"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2021


Talvez eu esteja falando sozinha
talvez seja minha e só minha essa angústia, essa dor
carnaval passou, foi? eu nem vi
coração no peito dando seu jeito de seguir
e a pele cansada meio amolecida e o ouvido pedindo
pra não ouvir
tanta notícia e desencarne e sofrimento
e prejuízo e mentira e engano 
tanta história desprezada entra ano e sai ano
e o povo
sem vacina e sem pudor
sorrindo por se vingar no BBB
eu no bolo
do povo
porque aqui fora, 
nada, nada, nada
e nada de novo
cada um escolhendo o algoz da vez...
 
Fui pra dentro de mim e a paz ali estava sozinha
eu queria mais e mais não tinha
por isso hoje saí pra reclamar 
Estou indignada, estou indignada!
mas nem se incomode, deixe estar
que tudo passa e essa minha raiva
fazendo pirraça
também vai passar. 


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Despedida

Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY-ND


Era um tornado
O seu sorriso
Uma tempestade de areia
A alegria
Que a tudo cobria
Quando conosco você
Estava.

Que delícia era a ventania
Dos teus conhecimentos
Varrendo ignorância
e de um jeito muito próprio 
defendendo direitos...

Nesse deságue de agora
te digo que foi um furacão 
a notícia da vitória do vírus
que transformou a materialidade
do que você era
em brisa
certamente sentida
e inesquecível.


*Ao professor Marcos Braga, falecido ontem por COVID 19.

domingo, 22 de novembro de 2020

"Acredite nos seus sonhos"

Jogos Infantis, 1942. Dorothea Tanning*

Quando eu era bem menina

Guardei, em silêncio, um sonho

Não contei a meus pais,

Não contei a meus irmãos

Tomei-o em minhas mãos

E o mantive bem guardado.


Quando resolvi comer

O creme tinha mofado.


* Minha artista preferida do Surrealismo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Desabafo

Edvard Munch, Ansiedade, 1894.

É dor tanta, e saudade, e vontade frustrada 
a poesia sufocada, o coração estreito
no ar que não entra direito no peito

fogo rasteiro destruindo ninho
destruindo sonho, des-tru-in-do caminho
de cooperação e fé e unidade e luta
é sempre o mesmo signo regendo esse bando 
coisa imunda de dinheiro e sucesso e corrida e disputa
e farinha pouca meu pirão primeiro
não vem o meteoro e é tanto biscoiteiro 
e tanta raiva escorrendo pra dentro, silenciosa
é tanta amargura e postura desonrosa
é inveja e maldade que escorre da boca 
de quem erroneamente se pensava amigo...
em vão mitigo com o amor que em mim há
o ódio plantado, que se espalha daninho
mas é nota alta que minha voz não alcança.

E sei que lá vem
o zé mané me dizer que não, que é mimimi que é nhennhennhén
que todo engano tem seu motivo, "deixa pra lá que tu vive bem"
e eu ouvindo o grito seco que não sai
mas por dentro ecoa estourando tímpano, 
destruindo o sono
e é abandono o sentimento que vem no meio da tarde
com esse cheiro de veneno no ar
literalmente o cheiro de veneno no ar
"senhora, não podemos fazer nada se a senhora não puder localizar"
e saber do mercúrio na água e das travestis atacadas na noite passada,
sentir o ardor e o lacrimejar
e agradecer severinamente, 
pois só levaram o celular. 

é dor tanta, e saudade, e frustração...
tem poesia sufocada nesse coração estreito mas 
diante de tanto mal que se agiganta
só consigo gritar a tempestade de água e sal 
empedrada na minha garganta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A cara do vento bate na minha cara


Sino do vento da porta da frente.
 Imagem, elimacuxi.



o dia mal aclara
e a cara do vento, descaradamente fofoqueira
convida as folhas prum leva-e-traz,
passeia levantando seus fãs na poeira
irritando narizes, 
cerrando olhos, removendo quipás
com seu chicote e suas cicatrizes.

