"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 6 de março de 2021

Revolução é mulher!


(eu, no colo da minha mãe, guardadas por Iemanjá, salve salve o feminino ancestral!)


Você concorda, decerto
que o mundo precisa de conserto, não é?
Pois bora prum papo aberto?

Se quiser você pode
fazer do café seu perfume matinal
pode ou não cuidar das plantas no quintal...
mas se quiser também pode 
não saber cozinhar um ovo.
Esqueça a voz do povo!
Você pode querer ter filhos
ou não
pode sonhar ser engenheira espacial
e ser! Aqui ou no Japão.
Você pode dirigir um carro de fórmula 1
lutar MMA, pesquisar fauna marinha e viver a mergulhar
ou adotar gatos, escrever poesia e decidir que 
o melhor pra você é simplesmente consigo estar. 
Ah, também pode decidir tudo e depois
simplesmente mudar.
A liberdade de ser é o melhor presente
que podemos nos dar.

Então seja, mulher
seja bela sendo a luz que a ti revela
você pode ser gorda, alta, negra, baixa, velha, branca, 
nova, indígena, magricela ou malhada
ter a pele sobrando, em dobras, ou esticada
limpa como veio ao mundo
ou toda tatuada,
os cabelos lisos ou caindo em cachos
ou não ter cabelos! 
você pode tudo, ouça seus apelos
o que eu penso e acho 
é que é muito tonto quem tenta 
não reconhecer que ser mulher, agora e aqui
independe de qualquer condição
não tem receita,
somos tantas e diversas, trans, cis e travestis
todas donas dessa energia...

Feminina é a força que move
a revolução que esse mundo requer. 
E ela virá, da nossa força em sermos quem somos
dentre tanta coisas
a revolução que o mundo precisa
será feita pela mulher. 


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021


Talvez eu esteja falando sozinha
talvez seja minha e só minha essa angústia, essa dor
carnaval passou, foi? eu nem vi
coração no peito dando seu jeito de seguir
e a pele cansada meio amolecida e o ouvido pedindo
pra não ouvir
tanta notícia e desencarne e sofrimento
e prejuízo e mentira e engano 
tanta história desprezada entra ano e sai ano
e o povo
sem vacina e sem pudor
sorrindo por se vingar no BBB
eu no bolo
do povo
porque aqui fora, 
nada, nada, nada
e nada de novo
cada um escolhendo o algoz da vez...
 
Fui pra dentro de mim e a paz ali estava sozinha
eu queria mais e mais não tinha
por isso hoje saí pra reclamar 
Estou indignada, estou indignada!
mas nem se incomode, deixe estar
que tudo passa e essa minha raiva
fazendo pirraça
também vai passar. 


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Despedida

Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY-ND


Era um tornado
O seu sorriso
Uma tempestade de areia
A alegria
Que a tudo cobria
Quando conosco você
Estava.

Que delícia era a ventania
Dos teus conhecimentos
Varrendo ignorância
e de um jeito muito próprio 
defendendo direitos...

Nesse deságue de agora
te digo que foi um furacão 
a notícia da vitória do vírus
que transformou a materialidade
do que você era
em brisa
certamente sentida
e inesquecível.


*Ao professor Marcos Braga, falecido ontem por COVID 19.

domingo, 22 de novembro de 2020

"Acredite nos seus sonhos"

Jogos Infantis, 1942. Dorothea Tanning*

Quando eu era bem menina

Guardei, em silêncio, um sonho

Não contei a meus pais,

Não contei a meus irmãos

Tomei-o em minhas mãos

E o mantive bem guardado.


Quando resolvi comer

O creme tinha mofado.


* Minha artista preferida do Surrealismo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Desabafo

Edvard Munch, Ansiedade, 1894.

