"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
sábado, 16 de fevereiro de 2019
Herança
Uma bolsa com cartas
bilhetes em guardanapo
cartões.
Dezesseis anos de entrega
absoluta
sem limite
sem vergonha
despreocupada de ser ridícula
ou ridicularizada.
Exposição completa
inconsequente
e escrita à mão.
Nessa bolsa
que receber como herança
eu jamais imaginaria
coberta de poesia e memória
reencontrei a amante
feliz e sem medo
que eu já soube ser
um dia.
(imagem disponível em https://pt.aliexpress.com/item/30Pcs-pack-Retro-memories-of-yellowed-old-letters-Nostalgic-Past-Postcard-Greeting-Card-Envelope-Gift-Birthday/32819099321.html)
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Atua-se
Nunca foi segredo
Se quiseres
Faço o tipo:
Soy candela,
ou cadela,
ferrada de tucandeira,
toca,
trevo de quatro-folhas,
trava-língua,
tour na Tailândia,
tramela enferrujada,
trejeito torpe,
trança, treva, torta, arte,
teco que te agite
ponta que te dome
rede que te embala
tua insânia ou tua paz.
Bote rapaz
O que te toca
O que te invoca
E a gente faz.
Se quiseres
Faço o tipo:
Soy candela,
ou cadela,
ferrada de tucandeira,
toca,
trevo de quatro-folhas,
trava-língua,
tour na Tailândia,
tramela enferrujada,
trejeito torpe,
trança, treva, torta, arte,
teco que te agite
ponta que te dome
rede que te embala
tua insânia ou tua paz.
Bote rapaz
O que te toca
O que te invoca
E a gente faz.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Atenda-se
pode se expor
a carne tocada, macerada, amolecida pelo sol
o mesmo sol que se põe em festa,
explodindo o céu em tons de manga madura
e vai recompor
o azul profundo do dia e preparar a noite
pintando verdes e lilazes
verdes e lilazes que você
e suas palavras
não serão capazes
de retratar.
é porque não cabe na poesia
isso que te escorre por entre as fendas
esse espalhar do doce que te preenche
espesso e viscoso manchando a calçada
não cabe você madura, quase decomposta
você aminoácida, você enzimática
orgânica disposta em tiras de si,
esses instantes-armadilha de paz
versos em forma de tempo que tapeia as dores
e te integra plena ao universo.
porque não é traduzível o que te vem agora,
contém o desejo de organizar palavras
brincando de deus com sua verve e lavra...
- e ainda que não sirva para hoje
lembra quando estiver perdida -
a poesia é anzol pra te fisgar pra feliz idade da vida.
sábado, 15 de dezembro de 2018
Das lições de Manuel*
![]() |
| Picasso, O beijo. Ilustração, 1967. Museu Picasso, Paris. |
Antes
não havia texto, só gastura
uma tortura de selar
com silêncio
um desejo semente:
meus lábios já sabiam,
dos teus, a textura
e meus olhos eram todos
ternura por seu olhar furtivo,
incrédulo e dividido
entre tomar o sabor da fruta madura
ou apenas emprestar um livro.
Suspeito mas submerso
o mútuo interesse se converteu em convite
para o suco e a conversa
para o vinho, para a praça,
a biblioteca, a cachaça.
Benditas as verdades ditas como simples versos...
bendita língua portuguesa à brasileira que ainda nos une.
Na madrugada avançada,
entorpecidos e dispersos
cravamos Bandeira, Lispectorando desejos
Camoniamos pelas horas feito Freires Marcelinas
mãos dadas com a lítera de Francisco e Ágda
e a tua e a minha
pássaros roucos e perdidos
no barulho da floresta.
Atou-se em nós o lirismo puro dos bêbados
para que você perguntasse e eu respondesse sorrindo:
"quer ler comigo, amanhã ou domingo?"
