"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A filha pródiga, ou dos resultados da meditação.

I
Primeiro acreditei que era incapaz
de conversar, de sorrir, de partilhar,
acreditei que era incapaz de me superar,
acreditei que estava pronta pro nunca mais
acreditei que era incapaz de acreditar.

II
Com um fiapo de dignidade reagi
e quando finalmente findei
com a "solidão a dois de dia"
eu já não era, eu era só agonia
destroçada, não me reconhecia
e não queria viver mais.
Uma dúzia e meia de meses atrás.

III
Para desistir da forca
o primeiro passo foi respirar
e respirei feito louca, embora ainda não pudesse
nem de longe me suportar.
Rigidamente impus flexibilidade ao meu corpo
que gordo, esquecido, torto
se fez dolorido e abandonado,
de mim, pela desesperança sequestrado
era um corpo perto do fim.

IV
Cozinhei-me devagar e com paciência
reconheci e expulsei
pânicos, inseguranças e outras doenças
reconstruí, naco a naco
a deusa que me habita
e é o silêncio da minha mente quem agora grita
e meu coração finalmente está em paz.

V
Olho-me do alto, árvore renascida
deusa-mãe, mulher, completa e decidida
reconheço em meu tronco cada marca, cada ferida
sei quem me impôs o último golpe aniquilante
e sei que fui cúmplice na queda vertiginosa
ao abandonar a consciência de ser rosa,
ser jasmim ou onze horas
flor simplérrima sobre o chão
beleza efêmera, odor de ocasião
permiti as sucessivas podas
que devastaram-me o jardim do coração.

VI
Hoje vejo brotar a palavra perdão
para quem me feriu,
para o mundo que assistiu
para mim mesma, na totalidade do que sou.
Quero caminhar consciente da beleza
de que respiro e sou parte completa da natureza
de que meu corpo vibra e minha voz pode embalar
sou quem sou,
nem anjo nem demônio,
não estou pra destruir nem salvar
sou apenas um ser completo
capaz de me entregar,
de amar e reamar.

Sim, por fim
a mim mesma
eu voltei a cultuar.






2 comentários:

Augusto Cesar disse...

"Por ti, encanto"

a via
a sentia
a observava
a conhecia

Uma história
no mínimo estarrecedora
os nós, as curvas, os rasantes
de sua alma historiadora

Como quem invade, sem pressa
adentrei em sua sombra, seu ninho
ali, almas que se reconhecem
e se apaixonam por cada nuvem, piadas e romances
e parece que nunca envelhecem

senti uma paz, um calor, o amor
que acolhe, alinha e inspira
tentos perdidos e sem rumo
em suas ramas encontram fartura
no cego amor que ali pra sempre perdura

ramas lindas, belas e amadoras
de uma raiz forte, robusta brotaram
raiz simples, feita só de poesias
mil almas, um só corpo que contagia
que renasce
se reconhece
sente dor, chora
mas ama, traz luz e tão logo
dor e lágrimas se desvanecem

ao ver tu, raiz, de volta a vida de "cultuação"
onde amar é a chave, o segredo
viver é essência da mutação
pra quem se entrega e não sente medo
nesta doce e volúvel canção

seu renascer
é a notícia que hoje recebo
esta afaga este teimoso e confuso coração
que te ama
sem segredo
e sem medo

assim vi
assim senti
assim observei
assim conheci

Elimacuxi disse...

Que lindo Augusto Cesar... Agradeço tanto, tanto...
Um beijo.