"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Corrosão autopiedosa


No fundo da cama,
Deposito o corpo
Cabelos novos
E alma alguma.

Espero as horas.
Não há plano
sob a miragem.

O juiz não se pronunciou.
Não houve convocação.
O carro não foi vendido.
Nenhuma decisão tomada sobre o Natal.

Através do pano
pelo qual revisto a vida
é toda a cor roída
feito fenda na trama.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

mais um de Alice


Joana era só cama,
Luzia cantava e lia,
Rosário me fez de otário,
E Daniela pensava mais nela.
Lorena me amou por pena,
Thaís me fez bem feliz,
Natália era apenas falha,
E Judite, só um palpite.
Roberta era morte certa
Luísa não me precisa
Simone errava meu nome
E com Aline, rendi um cine.
Miranda era muito branda
Carina preferiu Marina
e Andressa...
essa ainda me assombra!

Memória de agenda velha,
e o espírito nem cora...
mal me lembro dessa Adélia
essa Solange, essa Dora...
Ainda bem que se esquece!
E hoje somente Alice
me apetece.

sábado, 20 de novembro de 2010

terror amoroso

uma mulher de burca
- você e seu silêncio -
me ignora
e nega a fúria de lábios e mãos
que explodiu
o mercado de sonhos
ferindo-me duplamente

creme, açúcar
e desprezo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

história de uma viagem

que dor é essa
que se esconde sob a pele
disfarça-se de sorriso
e sorrateira
derruba-me 
certeira
com somente uma pancada?

quem sou nestas horas
de riso angustiado -
gargalhada envelope
cobrindo carta anônima e muda?

não me reconheço na manhã mais linda
na hora infinda
de novos poemas
não me reconheço nas palavras de amigos
nos livros antigos
nas coisas pequenas

chove
sob a ensolarada e decidida
que decide pela vida.
subcutânea,
sobrevive a furiosa
louca que grita o desespero
órbitas vermelhas
gutural expressão do horror


 - depois do embate das gêmeas
reparo os pedaços da fêmea
sob olhar inclemente de culpa -


portar no mundo um teto-corpo
abalado pela convivência passional
de vida e morte...

seria sorte?


.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Agradeço

A quem generosamente incluiu um poema meu no quadro de entrada da Feira Literária do SESC RR.

Com leitores assim, a escrita se torna um exercício de musculação do ego...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Anversos

meus trezentos eus
vivos dispersos
imersos em si
soltos à espera
de nova rodada
da esfera habitada
...
despalavro-me
despetalada

domingo, 31 de outubro de 2010

Re-passando

Sentou-se pacientemente.
Devagar, sem pressa, passou e repassou o mesmo filme.
Também o tempo passava, impassível:
Passaram por ele a sombra do sol, um dia inteiro e uma noite mais, enquanto diante de si via repetida a história, cena a cena.
Passaram lágrimas por suas faces
e sorrisos por suas memórias.

O relógio da sala
barulhento e insistente
reforçava a ideia de que apenas uma certeza
não passaria:
reviveria tudo
como num filme
de novo
de novo
de novo
de novo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

o que se perde

ficou sem comparsa
meio que sem querer
ele desistiu do crime

dispersa
ansiosa e com medo
calou-se em degredo
o sol quedando-se quieto sobre a pele nua
e um mar salgado correndo pelas faces rubras:

reinventar-se por completo
tornou-se o desafio mais urgente

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

sobrevida

esse rio amazonas contido no peito
silêncio amadurecido,
palavra fedendo a guardado

sangro toda
em conta-letras
quando ouço irromper esse suspiro
e a distância eterna anunciada
no ar que nos falta

domingo, 26 de setembro de 2010

Domingo

arrasta a sandália até a feira
volta sacolas, sacolas, calor.
roupa na máquina
roupa pro varal
depois passar roupa, passar calor
prepara peixe
serve no vapor
vapor da face
calor
calor
lava o lavabo
seca a garganta
cala-se em calor, calor, calor.
inventa sucos
e sobremesas
recebe os pares
debate a sorte
cola frases
ignora cansaços
o dia cai
e ainda
há que se fazer provas
há que se corrigir coisas
é noite
mosquitos zunem a vida que não atrasa
quando tudo já parece morno
ferve nela
a segunda-feira.