"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quinta-feira, 13 de março de 2014

porque eu quis

porque era azul e não desbotava
porque foi surpresa em gesto e gosto
porque estava à espera quando eu 
desesperava
porque de juventude me cobriu o rosto
porque seguia adiante quando eu não podia
porque chorou meu pranto e riu minha alegria
porque compartilhou um átimo da vida...

porque desacatou todos meus receios
sem, contudo, meter-me freios
foi que eu o internei, sem mais rodeios 
sob o esquerdo de meus rijos seios
e que ignoro essa pergunta ardida.


Pra alegrar Francisco.

(O nego me pede um poema
não me recuso
fazer-lhe de tema, nego?
te pôr pro meu uso?
Olhe que eu abuso
e te ponho em problema...)

Mas me disse que anda triste
e o dedo em riste da vida
me comove
daí que a pergunta em mim persiste:
'bora nego, brincar de love?
plantar uma lagoa sobre o que nos magoa?
respirar sem dó o ar que enche
esse vazio?
'bora nego, prum banho de rio?
'bora entrelaçar a língua
em insidiosa prosa?
sem pensar em depois
'bora esquecer o juízo
nós dois?
invadir o paraíso
destruir a dor?
'bora nego,
brincar d'amor?


terça-feira, 11 de março de 2014

Oral

me aqueço na manhã preguiçosa
cobrindo de pele
os beijos

lábios lentos
roçando palavras
suaves, sedentos

o vento, velho libidinoso
lambe desavergonhadamente
uma cortina
e a luz penetra silenciosa
quando dispenso o trabalho da retina

pois é de puro breu
essa hora torpe que me bate
me alucina e morre à míngua
em que renasce a doce prosa
feita com a tua e a minha língua.

sexta-feira, 7 de março de 2014

De Maria e Sofia - pelo seu e nosso dia

Quero contar pra você
que me ouve ou que me lê
uma história bem antiga
mas que até hoje me instiga
e precisa ser lembrada:
É história de Maria
e de Maria Sofia
uma história de virada.

Um dia disseram à Maria
que exato por ser Maria
é que ela não poderia!
A bem mandada Maria 
ouviu essa cantoria
e seguiu ressemeando 
proposta de acinesia:

Maria disse à Maria
e a João, a Pedro e Bia
que às Marias não caberia
e a homilia se estendeu
por séculos, meses, dias:
Maria não deveria
somente por ser Maria! 

Um dia, certa Maria
filha e neta de Maria
questionou a acrasia
vinda já por tantas vias
de amigas, primas e tias.
A mal mandada Maria
julgou que não deveria,
por ser Sofia Maria,
condenada à afasia
e à eterna paralisia.

E Sofia não queria
negar em si a Maria
tampouco também queria
viver em autofagia
achava que sim, podia,
que o corpo a si lhe cabia
queria sair à rua,
voar com o vento que ia...

Com toda sua energia
pro outro lado do mundo
Sofia se transporia
e a todos gritaria
e às Marias chamaria
seu sorriso espalharia
com respeito e alegria
os direitos que exigia.

E ninguém lhes imporia 
silêncio, por medo ou cria,
aquela monofonia 
de que ela não deveria
somente por ser Maria
Maria é quem quebraria - 
Maria e Joana e Lia
E Adélia e Ana e Luzia
E Antônia e Clara e Sonía.

Esse grito de Sofia
- a mal mandada Maria - 
ecoa em mim todo dia
e exige que eu não me cale
pra que a injustiça se abale
uma certeza me guia: 
a voz de quem quer que fale
que exato por ser Maria
Maria não deveria
é machismo e hipocrisia! 

Essa história tão antiga
continua, amigo, amiga
precisando ser contada
pra que brotem e vicejem
outras Marias que almejem
nunca mais ser bem mandadas.

Se um mundo de igualdade
de amor, de liberdade 
é o mundo que nos convenha
que morra o gesto covarde
e que nasçam todo dia 
mil e uma mais Sofias 
como Maria da Penha.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Impotência


       "12 years a Slave", dirigido por Steve McQueen

quando o chicote
lambeu a pele da negra
e trovejou grito
choveu sangue
e lágrima

eu
em torpor infinito
só pude sentir vergonha
de ter nascido.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Seca

rápido, mas sem pressa
desliza feito rio
sua mão sobre o vazio

esgota os lamentos 
carrega as sombras do fracasso
e as toras de mal querer

inunda

agradecida
fendida e seca
a pele terra
vai te sorver

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Continho besta e sem razão

Depois de um trago pra Jah
Esperança não criou asas,
desesperou,
desceu correndo as escadas
tropeçando nas palavras
gritadas
amarrotadas 
por tanto, tanto tempo guardadas.

Cuidadosa e calmamente
já tinha guardado em si
trinta e dois Norpramin, 
vinte e três Cipramil 
mais um copo de açaí.

Me lembro bem de Esperança
porque ela foi a primeira
que vi morrer, em criança, 
no antigo Jardim Palmeira.  

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Banco de reserva

Quisera eu compor um poema
que falasse da minha incompreensão
diante do baile das luzes
que vêm e vão.

Quisera mostrar-me estupefata
diante do sol que me abandona
e da noite que me cobre exata.

Quisera eu escrever um poema
para exprimir esse luar
casado com tamanha solidão
mas a carne maturada me diz não!

E por baixo do sal
um velho peregrino
vem cantando um hino
que louva, disperso,
no amontoado do verso,
o Foda-se Futebol Club.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Coração verde

o sol veio de mansinho
sem violências nem raivas
e eu fui cursando o trilho
de um dia sem palavras
tudo tão distante e frio
tudo freio
e a vida à milhas

hoje eu passei o dia
regando a face com sal
olhando pros passarinhos
e achando tudo banal

eu sei que haverá um dia
que será só para isso,
pra de tudo se esquecer...
mas quando o sol já se ia
pro outro lado do mundo
hoje eu desejei profundo
esse dia de não ser!