"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

 
quando o coração me vem na boca
já não é pouca a emoção que brota
o amor, a gente sabe, a gente nota
quando é faísca e já quer se espalhar
e há um terreno, um campo em que,
se ele nasce
não tem mais freio, não se pode evitar:
peito menino, pouco importando a idade
feito poeta é o meu jeito de amar
e eu bem sei: não tem conveniência
e eu bem sei o quanto ele pode arder
e eu bem sei, mas nada nada disso importa
quando me brota assim
um novo bem-querer.

Boudoir Noir

O lindo trabalho de Mel Masoni, da Revista Dénudé







Me resta a sombra do sabor
a cor de cada som
a textura do olhar baço
e o ruído do teu cheiro...

que memória te resta
do momento em que
minha boca
te abraça e te aquece
inteiro?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Salve a rainha


Salve a rainha o silêncio e o mistério
salve o calor de sua energia
salve a rainha da água e do ar
salve a rainha, memória, magia
salve a rainha dos povos da mata
salve a rainha que da vida trata
salve a rainha que sabe, conhece
salve a rainha que a tudo enobrece
salve a rainha que vive encantada
salve a rainha que veio, chamada
salve a rainha raiz céu e chão
salve a rainha luz na escuridão
salve a rainha que serve-se pura
salve a rainha que é cor, som, textura
salve a rainha que toca e que cura 
salve a rainha força e resistência
salve a rainha da sã consciência
salve a rainha mãe da própria lei
salve a rainha que vive sem rei
salve a rainha das selvas e areias
salve a rainha
que sou
e sereias.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Des-pre-tensão

Imagem originalmente postada em biscatesocialclube.com.br

Com quanta graça e força
a vida, essa coisa torta
me atira assim, meio morta
nos teus meio-mortos braços.
E logo, sem embaraço
um lago que à alma afaga
nos lava e nos desafoga.

Os sustos desaceleram...

Esse instante que associa
pele, pulso, poesia
- desses que nem se diria
disponíveis hoje em dia -
com toda sua energia
nos tirou medo e cansaço,
desmentiu as leis do espaço
do dia sacou as horas...
felizes nós caminhamos
entre jovens e senhoras
e um dia
valeu por anos.

Sensíveis, desassombrados
nos cedemos solidários
sedentos e solitários
a saciar nossos cios
e eram tantos desafios
saudades, dores dementes
pecados impenitentes
cansaços, medos, enganos...
os lençóis formaram ondas
de um mar branco e bravio
onde juntos navegamos.

De lado muito trocamos
os nossos dois corpos lassos
e tanto fez o ar escasso
tanto fez se par ou passo
seriam a consequência:

com a doçura desse abraço
destroçamos nossa ausência
quebrando com o descompasso
da nossa (im)própria existência.



segunda-feira, 30 de novembro de 2015


ah essa madeira
se fincou no meu pescoço...

e em mim, refaço
(memória que se reforça)
essa coisa
de carne e osso:
tanta energia
num só abraço.

domingo, 29 de novembro de 2015

Pra quê vale a poesia?

Quando eu era bem pequena meu pai se orgulhava de me ver decorar as longas letras dos sambas do Moreira da Silva. Depois ele me ensinou a ler com um gibi do Pato Donald. Daí fui pra escola e descobri a poesia nos livros didáticos. E a coisa nunca mais parou.

Consumi vorazmente o que me caiu na mão. Alguns versos ainda estão gravados na memória, tantos anos depois: "Essa menina, tão pequenina, quer ser bailarina"; "A lua foi companheira, na praia do Vidigal, não brilhou, mas mesmo oculta, nos recordou seu luar...", "vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar..."... Ah... o tempo me trouxe muitos nomes, mas os brasileiros foram sempre a preferência. E dois portugueses, o Pessoa, que não sei bem porque na minha cabeça era o mais antigo, o pai de todos, e Camões, com seus sonetos. O discurso em verso nunca deixou de existir na minha vida. Lido, depois escrito.  

