"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 15 de dezembro de 2018

Das lições de Manuel*

Picasso, O beijo. Ilustração, 1967. Museu Picasso, Paris.


Antes 
não havia texto, só gastura
uma tortura de selar
com silêncio
um desejo semente:
meus lábios já sabiam, 
dos teus, a textura
e meus olhos eram todos
ternura por seu olhar furtivo,
incrédulo e dividido
entre tomar o sabor da fruta madura
ou apenas emprestar um livro.

Suspeito mas submerso
o mútuo interesse se converteu em convite
para o suco e a conversa
para o vinho, para a praça, 
a biblioteca, a cachaça.

Benditas as verdades ditas como simples versos... 
bendita língua portuguesa à brasileira que ainda nos une.
Na madrugada avançada, 
entorpecidos e dispersos
cravamos Bandeira, Lispectorando desejos
Camoniamos pelas horas feito Freires Marcelinas 
mãos dadas com a lítera de Francisco e Ágda 
e a tua e a minha
pássaros roucos e perdidos
no barulho da floresta.
Atou-se em nós o lirismo puro dos bêbados
para que você perguntasse e eu respondesse sorrindo: 
"quer ler comigo, amanhã ou domingo?"

Repetimos muitas vezes, desde então,
sobre os mesmos versos, aquela experimentação 
em diferentes ritmos, com distintas sílabas
nas manhãs raiadas e nas noites trôpegas
mesclando com distância, sorrisos e lágrimas
o produto mais preciso e precioso de nossas bocas.

Beije-me de novo, meu bem,
física e virtualmente
que eu te beijo também,
beije-me em casa e beije-me além
escalavremos com músculos 
antes ósculos que poemas
porque as palavras
as palavras não bastam.

Benditas as línguas que desde aquela noite
vibram em versos e intertextos 
de saliva
pondo a sua pele em brasa 
e a minha carne
viva.


*Para Vitor, um ano depois, pois que"os corpos se entendem, mas as almas não".

terça-feira, 20 de novembro de 2018

No ventre blue de minha mãe

São Paulo. Imagem disponível em
https://pixabay.com/pt/brasil-edif%C3%ADcios-cidade-cityscape-1842205/
Volto a São Paulo como se voltasse ao útero
enorme e disforme útero blue.

Jovens descolados
ainda andam sós ou em bandos
ainda falam alto ou fecham as caras
cheios de certeza de que o mundo lhes serve.
Reconheço artistas, ambulantes, moradores...
Da rua
em cada esquina do Jardim Paulista
o cheiro de marijuana e tabaco,
marijuana e incenso,
marijuana e marijuana,
se instala e atravessa minhas narinas:
Ali um par de motoboys no almoço
Lá dois barbudos com coletes sujos e pesados de couro
Aqui um rapaz com camisa de clube e duas meninas.

Observo o augusto desfile
das mulheres elegantes, homens despojados
Rumo ao Centro e nos limites da Liberdade
se me escancara a realidade de cada um
disputado ou negligenciado
por igrejas, igrejas, igrejas
e sinagogas e centros e mesquitas
e partidos e lojas
e lojas
e lojas
onde curiosamente se empilham
cruzes, elefantes, olhos  gregos e figas...
sim, há ainda fé, fragmentada, diluída
como há o eterno aviso de "não toque"
nas antiguidades, nas jóias.

Há arte invisível em todo canto
enquanto os olhos colonizados
são atraídos para o anúncio de quinze metros
da nova série de garotos brancos
do serviço privado de TV.

São Paulo é essa pilha de desejos
vivos, toscos, ocos, secos,
depositados sobre objetos e objetos e objetos
mais sagrados que os corpos abjetos
que se estendem com vida
e frio
e fome
pelas calçadas
aqui
ali
e lá
sob as marquises da Paulista.

O semblante cansado
ainda predomina no metrô
inúmeros cristos crucificados dormitando de pé
pendurados pelas mãos
pregadas para o alto
no trem que se arrasta
vagarosamente sob a chuva
para a zona leste.

Crendo-se o sangue desse imenso nada
a imensidão de corpos mansos e amansados
segue feito um rio de gente pelas escadas rolantes
escorrem sendo o sumo da cidade menstruada
líquido aborto,
do suor o sal, extraído, excluído
vertido nas linhas amarela,
azul, coral...

Milhões de vidas contidas em  vagões e caixas de cimento
árvores maduras voltam seus galhos aos céus
descobrindo-se incapazes de retirar, da luz, seu alimento.

Flores de resistência rosas e amarelas
são pisoteadas nas calçadas
nas manhãs de primavera,
mas em qualquer estação
tua cor segue cinza São Paulo,
nas ruas e calçadas e muretas que resistem
enegrecidas pela tua
"anticorrupta e moderna" poluição.

