"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Poema para Roberto ou Da contra-indicação do amor líquido

ah como desce mal esse gole
antes queimasse feito cachaça
antes doesse feito pedaço
grande demais
mas não.

como desaprender
e se desprender
desses séculos de amor
que nos envolvem?

por ora o amor des-envolve-se
e as novas formas
parecem devolver a tudo
o acordo frio
calculado
seco
de muito outrora.

antigos
eu e você gostamos da queda
do soco no estômago
do susto que é amar
solidamente
e do risco de dar
de cara na pedra
do gesto repetido
na ponta da faca.

para nós não se indica
o amor líquido, não:
é certeza de mais ressaca
e menos alucinação...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Falsete

Two man dancing at a drag ball. ARBUS, D. 1970.

Ela passeia por estradas que já conheceu
desejando sentir o perfume que já foi seu
sorri em volta 
esperando de volta
um sorriso que nunca deu.

Sinceridade é moeda rara 
e ela não possui
acredita-se revolucionária
mas em duas tardes
a imagem rui:

Solitária 
pós-moderna
líquida e incerta.

Não tenho surpresa nem alegria
quando de novo o meu quintal visita
essa que fora uma promessa bonita  
revelada agora
só uma sombra vazia. 

domingo, 1 de abril de 2012

Manhã,
caminho até a padaria
o mundo me enche as retinas
e tudo merecia
ser fotografia:

dois pombos que se banham na poça de lama
dois coqueiros em contra luz e um insultante céu azul
um espinheiro que abraça uma pilastra em concreto
uma moita do mais ordinário mato, sorridentemente florida.

Foi só uma noite de dor
e amanheço assim,
impressionada com a vida.

sábado, 31 de março de 2012

os sons do silêncio



anoitece
e então, 
na primeira hora
essa ânsia chega 
 meu corpo ignora
o sono, o cansaço
em mim se escasseia a dor 
pelo excesso de espaço...
negaceio a tristeza
jogada no chão da sala,
atenta,
ouço o silêncio
que de amor que me fala.

quinta-feira, 29 de março de 2012

as ondas de seus cabelos que eu afago
são um terno e morno mar onde me afogo
o toque do seu olhar sobre meu corpo
é a brisa que em mim ateia o fogo
sua voz que não é grave, nem aguda,
encerra em mim esse "deus me acuda!"

o que dizer do alvo da pele crua
e da visão de paraíso que cada extensão
desse caminho insinua?

eu conheço bem o nome dessa dança
caminhante dessa senda
eu já sigo, embriagada
vou voltando a ser criança
que não teme
calmaria nem contenda:
vou sem leme
apaixonada...


segunda-feira, 26 de março de 2012

fui me embora
levei meus versos e rimas
proutro quintal
de onde vejo o céu e a lua
ao natural
aqui, canção, fumaça e rua
integram um ideal
de parceria
construir
alegria crua
sem ponto final

aqui mesmo vestida
sinto-me nua
e nesse Bacanal
tudo é semente
vinho é somente
mais um sabor
a compor
o prato principal

fui me embora
me alimentar de um amor
iguaria sem igual

quinta-feira, 22 de março de 2012

Pacífica


meio perdida
nesse deserto sem medida
ando calada
não há mais nada
o que falar...

feito quem come
feito quem morde
feito quem some
feito quem dorme

sufocada de amor
a mente silente
quase torpor
é a paz que se sente.

terça-feira, 20 de março de 2012

pé de esperar

feito semente
que sabe que explodirá
no horizonte
perco pedaços de olhar
pra renascer inteira
pitangueira
ou jacarandá.

quinta-feira, 15 de março de 2012

quero a madrugada branca
bêbada
de sono
alma inquieta
no teu braço

quero esse laço
um num par
a carne nossa toda envolta
das ondas de doce ócio
ah mar...

segunda-feira, 12 de março de 2012

Recomeço

o tempo me roça
e meu coração tem pressa
de viver a promessa
essa ameaça
para o olhar que se embaça
para a alegria escassa
diante da vidraça...

quero tudo o que mais refaça
o prazer e a graça que há nessa presença
o enlace de nossas conversas...
isso tudo, a prosa mansa
que a vida amacia
o jeito criança que de mim faz troça
e esse corpo teu, que doce
me abraça.