"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 11 de junho de 2011


"Coração espelhado".Fotografia de A. Brito. Disponível em http://janamenegaz.zip.net/

Quando eu me apaixonar por mim de novo
vou descobrir que digo coisas de modo engraçado
que somente eu ainda uso determinada peça de roupa
e que algumas contradições do meu jeito confundem as pessoas.
Vou observar o detalhe da minha pele
meu jeito de conduzir ao dançar
que quase nunca mostro meus pés
que quase nunca solto meus cabelos
que talvez nem precise de regime
e que minhas mãos possuem
belos dedos longos.
Verificarei que minha voz rouca pela manhã é perfeita para um telefonema,
que meus sapatos masculinos causam curiosidade
que eu pareço ignorar que posso ser bela
e que mais alguém acha legal meu rosto sem maquiagem.
Redescobrirei meu encanto de ser descolada
deixando a bolsa pelo chão,
ouvindo músicas desconhecidas
e lendo coisas sem razão.
Quando eu me apaixonar por mim de novo
surtirão efeito as frases de efeito e as perfeitas madrugadas
o percorrer de mãos em degredo sentindo sem medo a paixão compartilhada.
Serei surpreendida cantando pra mim mesma
uma canção que fale de amor e de detalhes conjunturais.
Quando eu voltar a me apaixonar por mim mesma
 - e esse dia vem -
é por que fui capaz
de me encantar de novo por alguém.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Uma dose desse doce?
Delícia na seara dos sentidos
serenamente entorpecidos
por açúcares diversos?
Abandonar-se nesses versos até o desleixo?
se com a língua afiada me pedes...
eu deixo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O açoite
da solidão
não me amarga:
toda a noite
sonhos,
beijinhos,
suspiros
bem casados...

jujuba, pipoca doce,
latas e latas
de leite condensado!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

presença russa que me atiça e aguça

Ele entra sorrateiro nesta sala de jantar
e assiste ao que faço
eu em minha contorção
fica em silêncio e eu não creio
que não tenha o que falar
é bem real mas bem parece uma alucinação.

Do outro lado do planeta pisca em verde imenso mapa
e é dali que espiaria toda minha exposição
será que um dia conheceu-me? deu-me beijo? deu-me tapa?
por que viria com frequência, dia sim, semana não?

Sua presença me intriga mas não posso ser direta
pois não tenho em mãos os meios de inquiri-lo de uma vez
virá só pelas palavras ou virá pela poeta?
o que busca, insanidade ou restos de lucidez? 

Sempre que miro o painel, quando acesso esse espaço
vejo e ardem-me perguntas doloridas num soluço
quem me espia enquanto a lama destas palavras eu fuço?
acabemos com esse drama,
quem és tu, calado russo?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

sem açúcar

O moreninho quer me deixar louca:
me oferece a boca
a voz rouca
depois se entoca, se esconde, some...
ah homem... não tem mais graça!
Eu espero mas não regressa,
eu tenho pressa
e você nessa de me pregar peça,
de me fazer troça  com essa cara mansa
e de me botar passa de correr atrás?

Sei, bem sei, fruta passa é mais doce
- mas não quero mais!

domingo, 15 de maio de 2011

re caída

Hoje chove. Um dia o vi sorrindo e parecia hoje. Sorri também, meio pelo leve do coração, meio pela erva. Era rosa aquele ócio em que caímos. Você, todo lobo, enredou-me num lençol já gasto e fui teu pasto mais uma vez. Nem me lembro como terminou aquela noite.
Hoje chove. Um dia o vi chorando e parecia hoje. Chorei também, meio por vergonha, meio por culpa. Era amarela a vergonha, você disse. Eu, toda Alice, queria mais era um abraço, sentir teu laço de perdão que ainda arde. Nem me lembro como terminou aquela tarde...
Hoje chove. Um dia, eu o quis, tu me quisestes, foi delírio aquele dia, e parecia hoje. Depois corremos nos dias repetidos. Solidão morta por dois no exílio: o vinho era a saliva e parecia hoje. A vida era tão viva, e parecia hoje...

Hoje chove e não encontro o porto. Tento em vão preencher nosso quarto com meu corpo, mas grita-me a vida, ardida, dividida.
Hoje choro,
porque chove
e você é morto.   

quinta-feira, 12 de maio de 2011

pra renascer

ainda que o dia nasça
sem me pedir permissão
ainda que a vida siga
sem sentido nem perdão

ainda que você não venha
ainda que essa chuva caia
ainda que razão não tenha
a cor com que o sol se ponha

querer eu quero esse braço
seu abraço sem paixão
que a minha parte eu faço:
dinamite e explosão
- nos escombros eu renasço.

sábado, 7 de maio de 2011

dia das mães

vocês vieram
em bando
e eu fui sem querer
Quando percebi
ato após ato
já éramos quatro.
Surpreendida, ainda
eu até acho a vida mais linda
não é que eu também sou mãe?
Pensar que a culpa toda é de vocês
que vieram em bando
e eu fui.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Pescaria*

Pareço perdendo
prazeres pensados na penumbra.
Espreitam-me, expandem-se
constelações
e braços.

* num rio-poema de Agnaldo Martins