Acho que foi lá pela quinta série que eu conheci a Rita Bonfim e a Cibele Pereira. Elas gostavam de escrever. Com Cibele, eu compartilhava o diário. Com a Rita, numa lógica meio competitiva que eu herdara das cantorias de repente nordestino ouvidas em casa, comecei a fazer meus primeiros versos. Foi por ali que observei o poder terapêutico dessa prática. Com o passar dos anos, fui observando que, com a escrita, eu me escrevia, fazia-me poema, obra de arte para meu usufruto. E de quebra teria esse mundo meu, esse duplo, onde poderia fingir tão completamente que me permitiria sentir a dor da dor que deveras sentia, poderia me consumir nas horas em que não era consumida, pura mão de obra, pura carne crua a velar pela riqueza de outrem. 

Nesse contexto, muitas vezes ouvi e me perguntei: pra quê vale a poesia? Uma vez escrevi no meu diário, 1988: "adoro literatura, estudar a língua pelo que os poetas escreveram sem esperar que isso acontecesse com o que eles botaram no papel. Hoje eu estudo Florbela Espanca, será que um dia alguma coisa dessas que escrevo, meu bem, poderia ser estudada assim? HAHAHA, que bobagem!".

Era isso, a vida não dava muita chance, eu não esperava da escrita muito mais do que uma forma de me construir, tijolo a tijolo, como um porto no qual eu pudesse me esconder nas horas vagas. Observo que há muito de ego no desejo de ser estudada. Claro que eu queria ser famosa, importante, observada pela qualidade do que eu escrevia e do que eu era capaz de sentir. Quem não sonhou com coisas grandes aos quinze, dezesseis, viveu essa idade? Mas o desejo era totalmente embotado pela pessimista consciência de realidade: eu era uma adolescente mirrada, sem sorte pra conseguir trabalho, estudante noturna em escola periférica, a 'filha do lixeiro', cheia de irmãos menores. Ser escritora? Poeta? Faça-me rir, dona Eli. 

A vida passou, a poesia nunca. A falta de pretensão e a popularização dos meios digitais explicam a divulgação relativamente tardia da minha escrita, via ebook, depois via blog e depois, bem depois - e por insistência de amigos - via livro. Nunca achei que, num país de gente que mal tem o básico, a arte literária pudesse me valer mais do que me fazer a mim mesma. E embora hoje eu veja muito mais gente lendo/falando/ escrevendo poesia, não tenho certeza se isso mudou.

Mas hoje vejo minha poesia figurar como objeto de estudos de pós-graduação e conclusão de cursos de letras (que eu frustradamente não fiz). Vejo versos meus sendo fruto de questão de vestibular em duas instituições públicas do estado de Roraima, que eu amo tanto. E essas coisas me fazem voltar atrás... é impossível não observar com surpresa e gratidão que, naquele diário que eu chamava de 'meu bem', eu estava certa e errada. Sim, a poesia continua sendo só um jeito de me escrever e se tem gente que gosta é porque se vê no que escrevo e nesse movimento eu me vejo de volta, num exercício de humanidade. Onde eu estava errada? Eu tive sorte e não contava com isso. Admito, não sem uma ponta repreensível de orgulho: não era bobagem o meu desejo de um dia ver a minha escrita estudada. 



 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Cólera dos deuses?

Eram uns olhos grandes,
uma boca grande, 
uma simpatia... 
Eram amigos comuns, era casa e bar e praça, água vinho cerveja cachaça, 
era choro e alegria... 
Era uma noite escura, a dança, o copo, a fumaça, era'studo e boemia. 
Eram livros e trabalhos, filmes, discos do caralho... era pura poesia. 

Foi assim que o terrorista invadiu o nosso peito, 
cheio de bomba o sujeito jurava que se explodia. 
Foram mãos e pés e línguas, saliva e choro e suor, 
foi entrega de cativas, foi loucura, 
é amor.