É dor tanta, e saudade, e vontade frustrada 
a poesia sufocada, o coração estreito
no ar que não entra direito no peito

fogo rasteiro destruindo ninho
destruindo sonho, des-tru-in-do caminho
de cooperação e fé e unidade e luta
é sempre o mesmo signo regendo esse bando 
coisa imunda de dinheiro e sucesso e corrida e disputa
e farinha pouca meu pirão primeiro
não vem o meteoro e é tanto biscoiteiro 
e tanta raiva escorrendo pra dentro, silenciosa
é tanta amargura e postura desonrosa
é inveja e maldade que escorre da boca 
de quem erroneamente se pensava amigo...
em vão mitigo com o amor que em mim há
o ódio plantado, que se espalha daninho
mas é nota alta que minha voz não alcança.

E sei que lá vem
o zé mané me dizer que não, que é mimimi que é nhennhennhén
que todo engano tem seu motivo, "deixa pra lá que tu vive bem"
e eu ouvindo o grito seco que não sai
mas por dentro ecoa estourando tímpano, 
destruindo o sono
e é abandono o sentimento que vem no meio da tarde
com esse cheiro de veneno no ar
literalmente o cheiro de veneno no ar
"senhora, não podemos fazer nada se a senhora não puder localizar"
e saber do mercúrio na água e das travestis atacadas na noite passada,
sentir o ardor e o lacrimejar
e agradecer severinamente, 
pois só levaram o celular. 

é dor tanta, e saudade, e frustração...
tem poesia sufocada nesse coração estreito mas 
diante de tanto mal que se agiganta
só consigo gritar a tempestade de água e sal 
empedrada na minha garganta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A cara do vento bate na minha cara


Sino do vento da porta da frente.
 Imagem, elimacuxi.



o dia mal aclara
e a cara do vento, descaradamente fofoqueira
convida as folhas prum leva-e-traz,
passeia levantando seus fãs na poeira
irritando narizes, 
cerrando olhos, removendo quipás
com seu chicote e suas cicatrizes.

A cara do vento é meio mãe, meio capataz.

A cara do vento escancarou o dia
disputando com o sol a manhã modorrenta
acordou os capazes de ouvir a poesia 
que em suas costas carrega e sustenta
em pétala e sangue, me trouxe notícias,
de quem, pelo mundo, a vida aferventa.

A cara do vento rompeu num aviso:
se derrubou pontes ou ergueu marés,
se destelhou casas, derrubou granizo
e se rompeu a carne presa nas galés
tudo era passado, no agora presente
estava disposta a novo julgamento - 
faz cantar o sino da porta da frente
em perdão contínuo de contentamento.

E como a verdade que se escancara 
é que meu juízo à natureza não altera
a cara do vento deu na minha cara
suave e certeira,
como uma quimera. 






sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Ordem e Progresso

Se eu gosto do Brasil?
ah, depende, meu irmão...
se Brasil é esse povo
que apostou mal de novo
votando no "capitão" 
que por mais de trinta anos
explorou nossa nação
ou se o Brasil é essa gente
que calada e conivente  
permitiu sua ascensão 
a minha a resposta é não. 

Se o Brasil é o campo em chama
o desmatamento e a poluição 
dos rios pelo mercúrio 
do garimpo e da invasão 
pelo boi e pela soja
provocando da riqueza
ainda mais concentração
minha resposta é não.

Como gostar do Brasil,
me responda meu irmão
do Brasil que não usa máscara
pra evitar contaminação
mas que é mascarado na origem
fingindo ser coração, 
defendendo assassinato
e se dizendo cristão?

Se o Brasil é o aleijão
que está dançando na pista
com a pele moqueada 
e fazendo piada racista
zombando de Mariele
e de Maria da Penha
ah, por favor meu irmão, 
perguntou, agora venha!
se é o que se acha importante
"cidadão não, engenheiro"
o que crê que tudo pode
porque tem algum dinheiro
ah meu amigo, não fode
que que é isso, companheiro?

Eu que estudei na história
toda uma reputação
de um povo que resistia
e que bem reconhecia
de onde vinha a opressão
como vou comemorar ilusão de independência?
Com jovens irão pagar
envelhecer e morrer 
sem contar com previdência?
Se o Estado vai seguir
tomando tudo em imposto 
e comemorando as mortes 
de quem colhe o sol no rosto
pra trabalhar todo dia  
sem saúde ou educação? 

