"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Choque

Venta
e a gota ínfima
tremula sobre a folha
que torra sob o sol...

é assim
de fragilidade bruta
a existência que nos ilude
infinita de possibilidade e brilho.

Ela cai
num átimo some no chão:
nem sinal.

e não há silêncio:
é um zumbido louco que me ataca
cega, ensurdece, aniquila
faz chorar...
sempre choca
a lembrança incômoda de que o fim
sim,
pode estar em qualquer lugar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Impossível silêncio

Ah, se em algum canto brilhasse
Aquela estrela acesa
E o olhar congelado entre o caçador e presa
fosse um destino manifesto
pondo um instante suspenso no ar
tão denso e intenso
que se pudesse tocar...

Desatando nós, reinaugurava o colchão
Pintava campos de me perder
Bebia ondas de me afogar
Frágil e sem mágoas, fácil,feliz
embalada na rede da tua voz
simplesmente voltava a te amar.

Pudesse eu, e eu juro
perdia de novo a respiração
botava de novo o coração na boca
deixava a suavidade do alto do muro
me estatelava 
me punha no chão...

Se eu pudesse reinventar
Essa música que soube de cor
Seu eu sentisse com surpresa
Na xícara, o gosto do resto...

Mas na ocasião
esse tresloucado gesto,
eu não posso não.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Olha
há ali mãos engrossadas pela terra
braços e pernas marcados
por limoeiros e roseiras

há ali uma respiração lenta
alimentando um corpo
de quem já pariu quem devia
de quem já fez quitutes e festas
de quem já regeu uma orquestra
e hoje habita uma casa vazia.

olha
como foi que se instalou ali
no peito asfaltado
essa agricultora
rosto por sol vincado
cabelo que não denuncia corte
sob essas roupas que, novas, parecem rotas
esperando viva,
silenciosa e resignada
a morte?

Vasculha as palavras perdidas
na colcha dos poemas
remexe as memórias, revolta a água dos temas
cria problemas imaginários,
vai a lugares terríveis
encontrar monstros humanos...
Colhe a adaga guardada
a bomba, o frasco de veneno
é hora
presenteia essa senhora
com o suspiro último.

ama, como se não houvesse danos
ama, como eras capaz há anos...
por você e pelos seus:
mata-a
e volta a viver,
pelo amor de deus.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A pele, casca de humano
reclama do ar que não se move
de modo insano.

Tuas palavras são prole incerta
estendida pelo campo
ecoando um grito
que em silêncio,
ainda me comove:

Suas viagens que já não são vertigem.

E por mais que a gente não aprove
e troque sorrisos
e minta e finja
um intacto encanto,
a verdade que nos socorre
é que todo dia, tudo morre...
nós só não sabemos
quanto.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

E se eu te deixasse
e se eu desistisse
e se eu simplesmente
me calasse e você sumisse?

Tonta de silêncios
dissimulo a ira
que você me planta
nessa vã latência:
por mais que me fira
eu me nego, cega,
a mirar os gritos
dessa tua ausência.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Hacker

Busco uma palavra
que te toque a face
mova uns fios de tua franja
e se deposite cega na firmeza dos teus lábios.

Uma palavra vírus que
estando em ti depositada
tome-lhe completamente os sentidos
deixando-lhe em febre que não se aplaca.

Quero uma palavra para lamber-te os cílios
escalavrar o mais profundo do teu desejo
e trazer à flor da neve a fúria guardada...

Busco a palavra que te destrava
para inconsequente, trazer-te ao mundo
em cada gota da tua lava.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Deus me livre

Deus me livre da calamidade
dessa vida sem vontade
vivida assim, na metade.

Deus me livre desse dia
de agonia preguiçosa que se espalha
fazendo tralha de tudo o que eu queria

Deus me livre dessa falta
de desejo
de tanto tanto faz
e desapego e silêncio
que não são paz.

Deus me livre
da indiferença diante da noite sem abraço nem beijo
dessa inconsciência de si
desse olhar colado no asfalto
embaçado num choro tão alto
que meus ouvidos não querem me ouvir...

Deus me livre
de ser livre de querer
porque o viver se perde assim.

Hoje eu peço
especialmente
que Deus
me livre de mim.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Lei da vida

O ódio escorre e se espalha
suja o chão onde se pisa
obstrui o caminho
de imprecisa navalha.

 - ninguém se engane,
tudo o que vive
falha.

não entendo o espetáculo
não compreender o horror
seria mesmo uma sorte?
fica-me a questão não respondida
o que foi, que de vencida
te feriu tão de morte
a frágil humanidade?

um sábio amigo ensinou-me:
não tem piedade, a vida
e se é só dor que se semeia
só a dor será colhida.



domingo, 16 de novembro de 2014

Provocada

Me senti no limite de
Uma dúvida imensa:
Seria um convite?
A esperança intensa...

Tensa, à noite arde uma cama vazia
Numa serenata que não se ouvia
aquecido, o peito é lembrança lenta
de um beijo morno em manhã raiada.

Aquecida a vida
Se espreguiça e chora
seria um convite ou não seria nada?
Dolorida lembro do que foi outrora
Temerosa espero,
O que virá agora?

Sinto que de dentro
Nunca me saíste
Sinto meu limite
Se desrefazendo
E antes de deixar que me nasça um palpite
Ensaio esse riso que brota doendo

Na pergunta cega: seria um convite?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Boneca que é gente*

te redeclaras
e em cada poro
se me escancara
um vulcão:

esse desejo de impor beijo e riso
a cada cara na rua...

dançando ladeira abaixo,
num sentimento preciso
de ser história e memória
faço-me parte do povo...

(seu amor redeclarado
tem cheiro de livro novo.)

*Para Talitha, minha Tatá.