Eu, tua filha ranzinza
retorno, vejo, fujo
pois muito te amo mas também odeio
e sigo não desejando teu doentio seio
E sigo dizendo que te quero,
minha Sampa,
mas não te quero não.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Desfazimento

Turner, W. Vapor sob tempestade de neve. 1842. Tate Gallery, Londres.

eu à deriva
as ondas são pessoas ao redor
muitas
ondas
por vezes um vento sopra ao longe
uma moça grita e tenho a ilusão de companhia
alguma
alguma embarcação se aproxima?
ninguém se aproxima
coisa nenhuma
o navio se afasta em busca de seu irmão
sou deixada ali,
e não precisa explicação.

naufrago na chocante realidade
da solidão acompanhada
a completa descomunhão
descomunicação
conflito tempestuoso pelo destrinchar
de más palavras
ele se afasta
observo e inventario os danos
respiro mas piora:
não há engano.

mantenho-me fixa nos calcanhares
nada mais do que o vácuo negro
do palco futuro me olha
o ruído ao redor torna todas as coisas
todas as coisas
todas
inaudíveis
eu digo
eu grito
mas não haverá embarque
o vulto se afasta
e se perde,
desfeito vira ilusão
no horizonte.

eu à deriva
tomada da realidade que me traga
as ondas são pessoas ao redor
não há engano
é dano sobre dano sobre dano
e lentamente meu coração naufraga.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Minha chance
Está dada
Quando te chamo
Pra que me chames
Pra que me ames
Mesmo em chamas
Exangue
Inexata
Perdida
Entre
Enxames
De exames
E
Ex.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Há cura*


naquele dia
o sol sorria beijando as ruas
as árvores as casas
as mariposas nuas
os beija-flores inocentes...
e aquele convite quente
para a abrir as asas
deixou seu coração feliz
sem muita razão.

naquele dia
provisoriamente deixou de lado
a maldade e a solidão dos outros
a hipocrisia e a fome no mundo
o escuro do medo
do inferno, o fundo
despiu tudo que lhe feria
olhou-se no espelho
e pela primeira vez reconheceu
o que queria.

para definir aquele insight
não havia palavras no glossário
gargalhou do sofrimento autoimposto
botou a melhor expressão  no rosto
"há que se inventar novo vocabulário"...
escolheu um vestido estampado
e saiu feliz consigo mesmo
sobre o primeiro salto
para fora do armário. 

*para todos os homofóbicos de plantão, com um beijo. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

In communication

A lua, uma noite dessas, no bairro Murilo Teixeira, Boa Vista.
 Por Elimacuxi. 

"é cada um por si, na sua própria bolha de ar" Tiê
ontem a noite
envolta em sonhos
de medo e prejuízo
dormi profunda
e docemente acolhida

desperto admitindo os vermelhos
e azuis e roxos
dessa estrada

de fato
permita que eu te afete
e sonhe e sonhes
comigo, contigo
colagem de complexa harmonia.

é um lampejo a forma
como em ti
me vejo

como traduzir minha certeza
de que não existe palavra nua?

e viva na lembrança
do seu beijo
a esperança atua:
minha bolha tocou a tua?

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Esvaziar

quando por algo me esgoto
e as mágoas não se absorvem no solo
de tristeza me emboto
e dura e fria vou direto ao outro pólo:

porque sou dupla e entre duplos me esboço
sol que brilha no resto de chuva, na poça,
lembrança de quebrada promessa
seriedade de criança fazendo troça.

e à semana que inicia já pesada
com reunião e falsidade que, no entorno
foi, por quem pensa ser correta, semeada,
entrego o resto do que sou, um resto morno
a física presença, de meu ser esvaziada.

é meu corpo quem me grita meus cansaços
quando a mente se despede e se despende
num tropel raivoso de pensamentos soltos
e nessa hora, ao fim da estrada, busco pouso
e tudo o que desejo é abrir meus braços
pra me perder no vão de braços outros.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Klimt, G. O Abraço. Parte do Friso Stoclet. 1904-08. Áustria.

"Você sabia
que tristeza contagia
e o mundo vai assim
em autofagia
numa espiral profunda
carregando a tudo
com uma energia imunda?"
me disse o sábio
quando perguntei
"por que, sem aparente motivo,
às vezes não me sinto vivo?"

desde então, muitas vezes inutilmente
tento permanecer consciente
da direção a que me leva a corrente...

Por isso hoje coloquei em perspectiva
vou me deixar sentir em carne viva
que doa o que doer, até vir o cansaço
ou uma corrente oposta
que neutralize essa tristeza,
disposta
na energia sincera de um abraço.

domingo, 2 de setembro de 2018

Domingo de tarde

Nicolas Lancret, The Swing (1794)
Indianapolis Museum of Art at Newfields

comida e sol
e folga
e cerveja
deixam a gente
levemente lesa...
tem hora melhor
para ser prato principal
e sobremesa?

domingo, 26 de agosto de 2018

Meios outros

De E.Manet, Le Suicidé, 1877. Foundation E.G. Bührle, ZuriqueSuíça
sentiu muito
e era tanto
que tinha a dizer
que mal cabia em si

mas tão pouco pode
ou conseguiu
exprimir

e quando estava
a ponto de implodir

na ânsia
de digerir
a língua
enrolou-se 
garganta adentro
empurrando angústia, tristeza
saudade e mágoa
pensou: está findo!

rompeu a traqueia
e sufocada
tentou aniquilar
com soda cáustica e água
a manhã de domingo.