DO QUE UM PLANO DE CAPACITAÇÃO PROVOCOU EM MIM
Já passei de meio-dia
ainda vejo o sol alto, sinto sua energia
ainda vejo sombras projetadas para baixo
e caminhos iluminados em diversas direções.
Mas já passei de meio-dia
logo serão três e quatro e seis e meia
como foi desde as zero hora
rápido demais.
Penso em quem partiu às duas
em quem não teve como plantar-se
feito memória.
Eu não
eu história já,
passando de meio-dia.
Juventude e potência, do devir destemidas
comprar casa, ter filho, fazer doutorado
todas essas coisas que ocupam quem está ao lado
mas deveras não tocam meu coração sob o sol.
De alguns caminhos que brilham
à minha frente, eu pergunto:
será que dá tempo de eu ir junto?
É dessa angústia que parece doer mas não dói
e do interesse de registrar uma aguda certeza
que se fez, de suavidade e aspereza
esse poema:
se um meteoro esconder o sol
e se fizer noite antes do esperado anoitecer
essa vida tão sentida e ressentida
já terá valido a pena.
"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
sábado, 6 de setembro de 2014
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Uma nuvem rara*
O sol se esvaindo em raios
pelo Malecón Habanero
o vento cortando os ossos
no morro da Agronômica
é até irônica a memória
da pele envolvida
em abraços tão doces e sãos.
Retinas repletas do concreto
coberto de arte
e pés que recordam
areias brancas cobertas de águas claras
por toda a parte.
Por dentro o rum e o tabaco, a lagosta e o camarão
o sushi e a caipikiwi,
fumo do bom,
vinho e carinho,
filhos de amigos e irmãos.
Nesses dias em que me doo
e em que a mim se doam
tantos e tão bons
sinto, furiosa e a muitas mãos
a vida construída
Olho pra trás
e agradeço imensamente que me afague,
tão lenta e poderosamente
essa nuvem que só de amor me recobre.
*Para Jam, Aldenora, Tuco, Edu, Heitor, Cris e Thálion, que me cobriram de amor, essa bênção tão rara.
pelo Malecón Habanero
o vento cortando os ossos
no morro da Agronômica
é até irônica a memória
da pele envolvida
em abraços tão doces e sãos.
Retinas repletas do concreto
coberto de arte
e pés que recordam
areias brancas cobertas de águas claras
por toda a parte.
Por dentro o rum e o tabaco, a lagosta e o camarão
o sushi e a caipikiwi,
fumo do bom,
vinho e carinho,
filhos de amigos e irmãos.
Nesses dias em que me doo
e em que a mim se doam
tantos e tão bons
sinto, furiosa e a muitas mãos
a vida construída
Olho pra trás
e agradeço imensamente que me afague,
tão lenta e poderosamente
essa nuvem que só de amor me recobre.
*Para Jam, Aldenora, Tuco, Edu, Heitor, Cris e Thálion, que me cobriram de amor, essa bênção tão rara.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Prece a quatro mãos*
Único templo possível:
Nosso corpo.
A ele todos os dízimos,
todas as oferendas.
Dele
todos os cânticos e todos os altares.
Para ele todas as preces
porque é nele que se manifestam
todos os milagres.
E assim seja.
*Parceria com o querido Devair Fiorotti
domingo, 20 de julho de 2014
Boneca de pano
caminha
e pela estrada
não teme o fim
e sabe
que seguir ferida é o preço
em cada pedra escarpada
em cada galho seco
em cada espinho longo
deixa fiapos de si
não teme o fim
e sabe
que seguir ferida é o preço
para estar assim
embonecada,
sempre mais leve
embonecada,
sempre mais leve
e despojada.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Tristeza não tem fim...*
Quisera eu ter coragem
e poder
para superar sozinha
meu problema comezinho
dos que não sabem ler.
Quisera ter coragem
e poder ainda mais
para abrigar às crianças destroçadas
por bombas
e por pais e mães desaparecidos
nas barricadas policiais.