Repetimos muitas vezes, desde então,
sobre os mesmos versos, aquela experimentação
em diferentes ritmos, com distintas sílabas
nas manhãs raiadas e nas noites trôpegas
mesclando com distância, sorrisos e lágrimas
o produto mais preciso e precioso de nossas bocas.
Beije-me de novo, meu bem,
física e virtualmente
que eu te beijo também,
beije-me em casa e beije-me além
escalavremos com músculos
antes ósculos que poemas
porque as palavras
as palavras não bastam.
Benditas as línguas que desde aquela noite
vibram em versos e intertextos
de saliva
pondo a sua pele em brasa
e a minha carne
viva.
*Para Vitor, um ano depois, pois que"os corpos se entendem, mas as almas não".
terça-feira, 20 de novembro de 2018
No ventre blue de minha mãe
![]() |
| São Paulo. Imagem disponível em https://pixabay.com/pt/brasil-edif%C3%ADcios-cidade-cityscape-1842205/ |
enorme e disforme útero blue.
Jovens descolados
ainda andam sós ou em bandos
ainda falam alto ou fecham as caras
cheios de certeza de que o mundo lhes serve.
Reconheço artistas, ambulantes, moradores...
Da rua
em cada esquina do Jardim Paulista
o cheiro de marijuana e tabaco,
marijuana e incenso,
marijuana e marijuana,
se instala e atravessa minhas narinas:
Ali um par de motoboys no almoço
Lá dois barbudos com coletes sujos e pesados de couro
Aqui um rapaz com camisa de clube e duas meninas.
Observo o augusto desfile
das mulheres elegantes, homens despojados
Rumo ao Centro e nos limites da Liberdade
se me escancara a realidade de cada um
disputado ou negligenciado
por igrejas, igrejas, igrejas
e sinagogas e centros e mesquitas
e partidos e lojas
e lojas
e lojas
onde curiosamente se empilham
cruzes, elefantes, olhos gregos e figas...
sim, há ainda fé, fragmentada, diluída
como há o eterno aviso de "não toque"
nas antiguidades, nas jóias.
Há arte invisível em todo canto
enquanto os olhos colonizados
são atraídos para o anúncio de quinze metros
da nova série de garotos brancos
do serviço privado de TV.
São Paulo é essa pilha de desejos
vivos, toscos, ocos, secos,
depositados sobre objetos e objetos e objetos
mais sagrados que os corpos abjetos
que se estendem com vida
e frio
e fome
pelas calçadas
aqui
ali
e lá
sob as marquises da Paulista.
O semblante cansado
ainda predomina no metrô
inúmeros cristos crucificados dormitando de pé
pendurados pelas mãos
pregadas para o alto
no trem que se arrasta
vagarosamente sob a chuva
para a zona leste.
Crendo-se o sangue desse imenso nada
a imensidão de corpos mansos e amansados
segue feito um rio de gente pelas escadas rolantes
escorrem sendo o sumo da cidade menstruada
líquido aborto,
do suor o sal, extraído, excluído
vertido nas linhas amarela,
azul, coral...
Milhões de vidas contidas em vagões e caixas de cimento
árvores maduras voltam seus galhos aos céus
descobrindo-se incapazes de retirar, da luz, seu alimento.
Flores de resistência rosas e amarelas
são pisoteadas nas calçadas
nas manhãs de primavera,
mas em qualquer estação
tua cor segue cinza São Paulo,
nas ruas e calçadas e muretas que resistem
enegrecidas pela tua
"anticorrupta e moderna" poluição.
Eu, tua filha ranzinza
retorno, vejo, fujo
pois muito te amo mas também odeio
e sigo não desejando teu doentio seio
E sigo dizendo que te quero,
minha Sampa,
mas não te quero não.
