
notícias de meninas pretas
lavadas em sangue,
jogadas em fossas
estupradas,
"corrigidas".

Chegaram-me hoje notícias de longe
de homens engravatados
grávidos de ódio
agravando abismos
em nome de deus.

Disseram-me forte hoje,
eu que burguesamente há dias
me esvaio em lágrimas
peito aberto, sangrado, sofrido
lamentando mais um sonho perdido
e desesperando por causa de amor...
eu recebi notícias de longe
que me ferem tal qual o abandono,
notícias que me tiram o sono,
notícias que me ampliam a dor.

Tanta treva
me trouxe à memória
notícias velhas de mis hermanas
putas pobres, travestis,
retirantes nordestinas
e imigrantes venezuelanas.

Sinto como se fosse minha cada ferida
e vago nesse escuro,
minha voz e meu verso são impotentes
embora eu não fique em cima do muro
sinto-me inválida, solitária e triste
diante da violência que avança
com a espada em riste
e veloz, vertiginosa
subverte sujeitos
e criminaliza afetos
nega aos não-normatizados
sua condição humana
e os descarta,
como abjetos objetos...


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Capa de" J'ai besoin de tendresse", de Ange Axel Moncorgé.2016.

Vou guardar meus poemas
meus três metros de mensagens
sem respostas
minhas mãos passeadeiras em suas costas
meus abraços fora de hora
meus beijos doados sem medo
minha boca, meu tesão
vou guardar a ânsia de te ver
vou guardar a ânsia de te ouvir
vou guardar a ânsia de viver
e do teu lado dormir.

Vou guardar pra mim
os atos de amor escondidos
na compra de supermercado
no banho do seu cachorro
no wafler de limão
no vinho na geladeira
na roupa nova pro colchão
no sexo de segunda-feira
e a aquarela em que eu, inteira
me coloquei na sua mão.

sim meu amigo
não se preocupe, eu não brigo
sou desse jeito, e no meu peito
pelo sim, pelo não
Vou guardar aqui  
o que você, na sua sandice
amarga e duramente 
me pediu que eu não repetisse...
não vou deixar meu amor se esvair completo
nessas lágrimas em que há tantos dias 
eu me derramo, derramo, derramo...
repito e guardo pra mim,
já que você, distante e covarde, prefere assim
não te digo mais que eu te amo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar"

"quem cultiva a semente do amor
segue em frente e não se apavora
se na vida encontrar dissabor
vai saber esperar sua hora..." 
Tá escrito, grupo Revelação
estão se indo os dias de chuva,
é cedo, cedo e a menina samba
constrói um espinhaço
espiral de energia que ascende ao espaço
braço, perna, quadril
tudo a mil
rodopia
fecha os olhos e dentro
sapateia com gosto de quem se vinga
as brotadas ervas daninhas
mentira tristeza decepção desamor

ela requebra
faz um sapatinho
e olhando pra cima não vê
as memórias de alguém
que sequer saberia dizer
o poder que tem sambar
pra curar seu coração.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Descontrolada e incerta

A duras penas tenho aprendido
que o incerto não é errado...
O incerto é esse cinza que me embaça o olho
miro-o como quem encara a lança no peito
como quem perde o último fôlego rio adentro
como quem, da forca, sente a abertura do cadafalso
enfrento-o na rua e no leito
no dia raiado, na tarde murcha
na madrugada insone
o incerto a tudo vence
e nos consome...

debato-me frouxa com o desejo inconformado,
descontrolado,
de controle.
eu que tarde descobri as lições do fluir
ainda me perco amiúde entre quereres e fervores
me acinzento
desacatando crepúsculos e amanheceres
que se acumulam na retina pra me lembrar que me afogo
que me firo a ferro e fogo
ao tentar, por força
esse jogo vencer.

afiro a vida
e respiro de novo,
e de novo,
e de novo
invocando o mantra que me tortura e salva
 - pois que destrói quem, tolamente, acreditei ser:
"não lutar,
nem temer."

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Feita d'água.


http://cultura.culturamix.com/arte/esculturas-de-gelo
fluo líquida
espalhando-me empática
pelo terreno do outro

fluo líquida
e por vezes esbarro em gélidas superfícies
solidifico ali
presa à negativa temperatura
rígida
tomo formas belas
mas estou quase sem vida
sinto-me agredida
quando me vejo
pedra e sal
cubo de gelo braços atados
no peito arde um temporal...

