"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quinta-feira, 19 de abril de 2012

poema pra minha namorada

minha menina
me leva por caminhos incertos
mas mantém meus olhos abertos

espero que ela registre por mim
e melhor 
a cor de tudo

nesse acordo
ela é meu exercício
sobre o precipício
do estudo

minha menina me ajuda
a dizer o que quero
quando mudo...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

proposta pra bela e pra fera*


eu, hein?
poesia é minha moeda de troca
é a senha que me desentoca
quero mais palavra no meu ouvido
e barulhentos
nos perdemos no olvido.
Quando não dá, faço a moderna:
levo a moeda
a passear na taberna
aceito quem me abraça
bebo o vinho, quebro a taça
e finjo que não sei
quem quebrou o espelho.

com luxuriosa inveja
de longe observo vocês
e vem o desejo velho:
que tal fazermos a três?


* em resposta a Isabella Bela e Roberto Mibielli.

domingo, 15 de abril de 2012

Meu peito aperta
por um cheiro antigo
lembro das tuas mãos nos meus braços
apertando-me em abraços
de cuidado e proteção.

num instante grita a falta
das gargalhadas
do gozo aflito
das brigas sem um único grito
das noites de amor e degredo
do mistério de não manter um segredo
e da inquietação tão nossa
de fazer alguma coisa
ou coisa alguma,
juntos.

essa dor não se apaga
reaparece quando penso estar dançando
queima os cantos do que sou
dilacerando cada certeza
desencanta-se o mundo.

Nessa hora de lembrança solitária
entre gente que me cerca sem me ver
sinto frio
e o salão de baile fica vazio
completamente vazio
sem você.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

naufrágio


quando você apareceu
olhos faróis
em meio ao breu
eu barco a vela
na tormenta
me refizera
e ignorara se seria a hora:
agora era navegar
de novo
no escuro
desse amar profundo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Poema para Roberto ou Da contra-indicação do amor líquido

ah como desce mal esse gole
antes queimasse feito cachaça
antes doesse feito pedaço
grande demais
mas não.

como desaprender
e se desprender
desses séculos de amor
que nos envolvem?

por ora o amor des-envolve-se
e as novas formas
parecem devolver a tudo
o acordo frio
calculado
seco
de muito outrora.

antigos
eu e você gostamos da queda
do soco no estômago
do susto que é amar
solidamente
e do risco de dar
de cara na pedra
do gesto repetido
na ponta da faca.

para nós não se indica
o amor líquido, não:
é certeza de mais ressaca
e menos alucinação...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Falsete

Two man dancing at a drag ball. ARBUS, D. 1970.

Ela passeia por estradas que já conheceu
desejando sentir o perfume que já foi seu
sorri em volta 
esperando de volta
um sorriso que nunca deu.

Sinceridade é moeda rara 
e ela não possui
acredita-se revolucionária
mas em duas tardes
a imagem rui:

Solitária 
pós-moderna
líquida e incerta.

Não tenho surpresa nem alegria
quando de novo o meu quintal visita
essa que fora uma promessa bonita  
revelada agora
só uma sombra vazia. 

domingo, 1 de abril de 2012

Manhã,
caminho até a padaria
o mundo me enche as retinas
e tudo merecia
ser fotografia:

dois pombos que se banham na poça de lama
dois coqueiros em contra luz e um insultante céu azul
um espinheiro que abraça uma pilastra em concreto
uma moita do mais ordinário mato, sorridentemente florida.

Foi só uma noite de dor
e amanheço assim,
impressionada com a vida.

sábado, 31 de março de 2012

os sons do silêncio



anoitece
e então, 
na primeira hora
essa ânsia chega 
 meu corpo ignora
o sono, o cansaço
em mim se escasseia a dor 
pelo excesso de espaço...
negaceio a tristeza
jogada no chão da sala,
atenta,
ouço o silêncio
que de amor que me fala.

quinta-feira, 29 de março de 2012

as ondas de seus cabelos que eu afago
são um terno e morno mar onde me afogo
o toque do seu olhar sobre meu corpo
é a brisa que em mim ateia o fogo
sua voz que não é grave, nem aguda,
encerra em mim esse "deus me acuda!"

o que dizer do alvo da pele crua
e da visão de paraíso que cada extensão
desse caminho insinua?

eu conheço bem o nome dessa dança
caminhante dessa senda
eu já sigo, embriagada
vou voltando a ser criança
que não teme
calmaria nem contenda:
vou sem leme
apaixonada...


segunda-feira, 26 de março de 2012

fui me embora
levei meus versos e rimas
proutro quintal
de onde vejo o céu e a lua
ao natural
aqui, canção, fumaça e rua
integram um ideal
de parceria
construir
alegria crua
sem ponto final

aqui mesmo vestida
sinto-me nua
e nesse Bacanal
tudo é semente
vinho é somente
mais um sabor
a compor
o prato principal

fui me embora
me alimentar de um amor
iguaria sem igual