"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Amar é clichê

sim, 
ainda há dores
e coisas fora do lugar
há diversos dissabores
e nem todas as cores vibram
como poderiam vibrar
de lado a lado ainda há problemas
e medos e traumas 
mas há novas canções e poemas
e entrega e carinho e calma.
Cada minúscula parte do que sou
está feliz pelo que fiz:
meu coração
 - que castigado, quase secara - 
agora é toca para um leão
espécie rara que em meu peito se aninha
ronrona, delira, me inspira
a reencarnar a apaixonada poeta.
Reescrevo, sem culpa, todos os clichês 
nessa bela história de amor que hoje completa
dezesseis anos 
e um mês.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Pariceiros

MATARAM AS HORAS, SUBJUGARAM O TEMPO E TOCARAM O ÍNTIMO DA ETERNIDADE...

O Beijo. Constantin Brancusi. Cemitério Montparnasse.
É pouca noite pra muito assunto
a gente junto...
tanta energia que nos aquece
o cansaço se alivia
desaparece
pele na pele
o desejo nos revela
enovelados

a manhã
vem surpreender
o nosso afã apaixonado
e quando a luz nos trava as retinas
sorrimos os dois
cerramos as cortinas

porque é pouca noite
pra muito assunto
a gente junto



domingo, 20 de novembro de 2016

Nossa missa

"nas manhãs de domingo, vejo flores em você"

verti as taças possíveis
lânguida
lambi a noite
jardinei-me em promessas
e tu me ouvias
mergulhada no rio da memória
desses dezesseis anos
e quinze dias

é culto de muitas horas
te adoro
me adoras
a pele e os lábios
precisos e em prece
destroem os cansaços
e tropeçamos nos braços
que a vida oferece

do outro lado da cortina
o dia raia impassível
e eu de bruços recebo
as lições e os laços
a conceber:
o presente é canoa
que por ora conduzimos
querendo reflorescer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Minuto de silêncio

Amanheceu
meu mundo amorenou.
Uma pele pura
sobre a carne crua
presente
promissora e permissiva
perfeita
pôs-me perplexa
e por hora
perpassada
por poucas palavras.

domingo, 6 de novembro de 2016

Recaída

imagem disponível em http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/eclipse-solar.htm

"nas manhãs de domingo parece que todos olham pra você..." IRA!
Embora envolta em dor fina
aferi meus poros lambi-me a pele
lambi-me os pelos
levei-me para fora da toca
e em braile dei-me a ser lida.

quando da noite se fez despedida
sob o céu nublado
também chovia em mim
endorfina pra todo lado
e revi meu corpo levitar
completamente dopado!

é seu ofício e meu horror:
o domingo se arrasta sobre tudo
com o mesmo vagar
o sol beija a tudo e aquece com o mesmo fervor
e observo a velha ferida
sob os efeitos do predileto vício...

Salve! Pois que nessa vida
dura, torta e desmedida
sempre será justo comemorar
a possibilidade dessa recaída.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Desprendimento


No dia de tudo
pois que tudo morre
amanheço acúmulo de não pertenças
sozinha com a vida
criança na floresta
onça na avenida
miserável na classe média
privilegiada entre miseráveis
paulistana-macuxi-paulistana
humana
mulher entre travestis

pestanas abertas para o caos
encravada entre pele, pelos, ossos
sou pluma chegada ao chão do abismo
acúmulo de solidões profundas
por desistências provocadas
ausentes amizades
e descontato contínuo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poema de primavera















Quando venta
e o vento traz assim, de longe
uma palavra tua, doce irmã,
eu, que ao amor respeito,
suspeito que entre nós ele é espada de são jorge
é espada de iansã,
é lança de ogum:
raízes fincadas, parece seco mas resiste vivo
no peito, na pele, na cabeça...

transformado
se espalhou à beça
e espera, espreita
um encontro ou dois
um par de noites
um samba, um bolero
um brega
para atiçar depois
sob o açoite do desejo
renovada entrega.

talvez seja isso,
basta um morno e úmido beijo
pra irromper, de novo, um verde broto
amor maroto de quilate raro:

fruto maduro
dentro de nós.

 

sábado, 17 de setembro de 2016

posso
pois sou osso
sobrevivo
à carne
que entre a morte e a arte
estira-se sobre as sobras do tempo
estreita espaços
se importa
comporta
e conforma a vida.