"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



domingo, 15 de maio de 2011

re caída

Hoje chove. Um dia o vi sorrindo e parecia hoje. Sorri também, meio pelo leve do coração, meio pela erva. Era rosa aquele ócio em que caímos. Você, todo lobo, enredou-me num lençol já gasto e fui teu pasto mais uma vez. Nem me lembro como terminou aquela noite.
Hoje chove. Um dia o vi chorando e parecia hoje. Chorei também, meio por vergonha, meio por culpa. Era amarela a vergonha, você disse. Eu, toda Alice, queria mais era um abraço, sentir teu laço de perdão que ainda arde. Nem me lembro como terminou aquela tarde...
Hoje chove. Um dia, eu o quis, tu me quisestes, foi delírio aquele dia, e parecia hoje. Depois corremos nos dias repetidos. Solidão morta por dois no exílio: o vinho era a saliva e parecia hoje. A vida era tão viva, e parecia hoje...

Hoje chove e não encontro o porto. Tento em vão preencher nosso quarto com meu corpo, mas grita-me a vida, ardida, dividida.
Hoje choro,
porque chove
e você é morto.   

quinta-feira, 12 de maio de 2011

pra renascer

ainda que o dia nasça
sem me pedir permissão
ainda que a vida siga
sem sentido nem perdão

ainda que você não venha
ainda que essa chuva caia
ainda que razão não tenha
a cor com que o sol se ponha

querer eu quero esse braço
seu abraço sem paixão
que a minha parte eu faço:
dinamite e explosão
- nos escombros eu renasço.

sábado, 7 de maio de 2011

dia das mães

vocês vieram
em bando
e eu fui sem querer
Quando percebi
ato após ato
já éramos quatro.
Surpreendida, ainda
eu até acho a vida mais linda
não é que eu também sou mãe?
Pensar que a culpa toda é de vocês
que vieram em bando
e eu fui.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Pescaria*

Pareço perdendo
prazeres pensados na penumbra.
Espreitam-me, expandem-se
constelações
e braços.

* num rio-poema de Agnaldo Martins

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Che Guevara, 
latina auto-estima
tsunami, terremoto,
rei do terrorismo morto
greve paraliza o porto
tiroteio na escola...
coca-cola.

Rock in roll, samba, rap,
Funk, punk, Jesus Cristo
futebol, 
crack e bola...
coca-cola.

Sangue e asfalto, corre!
negro nas vias, nas veias
Artérias cheias
de coca-cola.
Nós e o mundo?
No fundo, 
gás, sabor
e desconhecido conteúdo...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Bolero




Seis da manhã. O presente me alucina. Penso na menina e vejo o que virá: Nosso amor não é mais romance, para que a história avance é melhor me rebelar... Imerso nessa viagem, num instante me arrebato. Não pretendo permitir que ela me deixe! É por isso que me amarro entre os feixes de centenas de memórias. Assim, atado ao passado, viverá sempre ao meu lado, feito um relógio quebrado, a repetir mesma hora.
Ela sorriu. A boca larga e vermelha, rasgada na cara, escancarava uma alegria doentia da qual eu não mais fazia parte. Mirei-a desconcertado, como quem vê uma placa de PARE. Ignorava que morro, o meu pedido de socorro e meu medo sem igual. Disse que eu cheirava a álcool, desvencilhou-se de meus braços e saiu a duros passos. Ponto final. 
Passam-se horas.
Olho-me no espelho e o que vejo? Olhos inchados de chorar, boca afogada nesse mar. Sob a luz baça que ingressa pela vidraça do banheiro, vejo incerta a causa dessa dor. Sinto-me preso a este amor que nada mais pretende dar. Feito suicida que se lança sob um trem sem esperança, ou inda mais, de uma ponte para o fim, imagino loucas cenas com a intenção apenas de que ela atente pra mim...
Cinco da tarde. A cabeça lateja. Estou prenhe de tristeza a rebuscar nas revistas algo pra matar o tempo. “Mato a louca, dou-lhe um beijo e então me mato”... A idéia me faz rir em desacato - não seria tão trágico, confesso. Nada de sangue, apenas vinho. No peito segue o burburinho, com o dia que se esvai. Se ela volta então eu peço: que retorne inteira e que não chame de asneira essa minha cena torta... ah, se ao menos ela tropeçasse na soleira da porta! Mas qual.
Anoitece e telefono. Ela ri quando eu uso a palavra abandono. Me engana e afoga em seu licor de mentiras doces. Sinto sono e adormeço. No coração opresso, a falta que ela me faz. Já espero que amanheça e eu desista dessa peça. Nem Romeu, nem nada mais. 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ferviam medos,
favos e férias
quando ferviam filhos:
trilhos novos
para a estrada.

O tempo amorna as pimentas de outrora
os caminhos fugiram estreitos de chão
nem coelhos nem doces na primeira hora -
sem mentira sincera. Sem ilusão.

Há silêncio na casa, quase todos dormem

domingo de páscoa, domingo comum

observo os novos medos que me movem
eu estou em todos
e não sou nenhum.

terça-feira, 19 de abril de 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

oigo lejanas
la respiración de una puta
la inspiración de un poeta
ollas rotas en la orilla del mar
miro lejana la luna llena
reina de todas las calles:
una puta silenciosa
un poeta loco en la plaza.


solo un baile
tu cuerpo involucrado en mis brazos
mis pisadas secas buscando a las tuyas
tu mirada ciega
y rota mi alma.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

era cara
a boca escancarada
ruindo as horas
numa risada infinda

era rara
a boca retorcida
em raiva
em dúvida com a vida


nestas horas de saudade
em que os detalhes viram centro
tua boca em movimento
é o recorte que me ampara:

bom ter tido tua boca
nesta vida louca e avara.