"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 1 de dezembro de 2012

Vento

Van Gogh. 















Você jogou tudo fora
por inconstância, por medo
por excesso de segredo
ou motivo que ignora.

Não venha ventar agora.

Meu tempo hoje é de bonança
então leve sua dança
em silêncio pra bem longe...

Não venha plantar ciúme
nem apagar o meu lume 
esquecido de você.

 - e não espere outra chance
já morreu nosso romance
te aconselho a me esquecer.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

cura

meu amor é minha praça
se a dor meneia
apagando a raça
o orgulho, a graça,
perdida e lassa
ainda alcanço a caça
que me trapaceia.

num mar de fumaça
me entrego àquele
que melhor me abraça

me aninho em sua trança
até que toda dor se desfaça...

mansa
toda doença
e crença
oscila e passa.






segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Carne moída

poderia ser servida
no almoço
sobre o macarrão
ou entre o pão
com queijo e molho
poderia ser a preferida
ração do meu cachorro
ou ficar esquecida
na geladeira

a carne, moída
restos ralados
de um bicho morto...

e hoje
(dor e dor e dor e dor...)
é dessa matéria que meu corpo
todo parece se compor.

domingo, 25 de novembro de 2012

rolo de espinhos
descendo a garganta
soco
que vem de dentro
e o sufoco de se perder
no emaranhado do pensamento

cão que me morde e não late...
quem saberá quando vem
essa inimiga que me abate?

sábado, 24 de novembro de 2012

Aqui, em Marte

algo não vai bem
e ela vaga
suporta sentenças sem sentido
e sacramenta em sépia
todas as suposições transformadas em memória

debate-se dentro de si
sorrateira
silenciada e só

algo não vai bem
e vagarosa
a vida se converte
ora em morte
ora em arte

sábado, 3 de novembro de 2012

do dia dos mortos

minhas entranhas
absurdamente estranham
o que a imginação descerra:
a imagem da carne amada
desmanchada
numa caixa de madeira sob a terra.

é por isso que ao dois ignoro
se puder, sequer me lembro:
indo direto do primeiro
para o três de novembro.



sábado, 13 de outubro de 2012

Fastio

amanheci cansada
de todas as caras onde me abrigo
espalhadas como o campo
que o espantalho do espelho mira
hoje não haverá amigo velho
que dilua do dia esse gosto acentuado
de que vida voa e a morte espera

hoje acordei uma fera
com meus digeridos versos-rascunho
arquivados de próprio punho num autoimposto
sufoco.
hoje todo mal é pouco
porque o sol é louco
a pele está sensível
e a carne do coração
maturada.

Hoje é piada errada
porque, de mim,
amanheci cansada.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

correspondida


você me apetece
e a vida transborda
feito bárbara horda.

para minha alegria
o som que mais te apraz
está mais nas loucas
palavras sombrias
das minhas roucas
cordas vocais.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

presa

são suaves seus olhos
e me tocam
quando fecham
em silêncio

com sussurros
nós sonhamos
em degredo
e são ávidos
seus dedos
que me tocam

eu receio que meu medo se perdera
e pressinto que minh'alma ganhou dono
me permito ser tocada a noite inteira
alma e corpo olvidados do abandono

é assim, em pleno voo
que você me amarra:
madrugada e eu ecoo
feito as cordas
da tua guitarra.



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

lua de mel


deveras, avivo-me
e me suporta o som
de teu violão...

Ave vinho!
e tudo tão suave...
arde em nós
véspera de abortado e eterno feriado!