"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Quase cinco anos

move-se na cegueira branca
atordoado e dividido entre as faces
desse monstro

(o dia
não se suporta
e as tripas denunciam humanidade
afogada na presença de tamanha ausência)

lava o rosto, as mãos, o resto
e leva certa a crueza torta
que pior que morrer
é assim
de saudade andar morta.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

De pôr em perspectiva.














Vai ver que é isso
dúvida lapidada e envolta por uma certeza única
da qual não se escapa.
É um tapa, uma festa imprecisa e bela
na qual você não se lembra de ter entrado
porque enfim não entrou -
alguém te pôs

e depois
tens todo o tempo pra esquecer dos fatos do patético início:
ser alguém... vai ver que é isso,
uma sucessão de atos
de desesperada auto-afirmação

então
um evento ordinário te cansa do afogamento diário
e já não iludem como deveriam
os sons gentis e as luzes refletidas...
a vida
vai ver que é mesmo só isso que a alivia:
a lembrança dura
da antiga carne, antes querida,
sob a terra, desfeita ou ressequida;
a certeza de uns resistentes ossos
e a perspectiva do ócio
de futuramente
fazer-lhes companhia.



domingo, 20 de setembro de 2015

Domingo de sol

me abono com abandono
me desleixo, me deixo.

é tudo chama e fumaça
tudo fede solidão e cansaço

embora ainda haja mosquitos impiedosos
que me passeiam
na lembrança da carne.



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

 “Pes(o)soa de Carne e Osso” - de Santiago Cão. Foto de Juan Montelpare. 
Disponível em http://arteseanp.blogspot.com.br/2012/06/conversando-sobre-arte-entrevistado.html.

A carne, ainda viva,
pulsa pedindo piedade
acumulam-se sob a pele
dores, quilos, raivas, medos
no enredo
pegadas de sangue
postes, putas, proezas perenes
paisagens pregadas na retina
trabalho, flores, gatos, horas, dias...
nada,
ninguém é refúgio

no escuro de dentro
que o sol não respeita
a carne grita crua
que o deserto
sou eu.

sábado, 12 de setembro de 2015

Brincadeira




















Era arrastada pela criança pelos cantos da casa
jogada pra todo lado
as cores de origem perderam a vida
encardidas...
"essa sujeira é a memória
de todas as brincadeiras"
- pensou-

sentou-se na calçada em frente à praça
a boneca no colo, quase caída em desgraça
e pareceria calma,
não fosse o susto
estampado na cara
apertando-lhe o peito.

trouxe consigo pano, agulha e linha:
(um comprimido aqui,
uma fotografia ali,
um abraço lá)

seria preciso esquecer do tempo
por isso lavaria a memória com muita poesia
e em breve - era a esperança que tinha,
surgiria de suas próprias mãos
a boneca reformada:
já tão velha
e tão novinha.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

Ônus do onírico

Era pesada a bagagem e íngreme a estrada
precisou descansar
fechou os olhos e quando abriu
era mistério
por onde seguiram todos?

completamente só.

sabia intimamente que não deveria mais estar ali
voltar atrás não era opção 
seguiu puxando atrás a maleta azul
a um estranho pediu ajuda, 
e colheu seu sorriso frio 
como a chuva que se aproximava. 

o coração acelerava, buscando, em vão
chegar ao outro lado da estação.

através de grades altas
viu os trilhos transformados em leito de rio
e as margens lentamente se desfazendo em lama
acima, na colina
viu colunas fúnebres muito altas e coloridas
dispostas como num tabuleiro de xadrez
e não parou um só instante
de caminhar freneticamente pelo piso
que estreito
negava-se progressivamente aos passos.

Desceu e subiu por escadarias enferrujadas
sem tirar os olhos do outro lado
já não tinha bagagem 
embora nas mãos descobrisse umas moedas
e nada, nada, nada que tentasse
lhe permitia atravessar
para onde sentia que deveria estar.

Quando a desorientação pareceu completa
e não era mais nada, nem peregrina nem poeta
pereceu para o pesadelo
e ingressou, 
suspensa e triste
noutro dia.

Cemitério guatemalteco
 http://www.panoramio.com/photo/349358








segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Consciência e descontrole

antes fosse a consciência do descontrole da vida
essa ânsia assim sentida como uma lança contra o peito
mas não é desse jeito...
para mim, que gosto de gatos
nunca foi mistério
que as nuvens não despencam porque quero
que as pessoas vem e vão, sozinhas
cada uma por suas próprias razões comezinhas
e que um jardim abandonado será como um cemitério.

sonhos mudam
tão rapidamente quanto a paisagem celeste
a flor de ontem hoje é só fibra ressecada
a dor de hoje em breve provocará risada
pois tudo é finito, o amor e a peste

entre tanto, o hoje:
ainda posso erguer ou baixar os braços
oferecer ou negar abraços
correr, gritar, ouvir, calar
mas simplesmente não quero .

O desejo,
tantas vezes comparado com a matéria em brasa
é de fato incontrolável
e quando desaparece
é que mais me arrasa!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Louboutin

Um salto, claro,
para um momento raro:
deu a si o presente tão caro
e, tomada de ânsia e perdão,
pisou com os dentes e engoliu
o próprio coração.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

no fim não sabia
por quanto tempo estivera
na estrada vermelha
cobrindo-se de sol e poeira.

descobriu-se caído
aprisionado
pés rasgados sobre o pedregulho,
desgrenhado, faminto...
completamente vazio
de fé ou orgulho.

entretecido de couro e barro
mirou-se lentamente
a pele vincada como os sulcos no chão
os olhos noturnos em brasa
nenhuma brisa no pulmão

intentou erguer-se
mas com a rigidez de mil laços
as curvas da estrada impuseram-se
imperiosas
à sua coluna, suas pernas, seus braços.

e não há nada
que dele se revele
pois ali, sozinho
de caminhante
tornou-se caminho.



Sobre uma pergunta feita à Nina.*



Nem precisa responder
que eu entendo,
cada nota
cada lágrima
essa sensação
de que era completa
e infinda
a escravidão.

Entendo o cansaço
e a irritação
entendo inclusive a fuga
para a Libéria
sem filha, sem perdão
numa sobrevida
que certamente
poucos entenderão.

O que se fez das meninas?
Fomos de fato felizes,
o quê nos aconteceu, Miss Nina?

Desculpe, miss,
mas eu minto...
não entendo não!
eu apenas sinto
em cada poro,
desse corpo por horas prostrado no chão
completamente minhas
as dores da sua canção.

"*What happened, miss Simone?"