leio os antigos poemas
como quem revira bagagens
e o coração recolore as imagens:
é catar-se entre pedras e grãos
diluída entre as frestas e vãos
dos versos, lavrada na palavra
carne viva, latejada
fratura
exposta pela ponta dos dedos.
versejo
rompo tempo e espaço para ser milhares
sou espiga no milharal embonecado
da memória do meu pai
sou saudade da casa grande do interior
da memória da minha mãe
sou menina apaixonada pela primeira e pela milésima vez
sou campeão e sou freguês
tudo me dói e me alivia
versejo
e gosto do que vejo:
sou a um tempo
poeta e poesia.
"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
quarta-feira, 23 de março de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Me deixem.
percam
pudores e
prazos
printem
posts
pérfidos
passem
posses e
poses
partam
pernas e
portas
permitam-me
penas e prosas
pecar
por prazeres e pratas
pedir
petúnias e prímulas
prover
palavras e poemas
pensar e portar
palmas e prismas,
pragas e prendas
pães e pestos,
pulsar, pender, pirar
perigosamente em
partes de
pura pele.
pudores e
prazos
printem
posts
pérfidos
passem
posses e
poses
partam
pernas e
portas
permitam-me
penas e prosas
pecar
por prazeres e pratas
pedir
petúnias e prímulas
prover
palavras e poemas
pensar e portar
palmas e prismas,
pragas e prendas
pães e pestos,
pulsar, pender, pirar
perigosamente em
partes de
pura pele.
terça-feira, 8 de março de 2016
Eu canto a mim e a mil
canto mil vezes um milhão
para quebrar o silêncio pelo medo do tapa
e a angustiada escolha da roupa
canto por cada barriga contraída para a foto
canto por cada uma que foi chamada de louca
canto porque a fome e a miséria são mais nossas
canto porque nosso corpo não nos pertence
seja em terra, no ar ou levado pelas marés,
canto porque é injustiça
e violência
o que nos marca da cabeça aos pés.
contra o medo de viajar sozinha
contra o pavor de ser mãe de menininha
canto a mim e a mil e mil vezes um milhão
sou sua mãe, sua irmã, sua colega, sua esposa
e canto
por um dia em que um dia seja só mais um dia
e toda mulher possa ser livre e feliz
e cada maldade não seja atribuída à mãe
do filho da puta
por um dia em que um dia seja só mais um dia
e possamos entoar mais cantos de alegria
com menos motivos para cantos de luta.
canto mil vezes um milhão
para quebrar o silêncio pelo medo do tapa
e a angustiada escolha da roupa
canto por cada barriga contraída para a foto
canto por cada uma que foi chamada de louca
canto porque a fome e a miséria são mais nossas
canto porque nosso corpo não nos pertence
seja em terra, no ar ou levado pelas marés,
canto porque é injustiça
e violência
o que nos marca da cabeça aos pés.
contra o medo de viajar sozinha
contra o pavor de ser mãe de menininha
canto a mim e a mil e mil vezes um milhão
sou sua mãe, sua irmã, sua colega, sua esposa
e canto
por um dia em que um dia seja só mais um dia
e toda mulher possa ser livre e feliz
e cada maldade não seja atribuída à mãe
do filho da puta
por um dia em que um dia seja só mais um dia
e possamos entoar mais cantos de alegria
com menos motivos para cantos de luta.
sábado, 5 de março de 2016
domingando
sem cobranças nem amarras
nos demos ao salto
emocionados
cada um com sua mala de motivos
madrugada
e mergulhamos juntos
eram bolhas de ar
os corpos unidos
sob o branco do lençol
lado a lado submergidosprofunda
profundamente entregues
adentramo-nos sem medos
nem expectativas
foi quase prece aquele toque
fazendo-nos presença que aquece
que marca a vida
e torna o outro parte
sem preço.
flutuamos
sem reserva nem temor
e não há porque não admitir
que por todos esses anos
foi e é amor.
sem cobranças nem amarras
nos demos ao salto
emocionados
cada um com sua mala de motivos
madrugada
e mergulhamos juntos
eram bolhas de ar
os corpos unidos
sob o branco do lençol
lado a lado submergidosprofunda
profundamente entregues
adentramo-nos sem medos
nem expectativas
foi quase prece aquele toque
fazendo-nos presença que aquece
que marca a vida
e torna o outro parte
sem preço.
flutuamos
sem reserva nem temor
e não há porque não admitir
que por todos esses anos
foi e é amor.
sexta-feira, 4 de março de 2016
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Sonho feito carne
![]() |
| Rococo. In Metamorphosis, de Jonathan Ducruix |
De imagens surdas e
memórias soltas
se compôs o quadro:
e eram milhas
de poros e pelos roçados
sem gravidade e sem limites
aos corpos entrelaçados...
os olhares e as línguas
o pulsar compassado do sangue
nas veias
a paz inserta nos peitos
imóveis, desertos,
e feito insetos nas teias
certificamos o eterno.
e foram horas
de ais em suspiros profundos
era tanto gozo e tanta alma e tanta vida que,
no fundo,
amado,
eu sabia que aquele dia
fora real
e sonhado.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Amargarida
Foto Gabriel de Paiva, agência o Globo - Lagoa Rodrigo de Freitas, RJ.
