"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 6 de abril de 2011

Brega para Cora Rufino

Um dia disse que me amava
e que sem mim já não vivia
um dia disse que queria
seguir comigo pela estrada
hoje está longe e descuidada
de todo amor que eu lhe dei
e eu sozinho aqui recordo
e de lágrimas transbordo
pela dama que eu amei

Essa ingrata tão distante
me enganou pela internet
disse que era militante
e que gostava da Ivete
quando a encontro na rede
ela ignora os meus sinais
eu lhe cutuco mas não cede
eu reclamo, mas no face
ela não responde mais...

Só pra me manter por perto
ela diz que me adora
finge que é piedosa
mas logo me joga fora
eu vou deletá-la logo
pois já não aguento mais
sempre on line e me ignora
e eu já sei que é mentirosa
mentirosa, essa Cora.

domingo, 3 de abril de 2011

variação sobre o mesmo tema:

se canto
é pra ter
o éter
abrir teu suéter
e deixar verter
teu ser tão mar
em meu ser tão.
amor antigo...
tudo a-mar: cerrado seco
além do fogo lambendo a palha
pouco se move
o infinito aqui,
ser tão e céu.
amor antigo...
tudo mar: espelho velho
olhos sol queimando a pele
sal dos gestos
e gargalhadas
ondas agitadas no abismo
engaste rústico, emoção e pedra

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Um olho mira, aponta, e erra em cheio o coração disparado.
Fora, cursor exigindo palavra, dentro, frases desconexas vertendo,
artérias estouradas.
Amanhece.

Susto e sono.
Silêncio,
só.

Pediria ao pai -  acaso pai houvesse -
a profissão de professar impurezas próprias...
Estabelece-se firme o caos da norma.
Amontoa títulos
ignora que, títere, a língua se desfaz, ilógica,
parada porque de céu desprovida,
pária, perdida.

Pobre boneco, esse contorcido.
Especula a tela, naufraga em mortos tecidos.
Inteiro entre feridos
alimenta-se, antimatéria,
apodrecido, solitário e deus:
Um poeta, para os seus.

terça-feira, 29 de março de 2011

surpresas

I
eu não percebi o naufrágio
quando acordei
era sal  e sol pra todo lado
tudo desfazendo-se
tudo decretando obsolecência da matéria

II
entre bits e bites
gente não se fala mais:
se visita em salas virtuais
e troca carinhos
com carinhas pontuais

domingo, 27 de março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

explicação (não sou bandeira)

Não,
não serei seu Misael
por isso fui embora na primeira queda
por isso não te compraria nunca
aquela fazenda de organdi azul.

domingo, 20 de março de 2011

Um teste e uma certeza sobre a solidão

           Ontem eu fiz um teste de uma revista. Um teste que seria da UCLA (EUA) e que mede o grau de solidão das pessoas. Adivinha?
           O maldito me diz que sou "uma pessoa solitária que provavelmente está consciente da situação"...

           Ser ou estar solitário é ter a sensação mais ou menos permanente de não entrar em conexão com outro ser humano. De não ser compreendido, de não pertencer ao mundo dos outros. Ou de que os outros não pertencem ao nosso mundo.
           Daí que não aceitei o resultado: Eu solitária?
           E a legião de amigos espalhados em tantos lugares do mundo?
           E os nove irmãos? Os tantos alunos? A tríade de filhas? Os leitores do blog?
          Ah, os leitores silenciosos do blog...
          Hoje, quando vim escrever aqui, não pude deixar de lembrar do teste.
          A experiência virtual é algo muito expressivo da solidão. Veja esse blog. Comecei-o em 2008, duvidando que seria legal. Deixei-o às moscas. Daí recebi cobranças para atualizá-lo, cobranças de leitores insuspeitos até então! O tempo passou, peguei gosto pela exibição da minha miséria, das minhas palavras, dos códigos para dizer ao mundo: "eu caí", "estou bem", "hoje chorei", "dormi mal", "quero isso/ ou você"...
          Os textos se amontoam, assim como as visitas que identifico pelas estatísticas do blog, constrastando com a raridade dos comentários ao fim de cada poema...
          Assim percebi o que o teste poderia querer dizer. Já escrevi aqui sobre isso, mas nunca de forma tão explícita. Não sinto falta de conexão com pessoas todo o tempo da minha vida, mas se há um espaço privilegiado para que esse sentimento se instale, esse espaço é virtual, afinal, quanta solidão me impõem, os leitores desse blog, ainda que eu saiba de suas visitas silenciosas?
          Já questionei o que querem ver os visitantes, já resmunguei sobre a exposição de minha carne viva e crua... E daí? Esses espasmos solitários dizem respeito a quem? Me exponho porque quero. Pelo mesmo motivo que Drummond enumerava: meu coração é pequeno, nele não cabem todas as coisas, nem eu mesma caibo nele... é por isso que existe esse blog...
          Você que passa silencioso por aqui: Eu sei que vens. E isso é o grande barato desse jogo de mostra esconde que me faz uma "solitária consciente da situação". Sua visita, leitor calado, é uma honra, e dá sentido à existência desse espaço. E graças ao teste da revista, não vou mais me lamentar pelo seu silêncio: é a mim que diz respeito a sensação de não pertencer. Na real, no entanto, tenho que admitir que não grito pra ninguém ouvir. As estatísticas apontam: você está aí... e mesmo que ninguém diga mais nada, sua visita certifica o inegável: aqui, eu não estou sozinha.    

sexta-feira, 18 de março de 2011

Espelhada

Eu palavra
substantiva
feminina
vôo.
Meu macho não
pouco se vê
é pouso e só
furioso silêncio.