Olha
há ali mãos engrossadas pela terra
braços e pernas marcados
por limoeiros e roseiras
há ali uma respiração lenta
alimentando um corpo
de quem já pariu quem devia
de quem já fez quitutes e festas
de quem já regeu uma orquestra
e hoje habita uma casa vazia.
olha
como foi que se instalou ali
no peito asfaltado
essa agricultora
rosto por sol vincado
cabelo que não denuncia corte
sob essas roupas que, novas, parecem rotas
esperando viva,
silenciosa e resignada
a morte?
Vasculha as palavras perdidas
na colcha dos poemas
remexe as memórias, revolta a água dos temas
cria problemas imaginários,
vai a lugares terríveis
encontrar monstros humanos...
Colhe a adaga guardada
a bomba, o frasco de veneno
é hora
presenteia essa senhora
com o suspiro último.
ama, como se não houvesse danos
ama, como eras capaz há anos...
por você e pelos seus:
mata-a
e volta a viver,
pelo amor de deus.
"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
A pele, casca de humano
reclama do ar que não se move
de modo insano.
Tuas palavras são prole incerta
estendida pelo campo
ecoando um grito
que em silêncio,
ainda me comove:
Suas viagens que já não são vertigem.
E por mais que a gente não aprove
e troque sorrisos
e minta e finja
um intacto encanto,
a verdade que nos socorre
é que todo dia, tudo morre...
nós só não sabemos
quanto.
reclama do ar que não se move
de modo insano.
Tuas palavras são prole incerta
estendida pelo campo
ecoando um grito
que em silêncio,
ainda me comove:
Suas viagens que já não são vertigem.
E por mais que a gente não aprove
e troque sorrisos
e minta e finja
um intacto encanto,
a verdade que nos socorre
é que todo dia, tudo morre...
nós só não sabemos
quanto.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
sábado, 20 de dezembro de 2014
Hacker
Busco uma palavra
que te toque a face
mova uns fios de tua franja
e se deposite cega na firmeza dos teus lábios.
Uma palavra vírus que
estando em ti depositada
tome-lhe completamente os sentidos
deixando-lhe em febre que não se aplaca.
Quero uma palavra para lamber-te os cílios
escalavrar o mais profundo do teu desejo
e trazer à flor da neve a fúria guardada...
Busco a palavra que te destrava
para inconsequente, trazer-te ao mundo
em cada gota da tua lava.
que te toque a face
mova uns fios de tua franja
e se deposite cega na firmeza dos teus lábios.
Uma palavra vírus que
estando em ti depositada
tome-lhe completamente os sentidos
deixando-lhe em febre que não se aplaca.
Quero uma palavra para lamber-te os cílios
escalavrar o mais profundo do teu desejo
e trazer à flor da neve a fúria guardada...
Busco a palavra que te destrava
para inconsequente, trazer-te ao mundo
em cada gota da tua lava.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Deus me livre
Deus me livre da calamidade
dessa vida sem vontade
vivida assim, na metade.
Deus me livre desse dia
de agonia preguiçosa que se espalha
fazendo tralha de tudo o que eu queria
Deus me livre dessa falta
de desejo
de tanto tanto faz
e desapego e silêncio
que não são paz.
Deus me livre
da indiferença diante da noite sem abraço nem beijo
dessa inconsciência de si
desse olhar colado no asfalto
embaçado num choro tão alto
que meus ouvidos não querem me ouvir...
Deus me livre
de ser livre de querer
porque o viver se perde assim.
Hoje eu peço
especialmente
que Deus
me livre de mim.
dessa vida sem vontade
vivida assim, na metade.
Deus me livre desse dia
de agonia preguiçosa que se espalha
fazendo tralha de tudo o que eu queria
Deus me livre dessa falta
de desejo
de tanto tanto faz
e desapego e silêncio
que não são paz.