Quisera eu ter uma palavra de conforto
mas ensino, amor, cuidado, alento,
esperança, fé, ternura, tempo
interesse genuíno, gentileza, compaixão
são só palavras
quando o mundo todo ao redor diz não
e se afunda em trevas
num caos miserável.
Em silêncio, me esvaio
para um sono profundo e culpado
sob o lençol cheirando a lavado
e ouvindo a chuva cair lá do céu.
*para as crianças palestinas, os filhos de Claudia e Amarildo e Beth.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Metamorfose ambulante*
A doçura furiosa de quem
tem todo tempo
toda certeza
toda vontade
toda esperança
e é todo paixão.
De quem acaba de deixar de ser criança
mas não se limita
a ser algo pronto
de quem tem a exata consciência
de ser algo em formação.
Por que é que isso passa, meu Deus?
Sinto falta da maturidade adolescente
pois me ferem as certezas indecentes
de quem crê já estar pronto sem morrer!
porque eu também prefiro ser.
tem todo tempo
toda certeza
toda vontade
toda esperança
e é todo paixão.
De quem acaba de deixar de ser criança
mas não se limita
a ser algo pronto
de quem tem a exata consciência
de ser algo em formação.
Por que é que isso passa, meu Deus?
Sinto falta da maturidade adolescente
pois me ferem as certezas indecentes
de quem crê já estar pronto sem morrer!
porque eu também prefiro ser.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Novas bandeiras
Totalmente tato
atrela a atleta à turista
com força corre e viaja
trem!
Então atarefa-se de afagar trilhos
traduz peles
trafega céus que não são seus
transpõe as fronteiras do sentido.
Atrevida,
sem olhos nem ouvidos,
entoca-se,
toca-se.
Quando tarda
e se termina
fugaz e felina
a fêmea autofágica
a fêmea autofágica
já não se agita:
espalha-se no ar
em essência,
feminina,
e tremula suave sob o sopro das ruas
feito flâmula.
espalha-se no ar
em essência,
feminina,
e tremula suave sob o sopro das ruas
feito flâmula.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Banquete
Glutonaria:
e foi saliva
a iguaria.
Autofagia: nossa carne,
e o desejo se sacia.
Madrugada
sem dor ou planos
nos servimos
e devoro-te
e devoras-me:
em detalhes nos deciframos.
e foi saliva
a iguaria.
Autofagia: nossa carne,
e o desejo se sacia.
Madrugada
sem dor ou planos
nos servimos
e devoro-te
e devoras-me:
em detalhes nos deciframos.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Suspeitas*
![]() |
| Eu, por mim. |
Meu eu sujo
não rejeito:
é trajeto desajustado
é jogo imperfeito.
Meu eu de mim sujo
é fruto do mundo
introjetado
em meu peito.
Não me parece abjeto
ser objeto
e eu suspeito
que tanta face
e tanto,
e mais,
é o que me apraz.
Entretanto
algo me espeta:
poderia o limbo
do eu dejeto
doado na poesia gorjeta
- ainda que lindo-
ser lido como o eu sujeito?
*poema inspirado na defesa da dissertação de Antônio Hilário, que analisou, entre outros "sujeitos", a mim.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Madonas*
| Madonas - Elimacuxi - maio/2014 |
Ave Madona ribeirinha
filhote no seio pendurado
sob a proteção de seu seio e sombrinha!
Ave seu leite amazônico
seiva de vida que serve ao acaso
filhos que brotam de buchos vazios.
Ave mães d'água em sua face soturna
Ave Marias cheias de mágoa
sob o sol de Tefé na travessia diurna.
Ave Madona ribeirinha
escura pele que alimenta os brutos
ventre expropriado em que se cozinha
a 'mãe pátria' e seus benditos frutos.
*a todas nós, expropriadas pela 'pátria mãe' de nossos corpos e frutos.
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