A cara do vento é meio mãe, meio capataz.

A cara do vento escancarou o dia
disputando com o sol a manhã modorrenta
acordou os capazes de ouvir a poesia 
que em suas costas carrega e sustenta
em pétala e sangue, me trouxe notícias,
de quem, pelo mundo, a vida aferventa.

A cara do vento rompeu num aviso:
se derrubou pontes ou ergueu marés,
se destelhou casas, derrubou granizo
e se rompeu a carne presa nas galés
tudo era passado, no agora presente
estava disposta a novo julgamento - 
faz cantar o sino da porta da frente
em perdão contínuo de contentamento.

E como a verdade que se escancara 
é que meu juízo à natureza não altera
a cara do vento deu na minha cara
suave e certeira,
como uma quimera. 






sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Ordem e Progresso

Se eu gosto do Brasil?
ah, depende, meu irmão...
se Brasil é esse povo
que apostou mal de novo
votando no "capitão" 
que por mais de trinta anos
explorou nossa nação
ou se o Brasil é essa gente
que calada e conivente  
permitiu sua ascensão 
a minha a resposta é não. 

Se o Brasil é o campo em chama
o desmatamento e a poluição 
dos rios pelo mercúrio 
do garimpo e da invasão 
pelo boi e pela soja
provocando da riqueza
ainda mais concentração
minha resposta é não.

Como gostar do Brasil,
me responda meu irmão
do Brasil que não usa máscara
pra evitar contaminação
mas que é mascarado na origem
fingindo ser coração, 
defendendo assassinato
e se dizendo cristão?

Se o Brasil é o aleijão
que está dançando na pista
com a pele moqueada 
e fazendo piada racista
zombando de Mariele
e de Maria da Penha
ah, por favor meu irmão, 
perguntou, agora venha!
se é o que se acha importante
"cidadão não, engenheiro"
o que crê que tudo pode
porque tem algum dinheiro
ah meu amigo, não fode
que que é isso, companheiro?

Eu que estudei na história
toda uma reputação
de um povo que resistia
e que bem reconhecia
de onde vinha a opressão
como vou comemorar ilusão de independência?
Com jovens irão pagar
envelhecer e morrer 
sem contar com previdência?
Se o Estado vai seguir
tomando tudo em imposto 
e comemorando as mortes 
de quem colhe o sol no rosto
pra trabalhar todo dia  
sem saúde ou educação? 

Se eu gosto do Brasil?
ah, depende meu irmão
se for disso que tá aí
a minha resposta é não. 


terça-feira, 18 de agosto de 2020

"Quando a indesejada das gentes chegar..."*

MUNCH, Edvard. No leito da morte. 1895. Óleo sobre tela. 


Não, minha senhora 
eu não sou como era outrora,
quando eu corria muito pra chegar em primeiro
trocava fácil pelo trabalho, o travesseiro
respirava em stacato
ia pra festa mesmo cansada e apertando o sapato
me preocupava com a cor da moda
e em sentido lato
queria ser a que não incomoda.

Eu não tenho mais tanta energia
pra levantar cedo, iniciar o dia
tomando água com limão por brigar com a barriga
e aceitar o sim e o não de quem, para mim, nem liga.
Não tenho mais força para ver 
banhados num discurso que ordena que eu me informe
sufocados pela rotina de noticiários baratos 
a beleza e potência dos meus talentos natos,
não consigo mais manter a consciência disforme
que determina: "se atenha à realidade dos fatos"
e os meus sonhos e desejos, estrangula
e o melhor de mim, em mim, anula.

Eu não tenho mais força para competir com os irmãos
mover céus e terras e fundos e pernas e braços e mãos 
em benefício do que rezam os mais antigos sermões
nessa disputa em que ganham apenas e só os patrões.

Não minha senhora,
eu realmente não sou como era outrora
e há tempos, nessa vida
não tenho mais
nenhuma vida pra jogar fora.
 

