"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



domingo, 26 de setembro de 2010

Domingo

arrasta a sandália até a feira
volta sacolas, sacolas, calor.
roupa na máquina
roupa pro varal
depois passar roupa, passar calor
prepara peixe
serve no vapor
vapor da face
calor
calor
lava o lavabo
seca a garganta
cala-se em calor, calor, calor.
inventa sucos
e sobremesas
recebe os pares
debate a sorte
cola frases
ignora cansaços
o dia cai
e ainda
há que se fazer provas
há que se corrigir coisas
é noite
mosquitos zunem a vida que não atrasa
quando tudo já parece morno
ferve nela
a segunda-feira.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Contrariado


Quando sonhou desgosto
Agosto era
Nem percebeu que o medo era o gosto que lhe ardia.

Depois,
descompostura no seio
da aurora:
Amanheceu silêncios e esporas

Agora verte-se
E o corpo trêmulo
por frio e fúria
flutua.

Secos olhos
E dores inaudíveis

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Desencontros

quando a bela
adormecida
no banco de trás
teve que descer
esqueceu o sapatinho.

voltei pra devolver
mas ninguém havia
além de cães falastrões
e um vento forte.

desolado deixei
seu par de sapatos
na caixa de correspondência.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

De Rebeca, Clarisse e Helena

Dezenove vezes
trezentos e sessenta e cinco.

Vidas trançadas
e o susto:
tango-tragédia,
trabalho triplo.

Torceram-se os dias
em tripla traquinagem,
tripla travessura.

Dezenove vezes
trezentos e sessenta e cinco:
agora me estripa
a falta que o trio me faz.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Eras

Foi vento na cara
passeio de bicicleta
espuma e banheira
cheiro de café
tarde de chuva na sexta
cesta cheinha de doce
acordar de pesadelo
gato caçando novelo.

Foi flor roubada à noitinha
fim feliz de campeonato
sonzinho de passarinho
surpresa, sorte, e por dentro
turbilhão de coisa nova.

Era um cavalo marinho
e amanheceu ao meu lado.
lentamente
lavro todo um livro

lanhada e lúcida
a louca
lança-se livre

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Faceira

Eu tenho trezentas faces:
face ao mundo
faço que sou,
faço que não sou,
disfarço bem.

Quando me refaço
fotografo
pra mostrar depois.

(o inferno é não crer em nada
e não saber o que vai embaixo
de toda essa carcaça transformada!)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Dor e distância

É dolorido o degredo
de quem mais quero comigo:
Falta-me o melhor leitor,
minha inspiração primeira
paixão que me acende a vida
o melhor amigo,
o maior amigo...

Centro de mim,
quase meu umbigo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

outros cenários

Beijo morno.
Unido e úmido,
meu corpo lateja
em amazônico desejo.
(...)
Suaves
feito aves,
voam
no céu da boca
as palavras
que não dizes
no ouvido
dessa louca.
(...)
Lampejo de idéia morta:
só saudade que bate à porta.