é tempo de espera esse
vou ressecando aos poucos,
tomo ar
tomo ar
tomo ar
atinjo lenta a desintegração que me renova
é longo o processo que me leva, leve, de novo
ao movimento
fluido
solto.

me sei líquida de um jeito oposto
essa entrega ao terreno do outro
mas sinto gosto é quando sou contida
sinto gosto é de ser aquecida
gosto quando me sorvem
ou me evaporam
toda fervida.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

o que eu proponho
é bem mais simples que um simples sonho:
é dia dos namorados
e como nós - incomunicados
não falamos mesmo a mesma língua
ainda assim, não fiquemos à míngua
sejamos nós menos orgulhosos e mais sábios:
eu lavo-te a glande com saliva
tu levas a língua aos meus pequenos lábios
e juntos fazemos a noite mais viva.


domingo, 4 de junho de 2017

Postagem de dor, saudade e gratidão


Se hoje eu me autodenomino Elimacuxi, devo em grande parte à generosidade dela, que me acolheu, me amou, me encorajou. Há mais de uma década atrás, quando o termo macuxi ainda era usado como ofensa por muita gente que chega de fora a essa terra, foi ela quem me disse "pois não deixe que te questionem não, se alguém frescar perguntando porque macuxi pode dizer, 'porque sou filha da dona Rosilda Raposo'".
Ela preparava um caxiri docinho pra mim. Uma mujica gostosa. Um abraço doce. Ela me adotou e eu a adotei pra que ninguém 'frescasse' comigo. Ela me encorajou a me tornar a Elimacuxi que sou hoje. 
 É impossível expressar a dor da sua perda... Você estará para sempre no meu coração, minha mãe.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Fênix*



à espreita na noite vazia
à espreita na hora vazia
à espreita na vida vazia
você procura o inimigo
e só, das dores vazia,
e esvaziada de si
assim segue bem consigo.

você procura os sinais
insiste, apura e quer mais
uma dor, uma cor, um adeus
fareja, fuça, fustiga
firma e fulmina - fatais,
afetos afoitos, os seus.

e nessa busca de cura
você vive intensa e livre
cheira toca lambe cospe
morde e goza - criatura recriada;
assim você se revive
tu mulher, é perigosa
quando se encara no espelho
descarta o velho modelo
se abraça e veste de novo...

pois vou te dar um recado
pra de mim não te perder
logo verás que a procura
a loucura, a cura, o encanto
são bordado do teu manto
de puta triste e santa má
desde o início até o fim.

haja ternura
nessa busca para a cura
da doçura e amargura,
loucura de ser quem és...
procura sem medo, toca
nas tetas, atos, nos testes
nas réstias de tantos tatos
nos restos de tantos tratos
nos ecos de tantos textos...
mas tenta, tão simplesmente
sobre rastro tão dantesco
nas trevas, tretas e tantras
entoar teus próprios mantras
ser tu o palimpsesto.


*Ou a respeito do propósito de "me curar de mim", cantado por Flaira Ferro.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

De quem?

foi por engano, me diz
aquela mensagem infeliz
me expulsando do peito, das horas, da vida
que por ora eu ainda acreditava passível
de ser compartida

foi por engano, me diz
a semana silenciosa
a distância calculada
a vida insossa perdida entre horas
de TV 
e nada

foi por engano, me diz
que você decidiu partir
repartir o que antes unira
e partir em mil 
esse coração que sozinho delira

diz que foi engano
mas especifica:
se foi meu, parte
se foi teu, 
fica. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Das razões dessa flor.

"Se perguntar o que é o amor pra mim. Não sei responder. Não sei explicar. 
Mas sei que o amor nasceu dentro de mim.
 Me fez renascer. Me fez despertar..." 
Arlindo Cruz