Era um bolero ou um samba? Ao vivo, na corda bamba, eu disfarçava e sorria. 
As pernas entrelaçadas sob a mesa na calçada, tu sabias, eu sabia.
Fosse em dupla, em bando, em trio, nada em nós era vazio, tudo tinha uma razão:
a verdade nos guiava, nossa pele nos guardava, fomos tema de canção.
Tu sagitário e eu câncer, um ariano, um romance e um judeu na contramão
a distância e o fogo amigo,
as lembranças, o perigo, 
as horas naquele chão... 
um bolo de chocolate, feito a cor da tua pele pras formigas da minha pia
e nós dois entrelaçados feito dois astros dourados na noite que se perdia.

tanto faz se dez ou vinte
quantos anos se passaram desde que te conheci?
eu nem sei o que já era, sei que tu, há muitas eras, já estavas bem aqui
dentro em mim, feito eu mesma, me doendo e me curando, como só eu sei fazer,
sei bem desse reencontro
desse amor que já vem pronto
com mil começos e fins
sei do destino marcado 
nos nossos nomes trocados:
tu martins e eu martins.  

(Feliz aniversário, Aguirre, cólera dos meus deuses. )

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Provocação

então vem maldita
pode chegar
vem assim toda cheia de si me maltratar
não são nem seis horas
e hoje é segunda, sabia senhora?
vem assim tripudiar sobre minha solidão
vem se fazendo de amiga
como se quisesse só me iluminar
exibindo na carne a sombra do seu amado
que nunca está em você colado
mas é raro quando de ti consegue se apartar
vem maldita me lembrar
que eu estou sozinha e esse céu largo
é todo seu
vem se vingar do tanto de foto que eu tirei
quando você, vermelha
viu a Terra devagar passar por ti
como uma loura na balada passa,
entre atrevida e folgada
provocando um casal...
pode vir, regente do meu mapa astral
joga teus raios brancos nessa minha pele
que eu só te enrosco num abraço daqueles
e te faço minha amante na noite que se inicia
veja a cor que me cobre e descobre
maldita
com quem foi que eu passei o dia?


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Quedas da lua*

Estou aqui porque me obriga a vida
e os olhos reabrem apesar da ferida
da lua tantas vezes despencado
sem palavras, sou um poema mal acabado
e se o derradeiro verso ainda não foi dito
que venha mais praça, mais vida vadia que me abraça
mais cachaça, mais frio e calor e cansaço
e queda
tanto faz se a rima não arremeda
o que antes existiu e agora findou
como o dia que nasce,
voltará a noite
essa que eu cubro de amor
pra que me acoite
até que a poesia se faça completa
e eu morra e finalmente
seja estudado e amado,
considerado "poeta".

*Uma resposta para meu parceiro e comparsa, Roberto Mibielli.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Do mal que nós fizemos*

Eram duas, a carreta passou por cima
 - mata esse filha da puta!
se aparecer por aqui vamos fazer justiça...
(na praça
as meninas brigam por macho)
 - sorri banguela agora, ladrão sem vergonha!
Eu deixava sangrar até morrer...
Vai apodrecer na cadeia, vagabunda!

E por ali
os porcos selvagens invadem
muito mais que prefeituras e casas do interior.


* Quase nunca explico os poemas, mas esse merece. É a respeito da página "Atrocidades em Roraima", que no Facebook, se pretende site de notícias/mídia. Uma página que asquerosamente comete crimes como plágio, não respeita as famílias de vítimas de acidentes, divulgando vídeos terríveis, espalha imundície e dor. Os versos são adaptações de comentários e manchetes. É terrível que se consuma tanto esse tipo de conteúdo pernicioso. Em minha opinião, algo assim deveria ser denunciado por quem de fato valoriza a vida, o bem comum, a civilidade, a justiça. 
O que mais vamos deixar invadir nossas cabeças?