"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 10 de novembro de 2015

O mal que você fez - ou carta para o "SD Quadros"

Estou aqui, olhando para o quadro de horror pintado por você, que  começou surpreendendo a família que se preparava, na segunda-feira, para mais um dia de trabalho...

Sabe, a menina que jaz agora num caixão ainda vive aqui na minha memória. As faces rubras no momento de uma brincadeira. A voz sumida, apagada por tanta timidez. O olhar carinhoso, o esforço por aprender. Também vive noutra imagem, quando nos encontrávamos antes de sete e meia da manhã no estacionamento da escola, ela no volante, deixando a mãe no trabalho. Vivia estudando e se especializando, cheia de planos de como fazer melhor o seu trabalho. E enchia a mãe e a mim, sua amiga, de orgulho: sim, nossas meninas cresceram. Ela, a mocinha, era mais um dos elos que me irmanava à sua mãe, já tão querida por mim, Me despedaça pensar que foi ao volante que ela viveu seu último momento...

E o pai dela, esposo da minha amiga? Um homem amoroso. Companheiro na acepção da palavra: gente que faz companhia, que apoia, que dá suporte. Companheiro desses que não se talham facilmente por aí. Ele tinha agora duas filhas encaminhadas. Uma formada e outra acabando de ingressar na universidade... Apoiava a esposa no estudo do doutorado... Você não sabe o que é isso. Com base na minha experiência pessoal, imagino os planos que ele tinha... filhas criadas, uma esposa linda, inteligente, amada... a vida finalmente mostrando os resultados de todos os anos de luta empreendida. Provavelmente iria se dedicar mais a si mesmo, cuidar da saúde, sendo fiel, como era, à sua fé e à sua esposa. Viver "só a dois" de novo, talvez. Ser feliz até o fim. Quem não o esperaria? Seu amor estava lá, nas ações pequenas, como, tão cedo, fechar o portão para a filha que saía para o trabalho. E foi assim que você o encontrou, não foi?

Outra coisa que você não deve saber, na sua juventude cheia de coisas por fazer, é o que significa ter ter duas filhas criadas. Duas filhas competentes, comprometidas, saudáveis e alegres que, apenas por existirem dessa forma, reforçam o amor que você sente por si mesmo, pois recordam a cada momento o quanto você foi capaz de renunciar para construir aquela beleza.

Você certamente não sabe o que é ter tido um companheiro nesse tipo de empreitada, enfrentando inúmeros obstáculos para chegar ali. Alguém escolhido na tenra idade e com quem se firmou um compromisso de cuidado mútuo, cumprido no decorrer cansativo de cada hora, com fé e sobretudo, com amor. Você certamente não sabe também o que é casar-se com uma mulher e ter com os filhos dela o cuidado amoroso de um pai. A palavra padrasto nem deveria ser usada nesse caso. Eu conheci um desses, bem de perto e a palavra que mais se adequa a quem faz isso numa sociedade tão machista e negativa é AMOR e não padrasto. Mas amor é algo que você provavelmente não sabe.

Você, tão jovem e tão cheio de coisas por fazer, provavelmente não sabe o que é ter uma irmã/irmão mais velhos, muito amados, que te servem como modelo. Não sabe da alegria de dividir a cama, a barraca no acampamento da igreja, os brinquedos, os jogos, os amigos, os álbuns de figuras. Não sabe o que é compartilhar os momentos de crescimento com os sonhos, os medos e as angústias que ele traz. Provavelmente você, tão jovem e tão cheio de coisas por fazer, não soube o que era compartilhar com alguém muito íntimo o amor e a gratidão pelo empenho de seus pais para que você se tornasse o que é. É isso, você provavelmente não sabe o que é a dádiva de ter, em casa, uma irmã que é também sua melhor amiga. Elas, as meninas da minha amiga, antes de ontem, tinham.