É mais do mesmo, é tudo novo de novo mas deixa eu ver se me explico.
Claro, meu caro, que se decide por isso.
Pode ser mais ou menos conscientemente, mas a gente vai enumerando motivos antes de pular do abismo. Num ato de egoísmo se vai calculando a queda, o vento rasgando a pele antes da pedra, sim, a gente vai minuciosamente medindo tudo... escolher a companhia para o pulo é um jeito de não morrer mudo, um jeito de ser ouvido, de permanecer por ter estado. Escolhe-se o outro numa estratégia de permanecer, de se estar quando já se foi. O outro tropeça-nos e se avalia o tropeção. Decidimos se é bom ou não e se for uma maneira melhorada de se estar... bem, eu creio, meu bem, que em grande parte é disso que se constitui o amar.
Não tem enguiço, há que se admitir o feitiço de anos de observação... meus olhos sempre se detiveram nesse All Star preto, na calça larga, nos lábios grossos e nesses olhos apertados de índio... Sim, essas coisas que eu acho lindas. É fato que não és tão alto quanto em geral me toca, mas sempre com esse enigma indecifrável na face, esse meio sorriso no canto da boca, me atraías pra fora da toca, qual seria afinal sua verdade? E finalmente tinha o agora objetivo da minha e da sua caminhada:  o fato de estarmos sós e querermos companhia pra andar de mãos dadas... Feito gata, apostei uma das vidas pra matar a curiosidade que sempre tive: arranho, arrisco, me enrosco, pergunto: posso? Não me contive. Consentida, ouvi sua voz suave no meio da madrugada, encontrei o pelo a pele o cheiro a cor... toquei e descobri o gosto da saliva, as mãos que passeiam fazendo a pele vibrar em carne viva... horror seria não me deixar gozar, fingir que não foi bom, negacear...
Mas alto, alto lá que não é tão simplório assim, não pra mim. Houve ainda outros passos antes do salto. As horas passaram, os dias passaram e ainda assim não nos faltava assunto... e é tanto e tanto mais carinho que tudo o que eu queria era estar ali, junto a ti, sorrindo ao ouvir um vinil, no jogo de uma piadinha vil, nas raivas compartilhadas sobre o Brasil, nas tramas de família, ilhados pela internet que não ajuda... e qualquer coisa que a gente fizesse, uma louça que a gente lavasse, um livro que a gente lesse, uma aula que a gente ouvisse, uma música resgatada... fizemos tanto, não fizemos nada e nos intervalos fazíamos amor e pareceu-me uma prece. Assim, aos poucos, fui me soltando no espaço de queda onde o amor se fortalece.
A queda tem sido brusca, pois nem tudo, aliás, quase nada entre nós possui leveza. Somos densos, tu dirias. Mas não há como negar tanta beleza no peso de sermos nós... assim fui tocando e retocando os laços, refiz os passos de suas histórias e as costurei caprichosamente por dentro, como se fossem minhas... tu me ouvias, eu te ouvia e a cada reconhecimento de atitude, a cada vicissitude superada, a cada trauma e marca na alma identificados, a cada palavra gêmea proferida eu fui assim, do meu jeito, projetando outros caminhos... e as bagagens agora levadas em par pareceram tão mais leves de se levar...
Essas coisas todas me chegaram somadas num pacote de presente e encontraram-me com a dolorosa e inescapável consciência da nossa efemeridade. Juro, de verdade, é isso que me faz ter tanta urgência do presente, do agora, do tempo que não se pode jogar fora, de fazer valer a promessa primeira, estar junto pra estar bem, pra se acompanhar até o fim do mundo, pra ir mais fundo nessa vulnerabilidade que nos reforça o vínculo. É urgente essa partilha planejada.
Daí que você pergunta se eu te amo tanto assim... Daí você quer saber as razões que movem a mim... e eu enumero toscamente nesse texto as razões pro que te assusta. Saiba que me jogar de novo nesse abismo que é amar também me custa, às vezes, uma parte enorme da alma. Mas tenha calma, criatura. Já tenho idade pra saber que desse mal também se cura. Não vamos morrer de amor, mesmo que ele chegue a nos afogar. Amar, assim como ficar bem, não tem garantia, mas é decisão a se tomar.
Sei que é tola a iniciativa de se explicar o que se sente. Fato é que eu já saltei e o resto todo depois se vê.
Sim, eu já apostei novamente: sem dúvida eu amo você.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Para o poeta com um beijo.

imagem disponível em

é vento que te passeia por dentro
e escapa devagar por entre os dentes
úmido de saliva
ah, a poesia...
proferida em silêncio no respirar do poeta
é um cometa que se acende no ar...

gosto sobretudo do cheiro dela
e é isso que me impele, continuamente a tocar
suave e incerta, com meus lábios
os lábios doces
de quem a faz vibrar.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Da inquietude dos dias.

Você não me diz, mas deixa
assim nós dois pra depois
pra depois do expediente
pra depois da conta paga
pra depois da aula dada
pra depois depois depois
e o encontro vai ficando
pra depois do seu cansaço
e o abraço, a troca, o gesto
vão passando nesse passo...

Depois o café esfria
depois nem o sono vem
o gosto vai se perdendo
o cheiro some também.
E tanta coisa bonita
amor, desejo, paixão,
se empedra e se apodrece
quando só o depois vigora...