Farta
da ausência de surpresas
desses olhos mortos
desse imenso mar de olhos mortos
de nadar entre afogados
por tanta e tonta
informação.
Margarida quer perdão
quer não ver, furem seus olhos!
mirar o sol, fugir, morrer
quer ser mais um na multidão
Margarida quer renascer
meio morta pra acabar com a solidão.
Margarida ao sol
tostada sem amor nem piedade
chora por manter-se úmida, acreditar-se única ainda sendo parte.
Foi a palavra quem fez Margarida
enxergar de olhos fechados
a si mesma,
foi a dura palavra quem encheu a tudo de significados
madurez na pele e no sentido,
Margarida limitada na materialidade da linguagem
vê-se perdida, espessa, burra
não traduz o que lhe afronta
acerca-se, resseca-se, ressaca-se
e chora.
Margarida ao sol
tostada sem amor nem piedade
fecha os olhos
e chora por manter-se úmida
acreditar-se única,
ouvir a voz que lhe convida
a saber-se, no mar de mortos
ainda com vida.
Farta
da ausência de surpresas
desses olhos mortos
desse imenso mar de olhos mortos
de nadar entre afogados
por tanta e tonta
informação.
Margarida quer perdão
quer não ver, furem seus olhos!
mirar o sol, fugir, morrer
quer ser mais um na multidão
Margarida quer renascer
meio morta pra acabar com a solidão.
Margarida ao sol
tostada sem amor nem piedade
chora por manter-se úmida, acreditar-se única ainda sendo parte.
Foi a palavra quem fez Margarida
enxergar de olhos fechados
a si mesma,
foi a dura palavra quem encheu a tudo de significados
madurez na pele e no sentido,
Margarida limitada na materialidade da linguagem
vê-se perdida, espessa, burra
não traduz o que lhe afronta
acerca-se, resseca-se, ressaca-se
e chora.
Margarida ao sol
tostada sem amor nem piedade
fecha os olhos
e chora por manter-se úmida
acreditar-se única,
ouvir a voz que lhe convida
a saber-se, no mar de mortos
ainda com vida.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Mergulho
Foi mergulho mesmo
desses de tirar o ar completo
desses de afagar por dentro
cada gota dos meus setenta por cento.
foi mergulho mesmo
dias em si,
entre paredes feito um jabuti
a mirar desejos, medos, cicatrizes
tocando por dentro os atores e atrizes
que me habitaram silenciosos
experimentando-me numa autofagia
de reconciliação
foi mergulho mesmo
inalando uma paz branca e inerte
espessa e especialmente preparada
para a ocasião.
Foi mergulho mesmo
na esperança de voltar à tona
com renovado coração.
desses de tirar o ar completo
desses de afagar por dentro
cada gota dos meus setenta por cento.
foi mergulho mesmo
dias em si,
entre paredes feito um jabuti
a mirar desejos, medos, cicatrizes
tocando por dentro os atores e atrizes
que me habitaram silenciosos
experimentando-me numa autofagia
de reconciliação
foi mergulho mesmo
inalando uma paz branca e inerte
espessa e especialmente preparada
para a ocasião.
Foi mergulho mesmo
na esperança de voltar à tona
com renovado coração.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Desavenida.
Rufavam tambores e peitos
explodindo em sorrisos multicores.
Eu não.
Com os dentes
desfiz em vermelho
fiapo por fiapo
a lembrança daquela carne.
Permiti que o fogo do tempo
tostasse lentamente qualquer esperança
e embora o couro que embala
surdamente meu pacote de neurose
pedisse ansioso por nova dose,
samba que dá vida à vida,
pele que à razão repele, atrevida...
e embora emoções e pensamentos tenham estado
tão loucamente desorientados no chão das horas,
não pude mais
engoli em seco
e fui embora.
explodindo em sorrisos multicores.
Eu não.
Com os dentes
desfiz em vermelho
fiapo por fiapo
a lembrança daquela carne.
Permiti que o fogo do tempo
tostasse lentamente qualquer esperança
e embora o couro que embala
surdamente meu pacote de neurose
pedisse ansioso por nova dose,
samba que dá vida à vida,
pele que à razão repele, atrevida...
e embora emoções e pensamentos tenham estado
tão loucamente desorientados no chão das horas,
não pude mais
engoli em seco
e fui embora.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Sexuada.
Digo sim
porque quero, porque gosto quando gozo
ninguém dono desse corpo mais que eu
digo sim na noite clara
de segunda
digo sim com minha cara e minha bunda
digo sim com meu sorriso e poesia
sou do tipo que aboliu o não pro sonho
sou do tipo que aboliu o não pra si:
se o que há é só carinho - e eu desejo -
não me nego de fartar-me, dou sem pejo
e isso é direito meu, eu bem suponho.
Se incomoda o meu querer, é por ser livre
das amarras que quiseram me meter
o meu corpo é meu inteiro e nele vive
livremente o meu sexuado ser.
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