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Desfazimento
![]() |
| Turner, W. Vapor sob tempestade de neve. 1842. Tate Gallery, Londres. |
eu à deriva
as ondas são pessoas ao redor
muitas
ondas
por vezes um vento sopra ao longe
uma moça grita e tenho a ilusão de companhia
alguma
alguma embarcação se aproxima?
ninguém se aproxima
coisa nenhuma
o navio se afasta em busca de seu irmão
sou deixada ali,
e não precisa explicação.
naufrago na chocante realidade
da solidão acompanhada
a completa descomunhão
descomunicação
conflito tempestuoso pelo destrinchar
de más palavras
ele se afasta
observo e inventario os danos
respiro mas piora:
não há engano.
mantenho-me fixa nos calcanhares
nada mais do que o vácuo negro
do palco futuro me olha
o ruído ao redor torna todas as coisas
todas as coisas
todas
inaudíveis
eu digo
eu grito
mas não haverá embarque
o vulto se afasta
e se perde,
desfeito vira ilusão
no horizonte.
eu à deriva
tomada da realidade que me traga
as ondas são pessoas ao redor
não há engano
é dano sobre dano sobre dano
e lentamente meu coração naufraga.
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Há cura*
naquele dia
o sol sorria beijando as ruas
as árvores as casas
as mariposas nuas
os beija-flores inocentes...
e aquele convite quente
para a abrir as asas
deixou seu coração feliz
sem muita razão.
naquele dia
provisoriamente deixou de lado
a maldade e a solidão dos outros
a hipocrisia e a fome no mundo
o escuro do medo
do inferno, o fundo
despiu tudo que lhe feria
olhou-se no espelho
o que queria.
para definir aquele insight
não havia palavras no glossário
gargalhou do sofrimento autoimposto
botou a melhor expressão no rosto
"há que se inventar novo vocabulário"...
escolheu um vestido estampado
e saiu feliz consigo mesmo
sobre o primeiro salto
para fora do armário.
*para todos os homofóbicos de plantão, com um beijo.
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
In communication
| A lua, uma noite dessas, no bairro Murilo Teixeira, Boa Vista. Por Elimacuxi. |
"é cada um por si, na sua própria bolha de ar" Tiê
ontem a noiteenvolta em sonhos
de medo e prejuízo
dormi profunda
e docemente acolhida
desperto admitindo os vermelhos
e azuis e roxos
dessa estrada
de fato
permita que eu te afete
e sonhe e sonhes
comigo, contigo
colagem de complexa harmonia.
é um lampejo a forma
como em ti
me vejo
como traduzir minha certeza
de que não existe palavra nua?
e viva na lembrança
do seu beijo
a esperança atua:
minha bolha tocou a tua?
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Esvaziar
quando por algo me esgoto
e as mágoas não se absorvem no solo
de tristeza me emboto
e dura e fria vou direto ao outro pólo:
porque sou dupla e entre duplos me esboço
sol que brilha no resto de chuva, na poça,
lembrança de quebrada promessa
seriedade de criança fazendo troça.
e à semana que inicia já pesada
com reunião e falsidade que, no entorno
foi, por quem pensa ser correta, semeada,
entrego o resto do que sou, um resto morno
a física presença, de meu ser esvaziada.
é meu corpo quem me grita meus cansaços
quando a mente se despede e se despende
num tropel raivoso de pensamentos soltos
e nessa hora, ao fim da estrada, busco pouso
e tudo o que desejo é abrir meus braços
pra me perder no vão de braços outros.
e as mágoas não se absorvem no solo
de tristeza me emboto
e dura e fria vou direto ao outro pólo:
porque sou dupla e entre duplos me esboço
sol que brilha no resto de chuva, na poça,
lembrança de quebrada promessa
seriedade de criança fazendo troça.
e à semana que inicia já pesada
com reunião e falsidade que, no entorno
foi, por quem pensa ser correta, semeada,
entrego o resto do que sou, um resto morno
a física presença, de meu ser esvaziada.
é meu corpo quem me grita meus cansaços
quando a mente se despede e se despende
num tropel raivoso de pensamentos soltos
e nessa hora, ao fim da estrada, busco pouso
e tudo o que desejo é abrir meus braços
pra me perder no vão de braços outros.
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