"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 11 de maio de 2013

Ao cão na calçada
à cria abandonada
ao desespero suicida...

à mãe agredida
ao pai violento
ao filho esquecido
ao gesto sangrento

à natureza violada
à desigualdade exaltada
ao jovem e ao velho
que conservam o horror...

à cristandade corrompida
ao mundo e à atual vida
o que falta:
Amor.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Do puro mal

Vem crescendo, 
entre a carne e a rija unha
um verme torpe e irritante,
filho de uma seta.

Diria o mais rígido poeta
que não é imagem que se projete,
mas é exatamente a que me ocorre nesse instante...

Fico cega, enrijecida e sem desejo,
como quem já não quer da vida o cume
pois me rouba o amor sentido, num cortejo,
o abominável verme do ciúme.

sábado, 4 de maio de 2013

Pra te celebrar*

quando pintaram a tela
não sei se terror ou festa
preparavam aquelas duas...

vestido verde floresta
que deixava as outras nuas
duas meninas dançavam!

são três meninas tão doces:
duas posam na janela
denunciando um mar 
intenso sob a'quarela...

como não amar 
o lindo olhar 
e Mirella?


 *poema para Mirella Miranda, por seu aniversário

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Carta pra mim

Então você se encanta. Conta as horas, acata o coração.
Então você move ventos e vidas, você voa, vai atrás.

Então o tempo passa.
E o tempo pára com você e te faz descobrir que há algo a dizer.
Então você passa. E percebe que não há ninguém pra ouvir
o gemido surdo
do medo no seu peito confinado.

Então você desencanta.
Pudesse e arrancava o coração.
Você estanca, as horas não passam.
Você se verte e encharca o chão.

No espelho das palavras não se encontra,
olha para o céu e vê magenta.

Não importa o tempo, querida,
há tempos você não se aguenta!

terça-feira, 30 de abril de 2013

Vou vivendo II


parceira do pranto
do preço e da pena
à prova da pressa
opressa e sem graça
de posse da pose
de dona do acesso
a pedra:

e eu passo!

* para Heitor.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Vou vivendo

amor escasso, cansaço,
tropeço,
me perco em minha cabeça
caminhando entre escombros
mas não me importo,
porque a vida não exige guia,
a vida força
empurra, obriga
feito um tiro entre pombos

a vida é a melhor vacina
porque ela vaticina
lancina
ensina
assassina

e eu, resignada
me reservo o direito de ser
só aquela que embaixo assina.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

amor pra quem odeia*


o amor campeia
que seja

quando tuas penas partirem, asas
quando novas nuvens surgirem, casas
quando nossos corpos rugirem, brasas

e nem demônios nem igrejas
nem inveja que vareja
na cabeça malfazeja
de quem julga sem amar
nos farão parar!


*porque não entendo nem aceito o discurso do ódio contra o amor.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Respeito

gosto de expor as negras garras
ouvir o estalar dos ossos despreparados
corroer a pele antes que a dor lhe doure
gosto de destruir angústias e desejos
oferecer vagos sonhos e mornos beijos
provocar, amar, mais amar.

depois gosto de descansar em paz
sob uma sobra de silêncio,
que estabeleça pausas e distâncias
sombras de solidão

gosto de tranças e danças
antes de adeuses discretos
e que a cabeça descanse
sob os mais duros decretos
de abstinência e torpor

porque de inúmeros nãos
do sim compõe-se o valor
é que respeito os desvãos
e os vais e vens do amor.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Destroços*

se é silêncio que lhe falta
aprendo a fazê-lo sem medo
engulo ideias, remoo palavras
entorno o que sou
destronado e só
sem importância nem gosto.

e quando o gesto repetido
tornar-se ébrio e anteposto
à paixão que cativou seu 'esperto ser maduro'
juro
não ouvirei seu chamado
estará pronto e alto o muro
e sob o pó
tudo acabado.

*ou Ameaça?

domingo, 14 de abril de 2013

um domingo a mais

só entre os seus
desejava constante
a ausência de si

e era assim o dia em vão
domingo de sol
e solidão