Deus me livre
da indiferença diante da noite sem abraço nem beijo
dessa inconsciência de si
desse olhar colado no asfalto
embaçado num choro tão alto
que meus ouvidos não querem me ouvir...
Deus me livre
de ser livre de querer
porque o viver se perde assim.
Hoje eu peço
especialmente
que Deus
me livre de mim.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Lei da vida
O ódio escorre e se espalha
suja o chão onde se pisa
obstrui o caminho
de imprecisa navalha.
- ninguém se engane,
tudo o que vive
falha.
não entendo o espetáculo
não compreender o horror
seria mesmo uma sorte?
fica-me a questão não respondida
o que foi, que de vencida
te feriu tão de morte
a frágil humanidade?
um sábio amigo ensinou-me:
não tem piedade, a vida
e se é só dor que se semeia
só a dor será colhida.
suja o chão onde se pisa
obstrui o caminho
de imprecisa navalha.
- ninguém se engane,
tudo o que vive
falha.
não entendo o espetáculo
não compreender o horror
seria mesmo uma sorte?
fica-me a questão não respondida
o que foi, que de vencida
te feriu tão de morte
a frágil humanidade?
um sábio amigo ensinou-me:
não tem piedade, a vida
e se é só dor que se semeia
só a dor será colhida.
domingo, 16 de novembro de 2014
Provocada
Me senti no limite de
Uma dúvida imensa:
Seria um convite?
A esperança intensa...
Tensa, à noite arde uma cama vazia
Numa serenata que não se ouvia
aquecido, o peito é lembrança lenta
de um beijo morno em manhã raiada.
Aquecida a vida
Se espreguiça e chora
seria um convite ou não seria nada?
Dolorida lembro do que foi outrora
Temerosa espero,
O que virá agora?
Sinto que de dentro
Nunca me saíste
Sinto meu limite
Se desrefazendo
E antes de deixar que me nasça um palpite
Ensaio esse riso que brota doendo
Na pergunta cega: seria um convite?
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Boneca que é gente*
te redeclaras
e em cada poro
se me escancara
um vulcão:
esse desejo de impor beijo e riso
a cada cara na rua...
dançando ladeira abaixo,
num sentimento preciso
de ser história e memória
faço-me parte do povo...
(seu amor redeclarado
tem cheiro de livro novo.)
*Para Talitha, minha Tatá.
e em cada poro
se me escancara
um vulcão:
esse desejo de impor beijo e riso
a cada cara na rua...
dançando ladeira abaixo,
num sentimento preciso
de ser história e memória
faço-me parte do povo...
(seu amor redeclarado
tem cheiro de livro novo.)
*Para Talitha, minha Tatá.
domingo, 26 de outubro de 2014
Voltar a ser um
Eu já conheço
esse caminho pantanoso
essa escuridão por dentro
cada passo nessa senda.
Eu já conheço
gota a gota esse veneno
toda a dor desse destino
em detalhe todo o plano.
Eu já conheço
e por isso não me nego
se é pra chorar, me entrego
depois vem calmaria.
E algum dia
num momento mais florido
felizmente, simplesmente,
não será mais dolorido
olhar pro que foi a gente.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
22 de outubro
São 1460 dias
sem sua respiração
sem sua voz.
1460 dias
da ausência mais presente
mais contundente
mais feroz.
1460 dias
que provam sua certidão:
a vida é feita no dia a dia
e cada um tem sua própria
e interna
razão.
Eu fiquei com filhas, casa
e uma multidão de dias a mais
povoados da tua memória
e dessa presença/ausência
que a um tempo
nos atormenta e enche de paz.
sem sua respiração
sem sua voz.
1460 dias
da ausência mais presente
mais contundente
mais feroz.
1460 dias
que provam sua certidão:
a vida é feita no dia a dia
e cada um tem sua própria
e interna
razão.
Eu fiquei com filhas, casa
e uma multidão de dias a mais
povoados da tua memória
e dessa presença/ausência
que a um tempo
nos atormenta e enche de paz.
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