*Verso do poema Consoada, de Manuel Bandeira.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Carta de amor*


não
nem o meu nem o seu peito
são de aço
podemos fingir por uns minutos
mas o traço
dos dias nessa história de pandemia
eliminou à força o que já nos foi paço.

despedidas sempre foram
temperadas de tristeza
mesmo aquelas mais felizes
em que quem parte a longo prazo,
vai buscar diretrizes pra vida
se encher de beleza.

como já foi, mas não é agora, o nosso caso.

sei que nós nunca nos assustamos com a distância
porque moramos perto e dentro, numa aliança
que não se desfaz por viagem, nem mudança.

mas não
nem o seu nem o meu peito
são de aço
e estamos sem socorro
silêncio e embaraço
desde ontem me explodem na garganta e na cabeça.

- é que você sofre e eu estou que morro
essa carta é o caminho que invento e percorro
pra fazer que nosso abraço, impossível, aconteça.


Para o meu vizinho, entre tantas outras coisas que ele me é, Roberto Mibielli. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Balanço dos 47

Mulher na frente do Sol. Juan Miró, 1950.
Pandemia e afasia.
Cansaço crônico.
Medos e enfermidades diversas
as ansiedades e dores que não cessam.

A pele dividida
não sabendo se quer vincar,
ressecar, esticar até rachar
ou sobrar em pelancas
exagera e toma as três formas
em diferentes espaços do corpo.
O corpo
companheiro alquebrado do processo
chamado vida
elabora saídas inteligentes
para seguir inteiro.

Ensinei à mente que o tempo perdido não volta,
é lição sabida.
Oleira de mim
moldo contínua e incansavelmente
o ego/barro
para que abra mão da razão
para que se quebre e vá
e deixe ir.

Leve
o espírito quer unir-se cada vez mais
ao que é belo, eterno e positivo
a amizade, o amor, a saúde e a paz
do eterno devir.

Ando cultivando sinceras curiosidades
há quem por mim, mais que eu,
nesse momento, zele?
porque o sapo se enterra?
qual é o tempo da pitanga?
quem mandou matar Mariele?

Sigo
descobrindo com prazer o que não procurei
que cor toma a pétala no quarto dia do florescer?
se provocada, devo mesmo responder?
são mesmo horríveis todas as coisas que até aqui repeli?
posso continuar extirpando a angela
e sendo só a Eli?

Benvindo julho que inicia o ano novo
Vem sol, vem logo ocupar minha primeira casa
seca e renova as asas
aquece e energiza cada célula
cada sentir e pensar, que nesse corpo,
são seus e meus.

E que a cada ano eu possa me descobrir mais livre
E a cada respirar eu me descubra mais Deus.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

In corporada*

  Estudo para retrato de Lucian Freud.Francis Bacon, 1966.

meu corpo desmanchado
se reconfigura e permanece
fragmentado
pedaços de outras vidas se mesclam
no eu agora incorporado
nada é puro 
todo sentimento é copiado

cantando porque o instante existe
apesar da respiração difícil 
vendo a vida besta, 
meu deus 
tanta perna seguindo no bonde
e esquecida 
a doçura do correio entre amigos.

sem pneumotórax possível
a felicidade oscila
mas a alegria
ainda parece ser melhor
que a tristeza

então meu coração reza
na insistência de outras práticas
lendo o tempo, que ainda me pega à força,
arranco a filosofia entranhada 
nas tarefas domésticas
como quem limpa peixes
salga carnes
prepara caldos
faço poesia. 

hoje acordei cópia
e no meio de mim jazia
uma pedra 
sem tradução possível de parte a parte
era uma palavra presa, 
empedrada, suja
e sem possibilidade de limpeza.  


*pelas palavras de Cecília Meireles, Viviane Mosé, Adélia Prado, Elisa Lucinda, Bandeira, Drummond, Vinícius, e Gullar. Não necessariamente nessa ordem.