Pelo que eu sei agora,
eu te peço, não ignora:
depois se perde, por um triz,
o que a vida trouxe de graça
e essa chance de ser feliz
deixada assim, pra depois
também passa.

terça-feira, 28 de março de 2017

Angústia confessada

Por mim
você bem que podia parar agora.
Essa chuva fina caindo lá fora
essa dor fina no entre do osso
essa angústia afiada marcando os segundos
o mundo e toda a maldade do mundo
tudo isso junto só me convence
que é injusto esse trabalho tanto
que essa luta ninguém vence...
o meu coração apertado de saudade
se aborrece ao ver o teu caminho cheio
e me pergunto, menina abandonada
se era pra não estar,
pra que veio?

É bem assim
que eu me sinto agora
por mim você bem que podia parar
por mim
já se passa da hora.

sábado, 18 de março de 2017

Aprendizados

Crying Woman, Pablo Picasso. 1937
quando sentiu aquele cheiro
atiçando a suspeita
de que morrera a emergência apaixonada,
primeiro chorou.

engasgada
esforçou-se para limpar a boca:
com palavras inexatas
e lágrimas e dor
engoliu o regurgitado coração,
e se fez silenciosa
em espera e observação.

mas foi repetido o novo gesto de tanto faz
e as novas prioridades
tomando a frente dos dias perfilados
ressaltavam para ela
um espetáculo macabro:
quase nada aprendera com a vida
e os amores passados
e mais uma vez, com susto e enfado
verificava que as horas vazias
restavam amontoadas
apenas do seu lado.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Entre o fazer, o ter, o ser.

Detalhe de tumba do século XIX em Santarém, PA.
Eu sou do tipo que quer beijo de língua às três da tarde da quarta-feira
que põe poesia na vida, sem hora, a vida inteira
carinhosa carente,
que de carinho carece e dele se faz exigente
hedonista, não sei, mas gosto e quem não gosta de prazer?

na curva dos enta, sou a que tenta mudar
hoje estou cansada de tanta obrigação de fazer
e fazer
e fazer
e fazer
sim, posso e até quero fazer,
mas entre isso quero, sobretudo, ser
porque é preciso ser pra fazer história
quero ser mãe que acolhe e cuida no meio da madrugada
sem pensar no dia que vem e nas correções dos trabalhos e na entrega das notas
e em mais nada
porque uma filha, irmã, amiga precisa de mim no agora.
Quero ser professora que dá bronca e chance, mas nunca ignora,
quero ser aquela que abraça, recorda, aparece do nada,
a que adota o gato resgatado na estrada,
quero ser filha que manda o dinheiro necessário
sem pestanejar ou pensar na outra prestação
e quero ser a namorada que troca mensagem no meio da reunião...
Quero ser presente para quem está presente na minha vida
porque o poder mais transformador é o amor e a lida
as tarefas, as dores, as feridas e todas as coisas mais
se vão numa virada de destino
numa curva mal feita, na reação a um remédio,
pela arma na mão de um menino,
pelo safanão do homem que se pensava amar,
pela queda besta no banheiro,
pelo coração que decidiu parar,
pelo sangramento que não se pôde evitar,
pela tentativa bem sucedida
que fez da partida não desejada
um adeus completo...
Penso nisso, respiro, me aquieto...
Quero ficar aqui e ser
e há nesse desejo, eu sei, muito de ego
a ideia de permanecer plantada, por carinho
por intenção e por gesto,
em quem por mim foi amado ou amada...
Por isso o desejo de presença, por isso a crença
de que é necessário é preciso é urgente
dizer eu te amo a quem eu amo e estar presente
numa mensagem, num abraço, num olhar.
Sou desse tipo
estou desse tipo
e nada tem me convencido
de que é necessário mudar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carta ao corpo

Observo-o como a um filho
o corpo em si não é problema,
o corpo é um corpo feminino
que vive seus ciclos e tem
cabeça, tronco, membros,
sistemas, órgãos, ossos cobertos
de carne e pele,
na superfície,
unhas encravadas e cravos nas costas,
pelos e cabelos,
áreas úmidas,
oleosas,
ressequidas...
sim, um corpo normal
com quarenta e três anos de uso
por vezes comedido, por vezes irracional
um corpo apenas
veículo e única materialização possível do que sou
sujeito à minha colonização
meu planeta pessoal
meu corpo.

E, humana no limite,
desprezo-o
não tomo consciência completa dele,
não sinto suas dores, não me compadeço de seu cansaço
não observo nem respeito quando tudo de que ele necessita
é do meu abraço
do meu cuidado
do meu carinho
minha atenção.

