"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



segunda-feira, 14 de março de 2011

overdose de você

me estenda seu braço maduro
até que eu possa adormecer
e espalhe neste quarto escuro
a luz que vem pra me aquecer

e eu prometo nada, nada, nada
além de dormir em teu colo
e me sentir amada.
 
sacie a fome dos meus olhos
que se alimentam de te ver
intoxique os meus poros
numa overdose de você

domingo, 13 de março de 2011

13 de março*

Eu nunca esqueço desse dia:
a pequena aniversaria!
Ela, gigante sobre a mesa,
aplicando provas de destreza em língua portuguesa.

Em dias comuns
nos acariciava com sua língua de professora
carícias que valiam por minuciosa tortura...
e comparava Cazuza a Florbela
Russo a Drummond e Camões
e com essas estratégias surdas
espancava até a morte
minhas pretensões de desistir.

Foi ela
nos limites sufocantes da sala de aula periférica
quem um dia
me impediu de namorar à beira
e me jogou no abismo
infinito azul
da poesia.

e condenou-me à doce lavra
incontrolável vício
de burilar palavra.

* à Tomiko Oishi, eterna professora de língua portuguesa, onde quer que esteja...

sábado, 12 de março de 2011

obsessiva

tusso
tusso
tusso
a noite passa nessa bossa
o peito aperta
a garganta seca
palavras não saem.

altas horas
nem sono, nem poema
atormentado espasmo:
memória morena.

quinta-feira, 3 de março de 2011

De escrever

Semeio e colho no campo cheio
de palavras.
Cavo com as mãos
buscando dourado termo.
Espero que o lento fogo do tempo amacie
as duras expressões.
E depois de afogar vocábulos em água e sabão,
torcidos os penduro, enfileirados,
num verso varal.

Ensimesmada
construo-me na tela branca
completando com riscos pretos
o vazio à frente do cursor que pisca.

Trabalhadora
lavro, garimpo, cozinho, lavo
alijo-me do resto alojada nesta lida
bucando em mim
matreira caça que, abatida
tem exposta a própria carne.

Gota a gota
levo a cabo a trapaça que esgota a dor
e engasto na jóia a preciosa pedra que equilibra
vida e arte.
Precária existência compondo uma história:
minha intensa e exibida miséria.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

para meu amor distante

Da consumação da ausência anunciada,
cento e vinte dias passados.
Vida que voa e quando eu a via indo,
em ti fui toda desesperança.
outrora.

O agora
presente convertendo-se em passado,
futuro em presente,
e outrora
ah, a vida que tivemos!
refiro-me a ela como uma amiga querida
muito conhecida
distante e feliz
uma linda e distante conhecida...
 - naquela despedida
senti como se minha própria vida
estivesse indo um pouco pra longe de mim -

E se foram ligeiras as horas.
Por ora
tenho paciência comigo
com essa cara de quem quer abrigo
refletindo sóbria e solitária embriaguês

por ora
boto os travesseiros no sol e faço votos
de que o sol ignore o mar noturno
e nasça de novo.

por ora
sorrio, bebo, brinco
celebro a vida que ficou e essa saudade nova
invencível,
imortal!
Essa saudade nova que nem lápide com poema
nem beijo de morena
nem chocolate
nem cinema
podem apagar de vez.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

nem era junho
nem se amassava o barro
com as patas pequenas
nem gotas sem fim vibravam no ar antes da queda

sol rasgando solo
sol salgando a pele
rubra vontade
e olhos morenos

tudo seco sob o céu
sem fim
e mesmo assim
afogada
morreria

sábado, 12 de fevereiro de 2011

passeio de bicicleta

O sol
se pondo impunemente
com pressa e desprezo
nem se abalou
diante da queda
de meu rosto ralado na pedra
e do fim do que teria sido
o início
de um perfeito
fim de semana

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Furiosa

Eu não sei ignorar a raiva.

Implodo castelos
quebro cristais
derreto a prataria:
de tudo
o que de melhor
tenho,
desdenho.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ventania

voam encantos imprevisíveis
comoventes estranhezas
fixam-se marcos e mapas na pele
 - carícias suaves e pequenas violências.

taça após taça
a garrafa seca
o tempo passa.

fevereiro ferve sob novas exigências
férias fenecem
florecem novas falhas

a vida
ventania e vinha
infinito janeiro.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Com trata-se


Não espero astronautas
-não tenho tanto espaço-
Não busco bombeiros
- meu fogo eu controlo -
já nem quero professores
empenhados em me ensinar mais que a vida

estou à cata de um espeleógrafo
que busque detalhes secretos
recônditos escuros
que se abrigue nas fendas
em silêncio reverente
e faça das imperfeições de meu teto
interior
seu motivo de gozo e glória.