"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

CHATEADO

cerveja na mão, senta e tecla
apaga
e tecla
e volta a apagar

em volta música, uma
e outra
e outra

excederam linhas
numa lavra louca
pouco contido
o palavreado
tudo em coração transformado
transtornado mundo
livre de horror e cinismo

sem mirar o fundo
saltaram no abismo

domingo, 6 de outubro de 2013

livre

ela esbarrou na porta
frente fria invadindo a sala
nucas arrepiadas
olhares vertendo estupefação

a reação provocara um surto
o ar revolto quase tocara o chão

nem percebera o tornado
que se formara
colheu o copo com água como um padre reza benção
não despejou sequer uma gota de interesse
e saiu em silêncio,
com a alma nua e o corpo são.

sábado, 5 de outubro de 2013

não
nem tudo tão fofo
há palavra brita atirada na pele
há palavra sal na mucosa
do olho
há palavra fel destilada na papila
nem tudo fofo
nem tudo doce
nem tudo de amor cintila

mas quando teus olhos
colhem com ternura meus amargos cristais
pouco me importa se a vida dói ou desfaz:
embrigada de vaidade
eu gozo
e quero mais!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

dane-se
dane-se o que pensa
dane-se o que vê
dane-se o que se dana
nessa fresta, nesga
nesse entre
teu juízo
e minha fala
porque o que digo
pra mim mesma
vou ouvir
mesmo que seja
um sussurro desesperado
calando um berro de amor
e enchendo esse tempo de danos.

sábado, 28 de setembro de 2013

posted by Joe Nuzzolo, www.dali.com
e a ponto de explodir
você percebe então
que bancar a boneca inflável
não será solução
é esse silêncio que te vinca a face
te engorda e faz sumir
é essa boca fechada o que te mata
a fachada de quem se engana
sob luz de anulação

volte a gritar
criança mimada em corredor de mercado
para ser inteira
esqueça o outro e a gentil educação
que tudo rua
que tudo trema
que dance o chão

exploda pois você sabe
que ser a boneca inflável
não é boa solução.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Tecer e te ser

as palavras
feito pedras de sol
brilharam à exaustão

depois cansaram-se do excesso
sentiram-se soltas
sibilando sem razão

quase silenciosas
desfiam sombras
do entretecido coração 





domingo, 1 de setembro de 2013

Inveja da Barbie

bom é não lembrar
que se leva nada dentro
do corpo
bom é ser cabeça e ter
apenas os problemas que ela cria
quando o corpo começa
insistentemente
a dizer que existem
rim, pâncreas, coração
estômago e outras coisas intestinas
por um átimo me some a graça do amor
das meninas
dos gatos e cães
das rosas e camarões.

neste dia
sobre corpo concluo
que bom mesmo é ser vazia

domingo, 18 de agosto de 2013

Ré vertida*

é o verso inverso na canção
o acaso e o destino num refrão?
duas faces da moeda?
uma pedra no caminho?
e será o acaso um destino
que não se revela sozinho?
sei não.
mas caso o acaso seja
um destino que se enseja
antes da interpretação
não será o destino um acaso
em via de dupla mão?

*para Rodrigo Mebs

sábado, 17 de agosto de 2013

Revenge

ave!
uma chuva de olhos
sobre mim
ele pisava em ovos 
e eu soprava breves beijos 
por entre os lábios 
avermelhados

envaidecida
provoquei, me verti
na vaga do tempo veloz
voraz e sem valor
avalio
envileci.

fora vertigem
voo, viagem 
na avareza do instante
não me contive e vi
a vingança virgem
brotando suave no vento
e me valeu viver
por um momento
como quem vela
um inimigo inválido.

domingo, 11 de agosto de 2013

Do meu dia dos pais

Hoje é dia dos pais e eu, planta brotada, amanheci imersa em imagens, pensando e repensando o que sou...

Vi minha mãe, 
no distante oitenta e dois...
era um março? abril? era julho?
no meio da sala da avó
chorava a ida do pai 
tupi de quem herdei o orgulho
perdida raiz do que sou.

Depois,
há exatos vinte e dois anos atrás
num agosto
"mês de desgosto"
e "de cachorro louco"
não foi pouco o susto
quando o doutor me disse
que eram três bebês...

Ainda revi meu próprio pai,
naquele longínquo dia dos pais 
brindando com vinho barato
à minha barriga e seu conteúdo abstrato
(não havia caras nem nomes
nem lindas bochechas de apertar).
Num dia em que tudo foi susto
e dúvida e sombra e espera no ar
meu pai comemorava seus frutos
e os novos braços de sua árvore a brotar.

Saio do mar da memória
cansada de nadar
vou mexer no jardim: 
é domingo, o céu azul
flores novas, terra à vista
coisas que faço por mim.

A vida mais florida
rosas, gérberas, onze horas
e na manhã que parecia sem fim
ressoa a notícia: Geralda falecera.
Meu tempo pára.
Penso em minha mãe perdendo a mãe num dia dos pais,
penso na velha imersa em novos ais
penso na mais funda raiz que eu possuía
e que agora, quase sem função
nessa árvore cheia de galhos e frutos 
larga-se da planta para integrar-se à terra.

Revolvo o coração
as mãos sujas de terra e de lágrimas
por ela, por minha mãe e por mim
por meu pai, pelo pai de minha mãe, pelo pai de minhas filhas
pela vida, que assim sentida
tem-me algum sentido
mesmo quando finda.

Ainda chorando abro um sorriso
lembrando do sobrenome que eu tanto desejei
e que Geralda, minha avó, leva consigo:
Gozzo.