Ah, corpo meu,
perdoa deixar-te tão sozinho
e ir voar entre tarefas inúteis?
Desajeitada e tosca
proponho uma trégua na guerra que me declaras
na esperança de uma singela, talvez frágil
mas sincera
reconciliação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

De conversas sobre o tempo




O corpo apresentará seus limites,
a mente acompanhará assustada,
a alma se perderá no caminho...
O tempo, implacável, nos come a todos,
sem tempero nem gosto, sorve
matéria e espírito,
Com ou sem lamento
tudo em nós, em breve,
será corpo do tempo.
Ignorar que somos dele a refeição
não diminui seu apetite voraz.
Tampouco haverá modo de evitar-se
que ele nos degluta...
Ah, tempo, tempo filhodeumaputa,
Eu me vingo sendo sempre
fervida,
e muito doce, ou amarga demais
Pra que cada mordida tua e cada vez
Que por ti sou engolida,
Que cada saliva tua que me banha
Com irrefreável sanha
Traga viva a lembrança da única verdade sustentada:
Sou seu alimento, breve serei nada,
Mas do agora de cada hora,
Enquanto conscientemente respiro,

Sou eu, a plena senhora.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Oração da lua ao sol*.

"Dá-me que eu me sinta teu"

Adona-te de mim, sol
sequestra-me de quem sou
faz de meu corpo tua habitação
toca, beija e consome.
Seja amor o cimento das fundações
do teu edifício
e de luz cobertas,
as paredes desse quarto
sejam floridos sorrisos.
Seja a cama aquecida com
pequeninos e prazerosos dèjavus.
Eu que já não sou mais flor fresca
à beira do lago
eu que trepadeira me espalho,
folhas secas sobre o noturno orvalho...
voa sobre mim como ave
toca-me o púbis, move-me a pelve
apascenta o lugar pra ti reservado:
a vida toda.
Volta,
desloca as fomes, os medos, as misérias
os segredos, as maldades e as imperceptíveis
ignorâncias
para baldios inóspitos e distantes
anula-os como aos germes
e me ama.
Vem,
e sejam cada instante,
cada vivência,
cada tarde, noite, hora,
manhã ou madrugada
seja cada toque ínfimo
um despertador
e cada chamado,
cada notícia ou conta
chegadas de dentro ou de fora
uma aventura nova
com sabor de vida plena
seja a vida
esse reescrito poema
porque estamos juntos
a iluminar essa estrada.


*por ocasião dessas cem noites ensolaradas.





.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Cena 3 pra quinta-feira

Ei...
quinta...
quinta dá? pra gente ficar junto?
Enquanto isso eu fico aqui
juntando assunto
ignorando a ânsia que me devora
pondo em ordem
a trilha sonora que me morde
o coração...
e embora saibamos exato
cada passo desse chão,
e embora não haja trato que nos trate
e que evite os colaterais efeitos
da paixão
essa amnésia que faz
tudo ser novidade
me parece boa, me apraz
me apazigua e regenera
subtrai minha idade e a dilacera.
A pele, o poro, o pelo, pedem
o corpo grita que quer mais...
então... dá? quinta, dá?
pra essa cena repetida
esse clichê que me dá vida
entrar em cartaz?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bliss - ou dos saberes fundamentais de um homem

Capa do CD de Jan A.P.Kaczmarek

Ele sabe
ele sabe sim
ele entende o caqueado...
a criatura
me mete a mão na cintura
me cheira, me vira de lado
num passo de dança
se lança
beija meu pescoço
como se lambesse a alma e o osso
me inspira em reticências
e lentamente conquista
licença pra entrar em mim.
Ele sabe.
Ele sabe sim.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

apassionata

Foto de Emannuel Keller. (http://animaliajungle.blogspot.com.br/2013/12/especie-hiena-malhada.html)

é um vírus instalado
que danifica sistemas consolidados
capaz de se impor
e quebrar rotinas,
desativar o abandono,
revirar o estômago,
apagar o sono,
retirar a paz e
ainda assim
num só compasso
destruir o cansaço
é o que ele faz.

Feroz e voraz
uma vez ativado
esse bicho cavalo-leão-hiena
age assim, sem vergonha ou pena
espalha marcas roxas 
no pescoço
e suja, sem culpa
meus cabelos, meus lençóis.

Começou o ano
e se contaminada
ardo na febre de mil sóis
é simplesmente 
porque eu amo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Novo de novo...

Quando o assunto não se esgota
mas a manhã
ao negrume do céu desbota,
nos permitimos, silentes
o curso de nova rota...

A  textura, a cor, o cheiro
aguçam cada sentido por inteiro
mesmo constantemente lavada
a carne viva
com esperma e suor e saliva
não se aplaca essa fome
por tanto tempo controlada
- embora ativa...

Já sabemos de cor o nome
e de onde deriva:
é amor
essa recidiva.