Se eu gosto do Brasil?
ah, depende meu irmão
se for disso que tá aí
a minha resposta é não. 


terça-feira, 18 de agosto de 2020

"Quando a indesejada das gentes chegar..."*

MUNCH, Edvard. No leito da morte. 1895. Óleo sobre tela. 


Não, minha senhora 
eu não sou como era outrora,
quando eu corria muito pra chegar em primeiro
trocava fácil pelo trabalho, o travesseiro
respirava em stacato
ia pra festa mesmo cansada e apertando o sapato
me preocupava com a cor da moda
e em sentido lato
queria ser a que não incomoda.

Eu não tenho mais tanta energia
pra levantar cedo, iniciar o dia
tomando água com limão por brigar com a barriga
e aceitar o sim e o não de quem, para mim, nem liga.
Não tenho mais força para ver 
banhados num discurso que ordena que eu me informe
sufocados pela rotina de noticiários baratos 
a beleza e potência dos meus talentos natos,
não consigo mais manter a consciência disforme
que determina: "se atenha à realidade dos fatos"
e os meus sonhos e desejos, estrangula
e o melhor de mim, em mim, anula.

Eu não tenho mais força para competir com os irmãos
mover céus e terras e fundos e pernas e braços e mãos 
em benefício do que rezam os mais antigos sermões
nessa disputa em que ganham apenas e só os patrões.

Não minha senhora,
eu realmente não sou como era outrora
e há tempos, nessa vida
não tenho mais
nenhuma vida pra jogar fora.
 

*Verso do poema Consoada, de Manuel Bandeira.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Carta de amor*


não
nem o meu nem o seu peito
são de aço
podemos fingir por uns minutos
mas o traço
dos dias nessa história de pandemia
eliminou à força o que já nos foi paço.

despedidas sempre foram
temperadas de tristeza
mesmo aquelas mais felizes
em que quem parte a longo prazo,
vai buscar diretrizes pra vida
se encher de beleza.

como já foi, mas não é agora, o nosso caso.

sei que nós nunca nos assustamos com a distância
porque moramos perto e dentro, numa aliança
que não se desfaz por viagem, nem mudança.

mas não
nem o seu nem o meu peito
são de aço
e estamos sem socorro
silêncio e embaraço
desde ontem me explodem na garganta e na cabeça.

- é que você sofre e eu estou que morro
essa carta é o caminho que invento e percorro
pra fazer que nosso abraço, impossível, aconteça.


Para o meu vizinho, entre tantas outras coisas que ele me é, Roberto Mibielli. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Balanço dos 47

Mulher na frente do Sol. Juan Miró, 1950.
Pandemia e afasia.
Cansaço crônico.
Medos e enfermidades diversas
as ansiedades e dores que não cessam.

A pele dividida
não sabendo se quer vincar,
ressecar, esticar até rachar
ou sobrar em pelancas
exagera e toma as três formas
em diferentes espaços do corpo.
O corpo
companheiro alquebrado do processo
chamado vida
elabora saídas inteligentes
para seguir inteiro.

Ensinei à mente que o tempo perdido não volta,
é lição sabida.
Oleira de mim
moldo contínua e incansavelmente
o ego/barro
para que abra mão da razão
para que se quebre e vá
e deixe ir.

Leve
o espírito quer unir-se cada vez mais
ao que é belo, eterno e positivo
a amizade, o amor, a saúde e a paz
do eterno devir.

Ando cultivando sinceras curiosidades
há quem por mim, mais que eu,
nesse momento, zele?
porque o sapo se enterra?
qual é o tempo da pitanga?
quem mandou matar Mariele?

Sigo
descobrindo com prazer o que não procurei
que cor toma a pétala no quarto dia do florescer?
se provocada, devo mesmo responder?
são mesmo horríveis todas as coisas que até aqui repeli?
posso continuar extirpando a angela
e sendo só a Eli?

Benvindo julho que inicia o ano novo
Vem sol, vem logo ocupar minha primeira casa
seca e renova as asas
aquece e energiza cada célula
cada sentir e pensar, que nesse corpo,
são seus e meus.

E que a cada ano eu possa me descobrir mais livre
E a cada respirar eu me descubra mais Deus.