Desde ontem, quando você resolveu visitar aquela família de amigos e ao padrasto de um outro amigo, sinto que meu corpo ferido foi jogado num tanque de ácido. Respirar dói. Olhando seu sorriso bonito e sua juventude, suas postagens 'se sentindo tranquilo' nas redes sociais, sinto que você não tem noção alguma da extensão do mal que fez. Olho para você, para o tremendo quadro de horror que você construiu, para sua fuga, para seu posterior 'medo' e 'entrega'. Posso estar cega, mas não vejo nada que não tenha sido planejado. E me é familiar tudo isso: já vi inúmeras vezes no cinema, os psicopatas agem assim.

Hoje amanheci destroçada. Sem dormir, não acordei. Peço perdão aos meus leitores do blog, não há pretensão de poesia aqui hoje. Porque hoje sou só dor e desespero. Não é só comoção barata por três pessoas assassinadas, motivada pelo espetáculo da TV, que eu tanto desprezo. É o desespero de ver o ódio se espraiando, incontrolável, incontornável, atingindo cada vez mais as pessoas que eu amo. De ver o ácido me cobrindo e de estar perdendo, com tanta dor, a pouca lucidez que me sobra.

Como não me ferir quando tantas, como eu, são vitimizadas por violento desrespeito? Quando tantas mulheres como eu perdem a vida nas mãos de gente que foi gerada por outras tantas mulheres como eu? Quando tantos pensam justificar o injustificável, 'informando' que a tragédia "foi motivada" por ciúme?

Infelizmente, ao contrário do que ocorreu com a vida de Jannyele, Eliézio e Ernani, esse post e essa dor, por ora, ficarão sem fim.

sábado, 7 de novembro de 2015

Reescritos

Fotografia de Michal Macku. In: http://www.michal-macku.eu/

Palimpsesto é nossa história
Incômoda nossa antropofagia
Rótulas no chão
Embriagados de poesia
negamos os rótulos
rastreando com os poros
cada fluido
desse desejo bem resolvido

por segundos que duram séculos
simplesmente somos
 - sem metas nem diretrizes- 
isso que tanto assusta
nesse mundo desajustado:
absolutamente felizes.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Silentes*.

Duas mulheres dançando no Moulin Rouge (Toulouse-Lautrec, 1892). Óleo sobre papelão, 80 x 93 cm. Galeria Nacional em Praga, República Tcheca.
Nada vai explicar
o gosto
dessa pele na pele
o ritmado encontro
nosso complexo paradoxo
do sou não sou
mas quero
mais quero
mais quero...

toca o bolero
esquecemos os chavões
e unidos pelo som, o suor,
o sorriso
aceitamos que o desejo
é conciso
e não é preciso
pedir explicações.

*Para Aguirre.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Quase cinco anos

move-se na cegueira branca
atordoado e dividido entre as faces
desse monstro

(o dia
não se suporta
e as tripas denunciam humanidade
afogada na presença de tamanha ausência)

lava o rosto, as mãos, o resto
e leva certa a crueza torta
que pior que morrer
é assim
de saudade andar morta.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

De pôr em perspectiva.














Vai ver que é isso
dúvida lapidada e envolta por uma certeza única
da qual não se escapa.
É um tapa, uma festa imprecisa e bela
na qual você não se lembra de ter entrado
porque enfim não entrou -
alguém te pôs

e depois
tens todo o tempo pra esquecer dos fatos do patético início:
ser alguém... vai ver que é isso,
uma sucessão de atos
de desesperada auto-afirmação

então
um evento ordinário te cansa do afogamento diário
e já não iludem como deveriam
os sons gentis e as luzes refletidas...
a vida
vai ver que é mesmo só isso que a alivia:
a lembrança dura
da antiga carne, antes querida,
sob a terra, desfeita ou ressequida;
a certeza de uns resistentes ossos
e a perspectiva do ócio
de futuramente
fazer-lhes companhia.



domingo, 20 de setembro de 2015

Domingo de sol

me abono com abandono
me desleixo, me deixo.

