"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Poema de primavera
Quando venta
e o vento traz assim, de longe
uma palavra tua, doce irmã,
eu, que ao amor respeito,
suspeito que entre nós ele é espada de são jorge
é espada de iansã,
é lança de ogum:
raízes fincadas, parece seco mas resiste vivo
no peito, na pele, na cabeça...
transformado
se espalhou à beça
e espera, espreita
um encontro ou dois
um par de noites
um samba, um bolero
um brega
para atiçar depois
sob o açoite do desejo
renovada entrega.
talvez seja isso,
basta um morno e úmido beijo
pra irromper, de novo, um verde broto
amor maroto de quilate raro:
fruto maduro
dentro de nós.
sábado, 17 de setembro de 2016
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Canto aos ignorantes
eu confundo cansaço e tristeza
e sei que isso é falta de madureza
emocional da minha parte
é por isso que faço arte
eu tenho ressaca
de trabalho, de açúcar, de sexo e de sono
por isso à observação silenciosa
por vezes me abandono
eu tenho amor por quem comigo anda
pois não sei ser falsa
e agir conforme toca a banda
só sei viver com paixão meu dia-a-dia
por isso sou professora
e escrevo poesia.
e sei que isso é falta de madureza
emocional da minha parte
é por isso que faço arte
eu tenho ressaca
de trabalho, de açúcar, de sexo e de sono
por isso à observação silenciosa
por vezes me abandono
eu tenho amor por quem comigo anda
pois não sei ser falsa
e agir conforme toca a banda
só sei viver com paixão meu dia-a-dia
por isso sou professora
e escrevo poesia.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
![]() |
| Cena do clássico Rock Horror Show. |
bizarra não sou eu,
bizarro
é seu espanto
homem branco
cara pálida,
não é incrível que dominando tanta
parafernália
você ainda creia que minha roupa
tem de ser ditada pela minha genitália?
você pergunta, eu te digo
que "tipo de humano" eu sou:
tipo homo sapiens
modelo único, sabes, doutor?
se você não percebeu
a minha humanidade
se na sua idade não entendeu
que assim como sua mãe
eu choro, rio, amo e odeio
acredite, você faz feio...
sim senhor, doutor, eu sinto
pense, o que me impediria?
o fato de ser fêmea com pinto?
não fosse trágico e eu gargalharia...
mas sei o que você temeu,
que a bizarria te atingisse
só que a bizarra não sou eu
é a sua cretinice,
por isso eu canto, doutor,
bizarro foi o espanto
que hoje te acometeu
porque ser humano, doutor,
é algo tão seu quanto meu.
sábado, 20 de agosto de 2016
Descolorido
esse poema
queria ter a cor da morte
que acampou no quintal
há exatos quinze dias
e está levando com tanta dor
há mais de vinte horas
a pequena adotada a menos de três meses.
ele também queria ter a cor da alegria
da filha aprovada na última disciplina
a filha, sentada feito o pai
a filha, falando de sua pesquisa.
ele queria ter a cor do cansaço
e da sensação de dever comprido
cumprido
no final de mais um seminário
mas ele mal se resume à cor
dessa taça
rubro
como meu peito diante da vida
como meu peito
aberto feito uma cova
diante da vida.
sábado, 13 de agosto de 2016
Book de namorados
em fotografias a grafia dos afetos
sorrisos e gestos,
amorosos afagos
do pretendido congelamento:
fatalmente nos fere
desfaz o feitiço
amofina o amor
quem se afirma
na força dos fatos
é o fastio,
e as fotos
essas fotos
atestam, ferinas,
toda a ferocidade
da nossa falência.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
![]() |
| keelinggallery.com |
"Flutuar suspende as dores..." Siba
O céu vai estar azul
mesmo que chova
e o ar fará resplandecer cada osso
haverá curas
e não me ferirá a maldade pretendida
por quem já me inferiu prejuízo e exige reparo
ponho o ar para dentro como quem bebe um remédio
ponho o ar para dentro, como quem quer engolir o mundo
e se aquietar engrandecido, integrado, completo
ponho o ar para dentro, em cada célula, em cada gota do que sou
ponho o ar para dentro, cheio de perdão
para anular a culpa pela incapacidade de olhar adiante
ponho o ar para dentro
no instante pleno
e por dentro
ponho-me no ar.
Respiro e confio
será assim
quando sorrisos voltarem a nascer
no terreno do meu coração.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
Abominação*
Tatouage. Jean Chaîney.
In: http://ohbythewayblog.blogspot.com.br/2011/07/beauty-art_4959.html
Somos peritos em sobrevivência
pretos, pobres, putas
travecas, viados, machudas
transitamos perigosamente livres
convertidos num risco
pra você que não muda,
que não tem dúvida,
pra você que vive de bom grado o roteiro pronto
e fica até meio tonto
de ver como reafirmamos
nas linhas tortas da marginalização
a nossa existência e orgulho
nossa resistência contra sua humilhação.
Para seu "mundo perfeito"
que conserva o patriarcado capitalista
e tanta violência, e tanta intolerância
com exploração, ódio e incompreensão mandando na pista
somos e queremos ser perigosos
nossos sexos livres se levantam
contra seus nexos belicosos
afetos, afeitos e afoitos, nos movem
dominam pele, rim, estômago e coração
amamo-nos com pureza de corpo
e nesse seu 'mundo perfeito'
o que nos parece perfeito
é ser abominação.
*Para Tatiana Lionço, com amor.
*Para Tatiana Lionço, com amor.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Triste crônica da nossa derrota em Vitória.
Eu não queria escrever esse texto que lê em nossos corpos essa culpa antiquissimamente plantada, nosso direito de simplesmente ser, abortado.
No dia em que livre e deliberadamente decidimos que não íamos cumprir, por algumas horas, as tarefas pre-estabelecidas para a manhã ,eu queria falar das nossas escolhas, do nosso livre passear, das descobertas pelas ruas de Vitória, da arte nas paredes e dentro de nós. Da nossa decisão de seguir à esquerda, para o Lago Azul e deixar o Mirador da Floresta, à direita, pra depois.
Nem era tudo alegria o que eu queria. Eu queria escrever um poema sobre o absurdo de extinguir onças para construir onças de pedra. Falar dos micos se equilibrando nos fios de eletricidade. Queria falar da felicidade daquele exercício de autonomia e liberdade ao qual estávamos entregues, com meu peito arfando, cansado e consciente da respiração, na subida do morro.
Mas surgiram homens. Primeiro um, parado, nos mirando. Depois outro. E outro. E nos tomou a lembrança, a sombra assustadora dos corpos femininos dilacerados, das vidas destruídas, dos montes de vítimas no rastro violento de homens e homens e homens que subjugam mulheres por serem mulheres.
E silenciosamente nos vimos, as três, em pânico. E saímos dali, o mais rápido que pudemos, lamentando a liberdade que não temos somente porque somos mulheres.
Para Evelly e Elen, que comigo fugiram da Gruta da Onça
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