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| Caravaggio: São Jerônimo escrevendo, 1606, 112x157 cm, Galeria Borghese, Itália |
nos últimos tempos tenho ouvido uma porção de estetas.
um poeta que me diz que poetas não falam do que é ser poeta,
outro que julga o cânone e, para dele se afastar,
acaba perpetuando-o, por ora como modelo a se evitar
outro, que sem pudor, brada que amor não é tema de que se trate
e aquele que, na entrelinha de sua fala
julga que poeta mesmo é aquele que se cala
aquele que, antes que a vida lhe arrebate, se mate.
fecho-me emimesmada em meu quarto
vaidosa de mim e dos meus defeitos todos
livre e orgulhosa de sê-lo
divagando sobre tantas regras que não quero
outras com que converso
outras que não aceito,
deixo o julgamento pros juízes
e espalho-me feito lama nesse espaço
que é frágil e cheio de deslizes
que não busca nem dispensa
café ou fama
que é construto do amor que vivo
na sala
na rua
muitas vezes na cama.
nos últimos tempos tenho ouvido uma porção de estetas
e para minha imprecisa verve de poeta
penso que eu não preciso
pois que espelho-me em mim
e só me escrevo
(não porque a mim eu dedique enorme apreço
mas porque construo um possível lago de narciso
e me banho
nos versos que entreteço).
*a maior obra que você será capaz de construir é a si mesmo.