"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



domingo, 28 de junho de 2015

Há tarefas que se misturam
na queda da tarde de domingo
o bem-te-vi segue roubando a ração das cachorras
o céu está azul e a pilha de trabalhos se eleva ao meu lado
e eu penso que tanto azul não cabe em mim meu deus!
e essa terra toda e essas flores todas
esse domingo inteiro que me implode
nesse olhar pra dentro que impávido e certeiro
se despeja destruindo cada gota de esperança
sigo
dando por dissecado,
cada passo.

Não se restauram em mim os tendões partidos
algo perdido longe longe longe...
meu deus sabe onde, meu deus!?

E não foi vinho nem cachaça
não foi lua nem desgraça
não foi rua acesa, nem ferida aberta
não há explicação pra essa lágrima presa
pra essa alma completamente deserta.

Morre o domingo lentamente
e é esse puro azul quem me arrasa.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Carta pra mim²

Completa, com Flávia, durante o Sarau da Máfia do Verso,
Sesc Amazônia das Artes
















não

nem "otária" nem "bestinha"
nada disso, não.

- isso é coisa de gente comezinha
coisa de gente tão gentinha...
só se afaste!

olha a haste erguida
da generosidade
empenho, entrega
coisa de gente de verdade
não te nega
é coisa tua.

esquece a rede, a rua,
busca no recôndito do teu peito
nas entranhas da memória
nas nesgas cavadas em tua pele pelo tempo
no fundo dos olhos fechados

porque é ali que arde,
selvagem e inquieta
a arte de ser você
completa.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

No médico.

Te explico
eu mesma diagnostico
essas dores
que ando sentindo:

Ultimamente,
entre o céu e o nada
nada me anda
e eu parada
ando verde,
presa,
incomunicada...

muito
muito só.

terça-feira, 19 de maio de 2015

quando você não vier
farei festa com o que tiver
se for de comer eu como
se for de beber eu bebo
se for de dançar eu danço
não vou me acanhar amor
quando você não vier
ainda não farei silêncio
se for de gritar eu grito
e se preciso eu sussurro
se for de afagar, afago
se for de lutar esmurro
vento, tempo, luz, calor
livro, TV, bola, balé
qualquer coisa vai valer
quando você não vier

domingo, 17 de maio de 2015

Tem tatu na linha

tão tu e eu
esse tanto de tititi
tu tá?
eu tô
tu teu e eu
tua tua tua
tu tá?
tudo tanto...
tantãs tocando no fundo
tipo, tamo aí
eu e tu...

taria tudo tão no tom
quando eu dissesse seu nome
mas só ouço tututu
se chamo seu telefone.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Fênix

Então que viver deve ser mesmo
esse ir-se desesperançando lentamente rumo ao nada
em fiapos.

Eu, que não nado,
não nasci a fórceps
me afobei desde sempre
e sigo assim mesmo
enfaíscada
faço festa nas bordas
farreio com as farpas da vida

francamente
fiando,
afiada.

Afogada em frases refeitas
ora feliz, fatal, fortaleza
ora fúnebre, à falência,
fodida
sigo


até que, por fúria ou febre
fraqueza ou frio
funesto fato qualquer
à força
uma hora me finalize.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ausente

Quando eu era criança sentia falta demais da minha mãe quando ela ia na maternidade buscar mais um irmão. E foram muitos, alguns nem vieram.

Um dia os sustos tomaram forma de provas de matemática que era aquela linguagem de gente que sai do recôndito da terra e nunca, em nenhuma geração passada, havia se voltado pra mim.Jamais comunicamos, eu e ela e nos assombramos mutuamente por anos que pareceram eras. 

Eu me rebulicei, tronxando as coisas que não cabiam até caber, fui extrusando o que era e foi estranho pertencer ao grupo e não ser ninguém. Estranho ser alguém no fio da faca, "aquela deusa?" "aquela vaca?", não foi tranquilo. Suave, não. 

ah como doem 
essas flores murchas
essas rugas toscas
esse tanto atrás

Não sei como nem porque vieram esses fantasmas habitar o paço e a sala e o jardim. Nem sei se sempre estiveram pela casa, à espera de um suspiro que me sacasse o que de mais perverso havia no fundo. Me alicerço no ar, não sei como nem porque se instalaram assim. Os fantasmas. Mesclam silêncios e uivos, entrecortam o eco do peito sob essa chuva incendiária que retorce e esmiuça e escancara a carne desgovernando e desavergonhando ideia. Eles veem e revolvem a coisa toda. E vêm de fora, e vêm de dentro. E ficam.   

como doem 
em caminhos tantos
derramados prantos
na ausência da paz.



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Prisioneiro

tristemente
transitava feito um traste
coberto de trapos
trôpego

cravava os dedos e as unhas
na carne da terra
como quisesse salvar-se da queda
e estava no chão

depois seca os olhos
engole a saliva
ajeita gravata e bolsa
e sai falsamente altivo
abraçado ao ofício que lhe mata

- o que o desespera
é entrever que em si não há cura
para o imenso medo da quimera.




sábado, 11 de abril de 2015

Era uma enxurrada descendo a ladeira. E eu uma menina ilhada na calçada. Deixei que me molhasse e assim, quando dei por mim, estava casada: Para sempre. 
Ela é ciumenta. Fica amuada quando não a procuro, quer que eu a beije toda, todo dia, virgem Maria! como é dengosa. E não me dá prosa sempre que eu quero... Hoje não veio. Com uma lua dessas? Acerto em cheio que está vagando, fresca e vadia, noutras paragens. 
Ela é meu guia de viagens. Quem me consola quando angustia. Minha esposa. Poesia.