"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Louboutin

Um salto, claro,
para um momento raro:
deu a si o presente tão caro
e, tomada de ânsia e perdão,
pisou com os dentes e engoliu
o próprio coração.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

no fim não sabia
por quanto tempo estivera
na estrada vermelha
cobrindo-se de sol e poeira.

descobriu-se caído
aprisionado
pés rasgados sobre o pedregulho,
desgrenhado, faminto...
completamente vazio
de fé ou orgulho.

entretecido de couro e barro
mirou-se lentamente
a pele vincada como os sulcos no chão
os olhos noturnos em brasa
nenhuma brisa no pulmão

intentou erguer-se
mas com a rigidez de mil laços
as curvas da estrada impuseram-se
imperiosas
à sua coluna, suas pernas, seus braços.

e não há nada
que dele se revele
pois ali, sozinho
de caminhante
tornou-se caminho.



Sobre uma pergunta feita à Nina.*



Nem precisa responder
que eu entendo,
cada nota
cada lágrima
essa sensação
de que era completa
e infinda
a escravidão.

Entendo o cansaço
e a irritação
entendo inclusive a fuga
para a Libéria
sem filha, sem perdão
numa sobrevida
que certamente
poucos entenderão.

O que se fez das meninas?
Fomos de fato felizes,
o quê nos aconteceu, Miss Nina?

Desculpe, miss,
mas eu minto...
não entendo não!
eu apenas sinto
em cada poro,
desse corpo por horas prostrado no chão
completamente minhas
as dores da sua canção.

"*What happened, miss Simone?"

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Guerra e paz

Quando a noite se agiganta e nina o mundo
Com silêncio escuro espesso e calma e paz
Eis que o monstro manifesta seu profundo
Interesse em consumir tudo e o que mais:

Se faz lava e lava o rosto e o travesseiro
Se faz neve e cobre tudo ao meu redor
Cala o sono, a cor, o verbo, o amor inteiro
Me sufoca, estripa e grita, vencedor.

Todo dia o sol vem ver se teve termo
Essa luta cansativa e renovada
Ilumina cada canto desse ermo
Me revela a carne viva e destroçada.

O relógio se atrasou à minha espera
Fico vendo seu bater descompassado
Ele assiste e eu alimento a besta fera
Que inerme e monstruosa vive ao lado...

A enveneno pra recuperar a fome
E com ela, nos abismos me atiro
Ela ataca tudo aquilo que tem nome
E é por isso que a combato, ataco, firo.

Eu não sei o que será, se haverá trégua
Nessa luta estendida noite e dia
Meu descanso é transformar-me em rara égua
E, com asas, trotar sobre a poesia.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Do Birdman em mim.

Olha
as ervas daninhas tomam quase tudo
a nova cova da cachorra velha
se pronuncia sob a aceroleira
você lança seus crivos
as roupas jogadas sobre a cama
a secura das folhas da roseira
há essa poeira espessa sobre os livros
uma das samambaias está mais linda do que nunca
e nenhuma mini-margarida se anuncia desabrochada.

Da casa não paga
distante, sobre a serra
notícias de um gato morto
da madeira empesteada.

O sol volta, claro,
ignorando a tudo
o mundo segue seu curso
como você sabe que é e que será.

Pode verter esse mar dos olhos
pode liberar o mar vermelho dos pulsos
podes tudo, "inclusive nada"
simplesmente esconder-se no quarto escuro
ao som do ventilador que move o ar:
o ar
seguirá seu curso,
impassível.

E embora e porquê não sinta nada
você sabe profundamente
que tudo, tudo, tudo
é desprovido de sentido
e que de nada adianta
ficar repassando esse texto
porque a peça deveria ser outra
e antes da estreia fatal
não há nem haverá expectador
além de você
para esse ensaio
de ausência.



sábado, 18 de julho de 2015

"Quero me encontrar mas não sei onde estou..." 
 "Acho que entendo o que você quis me dizer, mas existem outras coisas, consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade..."
"... sempre existe uma luz, mas não me diga isso!"

Ando nessa noite à tua procura
em promessas e jejum
busco tua luz que tudo incendeia e cura
tua força que me conduz certeira
pra lugar nenhum.

Resfria o couro no aço
derrama-se
vermelha cobrindo esse gelo
escorre lentamente as asas
penetra o esgotamento dessa ausência
e volta!

Pisa devagar nessas brasas
afere
o calor da alma
bate bate bate bate
lentamente acende uma fogueira
faz-se tocha a consumir-se sob o sol.

Ando nessa noite à tua procura
com tudo, tudo, tudo o que sou
meu sexo úmido minha poesia tosca
e a droga da vida.

Volta.

domingo, 28 de junho de 2015

Há tarefas que se misturam
na queda da tarde de domingo
o bem-te-vi segue roubando a ração das cachorras
o céu está azul e a pilha de trabalhos se eleva ao meu lado
e eu penso que tanto azul não cabe em mim meu deus!
e essa terra toda e essas flores todas
esse domingo inteiro que me implode
nesse olhar pra dentro que impávido e certeiro
se despeja destruindo cada gota de esperança
sigo
dando por dissecado,
cada passo.

Não se restauram em mim os tendões partidos
algo perdido longe longe longe...
meu deus sabe onde, meu deus!?

E não foi vinho nem cachaça
não foi lua nem desgraça
não foi rua acesa, nem ferida aberta
não há explicação pra essa lágrima presa
pra essa alma completamente deserta.

Morre o domingo lentamente
e é esse puro azul quem me arrasa.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Carta pra mim²

Completa, com Flávia, durante o Sarau da Máfia do Verso,
Sesc Amazônia das Artes
















não

nem "otária" nem "bestinha"
nada disso, não.

- isso é coisa de gente comezinha
coisa de gente tão gentinha...
só se afaste!

olha a haste erguida
da generosidade
empenho, entrega
coisa de gente de verdade
não te nega
é coisa tua.

esquece a rede, a rua,
busca no recôndito do teu peito
nas entranhas da memória
nas nesgas cavadas em tua pele pelo tempo
no fundo dos olhos fechados

porque é ali que arde,
selvagem e inquieta
a arte de ser você
completa.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

No médico.

Te explico
eu mesma diagnostico
essas dores
que ando sentindo:

Ultimamente,
entre o céu e o nada
nada me anda
e eu parada
ando verde,
presa,
incomunicada...

muito
muito só.

terça-feira, 19 de maio de 2015

quando você não vier
farei festa com o que tiver
se for de comer eu como
se for de beber eu bebo
se for de dançar eu danço
não vou me acanhar amor
quando você não vier
ainda não farei silêncio
se for de gritar eu grito
e se preciso eu sussurro
se for de afagar, afago
se for de lutar esmurro
vento, tempo, luz, calor
livro, TV, bola, balé
qualquer coisa vai valer
quando você não vier