"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Uma nuvem rara*

O sol se esvaindo em raios
pelo Malecón Habanero
o vento cortando os ossos
no morro da Agronômica
é até irônica a memória
da pele envolvida
em abraços tão doces e sãos.

Retinas repletas do concreto
coberto de arte
e pés que recordam
areias brancas cobertas de águas claras
por toda a parte.

Por dentro o rum e o tabaco, a lagosta e o camarão
o sushi e a caipikiwi,
fumo do bom,
vinho e carinho,
filhos de amigos e irmãos.

Nesses dias em que me doo
e em que a mim se doam
tantos e tão bons
sinto, furiosa e a muitas mãos
a vida construída

Olho pra trás
e agradeço imensamente que me afague,
tão lenta e poderosamente
essa nuvem que só de amor me recobre.

*Para Jam, Aldenora, Tuco, Edu, Heitor, Cris e Thálion, que me cobriram de amor, essa bênção tão rara.  



segunda-feira, 21 de julho de 2014

Prece a quatro mãos*

Fotografia: JJVilela.

Único templo possível:
Nosso corpo.
A ele todos os dízimos,
todas as oferendas.
Dele
todos os cânticos e todos os altares.
Para ele todas as preces
porque é nele que se manifestam
todos os milagres.

E assim seja.


*Parceria com o querido Devair Fiorotti

domingo, 20 de julho de 2014

Boneca de pano

caminha
e pela estrada
em cada pedra escarpada
em cada galho seco
em cada espinho longo
deixa fiapos de si

não teme o fim
e sabe
que seguir ferida é o preço
para estar assim
embonecada,
sempre mais leve 
e despojada.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Tristeza não tem fim...*



Quisera eu ter coragem
e poder
para superar sozinha
meu problema comezinho
dos que não sabem ler.
Quisera ter coragem
e poder ainda mais
para abrigar às crianças destroçadas
por bombas
e por pais e mães desaparecidos
nas barricadas policiais.
Quisera eu ter uma palavra de conforto
mas ensino, amor, cuidado, alento,
esperança, fé, ternura, tempo
interesse genuíno, gentileza, compaixão
são só palavras
quando o mundo todo ao redor diz não
e se afunda em trevas
num caos miserável.

Em silêncio, me esvaio
para um sono profundo e culpado
sob o lençol cheirando a lavado
e ouvindo a chuva cair lá do céu.

*para as crianças palestinas, os filhos de Claudia e Amarildo e Beth.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Metamorfose ambulante*

A doçura furiosa de quem
tem todo tempo
toda certeza
toda vontade
toda esperança
e é todo paixão.

De quem acaba de deixar de ser criança
mas não se limita
a ser algo pronto
de quem tem a exata consciência
de ser algo em formação.

Por que é que isso passa, meu Deus?
Sinto falta da maturidade adolescente
pois me ferem as certezas indecentes
de quem crê já estar pronto sem morrer!


porque eu também prefiro ser.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Novas bandeiras

Totalmente tato
atrela a atleta à turista
com força corre e viaja
trem!

Então atarefa-se de afagar trilhos
traduz peles
trafega céus que não são seus
transpõe as fronteiras do sentido.

Atrevida,
sem olhos nem ouvidos,
entoca-se,
toca-se.

Quando tarda
e se termina
fugaz e felina
a fêmea autofágica
já não se agita:
espalha-se no ar
em essência,
feminina,
e tremula suave sob o sopro das ruas
feito flâmula.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Banquete

Glutonaria:
e foi saliva
a iguaria.

Autofagia: nossa carne,
e o desejo se sacia.

Madrugada
sem dor ou planos
nos servimos

e devoro-te
e devoras-me:
em detalhes nos deciframos.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Suspeitas*

Eu, por mim. 




















Meu eu sujo
não rejeito:
é trajeto desajustado
é jogo imperfeito.

Meu eu de mim sujo
é fruto do mundo
introjetado
em meu peito.

Não me parece abjeto
ser objeto
e eu suspeito
que tanta face
e tanto,
e mais,
é o que me apraz.

Entretanto
algo me espeta:
poderia o limbo
do eu dejeto
doado na poesia gorjeta
- ainda que lindo-
ser lido como o eu sujeito?

*poema inspirado na defesa da dissertação de Antônio Hilário, que analisou, entre outros "sujeitos", a mim. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Madonas*

Madonas - Elimacuxi - maio/2014

















Ave Madona ribeirinha
filhote no seio pendurado
sob a proteção de seu seio e sombrinha!

Ave seu leite amazônico
seiva de vida que serve ao acaso
filhos que brotam de buchos vazios.

Ave mães d'água em sua face soturna
Ave Marias cheias de mágoa
sob o sol de Tefé na travessia diurna.

Ave Madona ribeirinha
escura pele que alimenta os brutos
ventre expropriado em que se cozinha
a 'mãe pátria' e seus benditos frutos.


*a todas nós, expropriadas pela 'pátria mãe' de nossos corpos e frutos.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Carlos

"A agressiva reação é inaceitável falta de educação!"
Sentenciou a escola.


Então deram ritalina pro menino albino
e ordenaram à mãe que ela o controlasse
que ela o contivesse, não importava
o quanto isso custasse.

Para ele não deram bola
e o suspenderiam todas as vezes
que ele se irritasse com o marasmo da escola.

A mãe, Pietá periférica
sem um Miguel Ângelus pra lhe retratar
lamenta que, dopado
o menino albino
em seu olhar de menino albino com onze anos
não denuncie os mesmos sonhos e vontades.

E do alto de suas altas habilidades
vi um menino indefeso
diante da intensa capacidade da grana
carregando de si o peso
vítima da imensa 
imbecilidade humana.