é tudo chama e fumaça
tudo fede solidão e cansaço

embora ainda haja mosquitos impiedosos
que me passeiam
na lembrança da carne.



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

 “Pes(o)soa de Carne e Osso” - de Santiago Cão. Foto de Juan Montelpare. 
Disponível em http://arteseanp.blogspot.com.br/2012/06/conversando-sobre-arte-entrevistado.html.

A carne, ainda viva,
pulsa pedindo piedade
acumulam-se sob a pele
dores, quilos, raivas, medos
no enredo
pegadas de sangue
postes, putas, proezas perenes
paisagens pregadas na retina
trabalho, flores, gatos, horas, dias...
nada,
ninguém é refúgio

no escuro de dentro
que o sol não respeita
a carne grita crua
que o deserto
sou eu.

sábado, 12 de setembro de 2015

Brincadeira




















Era arrastada pela criança pelos cantos da casa
jogada pra todo lado
as cores de origem perderam a vida
encardidas...
"essa sujeira é a memória
de todas as brincadeiras"
- pensou-

sentou-se na calçada em frente à praça
a boneca no colo, quase caída em desgraça
e pareceria calma,
não fosse o susto
estampado na cara
apertando-lhe o peito.

trouxe consigo pano, agulha e linha:
(um comprimido aqui,
uma fotografia ali,
um abraço lá)

seria preciso esquecer do tempo
por isso lavaria a memória com muita poesia
e em breve - era a esperança que tinha,
surgiria de suas próprias mãos
a boneca reformada:
já tão velha
e tão novinha.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

Ônus do onírico

Era pesada a bagagem e íngreme a estrada
precisou descansar
fechou os olhos e quando abriu
era mistério
por onde seguiram todos?

completamente só.

sabia intimamente que não deveria mais estar ali
voltar atrás não era opção 
seguiu puxando atrás a maleta azul
a um estranho pediu ajuda, 
e colheu seu sorriso frio 
como a chuva que se aproximava. 

o coração acelerava, buscando, em vão
chegar ao outro lado da estação.

através de grades altas
viu os trilhos transformados em leito de rio
e as margens lentamente se desfazendo em lama
acima, na colina
viu colunas fúnebres muito altas e coloridas
dispostas como num tabuleiro de xadrez
e não parou um só instante
de caminhar freneticamente pelo piso
que estreito
negava-se progressivamente aos passos.

Desceu e subiu por escadarias enferrujadas
sem tirar os olhos do outro lado
já não tinha bagagem 
embora nas mãos descobrisse umas moedas
e nada, nada, nada que tentasse
lhe permitia atravessar
para onde sentia que deveria estar.

Quando a desorientação pareceu completa
e não era mais nada, nem peregrina nem poeta
pereceu para o pesadelo
e ingressou, 
suspensa e triste
noutro dia.

Cemitério guatemalteco
 http://www.panoramio.com/photo/349358








segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Consciência e descontrole

antes fosse a consciência do descontrole da vida
essa ânsia assim sentida como uma lança contra o peito
mas não é desse jeito...
para mim, que gosto de gatos
nunca foi mistério
que as nuvens não despencam porque quero
que as pessoas vem e vão, sozinhas
cada uma por suas próprias razões comezinhas
e que um jardim abandonado será como um cemitério.

sonhos mudam
tão rapidamente quanto a paisagem celeste
a flor de ontem hoje é só fibra ressecada
a dor de hoje em breve provocará risada
pois tudo é finito, o amor e a peste

entre tanto, o hoje:
ainda posso erguer ou baixar os braços
oferecer ou negar abraços
correr, gritar, ouvir, calar
mas simplesmente não quero .

O desejo,
tantas vezes comparado com a matéria em brasa
é de fato incontrolável
e quando desaparece
é que mais me arrasa!