"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



terça-feira, 21 de agosto de 2018

Camatkarasana*

Louise Bourgeois, por Anne Leibovitz, 1997.

Conheci uma menina
que de tudo tinha medo
trovão, escuro, silêncio
tristeza, calma, folguedo
ela tanto se escondia
que já vivia em degredo:
conheci uma menina
que de tudo tinha medo.

A menina tinha medo
de se olhar no espelho
o medo doía em tudo
da cabeça até o artelho
tinha medo de correr
e machucar o joelho
tinha medo de amar
e conceber um fedelho
tinha medo de sair
e ser bulida por velho
tinha medo de facão
tinha medo de martelo
tinha medo do azul
tinha medo do amarelo
e temia as outras cores
o lilás e o vermelho
tinha medo de aprender
e tinha medo de conselho
tinha medo do diabo,
tinha medo do Evangelho
e como muito temia
e como temia a tudo
ela foi desconhecendo
a alegria do mundo
e foi se amofinando
de gente sendo arremedo:
conheci uma menina
que de tudo tinha medo.

Um dia a cidadezinha
onde a menina vivia
acordou cedo e com festa
quebrando a calmaria
a menina temerosa
perguntou: que sucedia?
e descobriu que um dever
naquela noite teria
pois que ali em sua vila
repousaria a rainha
e apresentar-se a ela
a todo súdito convinha.

Assustada a menina
sem saber o que fazer
amuou-se na escada
cheia de muito temer
como poderia ela
à rainha conhecer?
Que roupa ela usaria?
de que modo proceder?
como se comportaria?
que penteado fazer?
deveria depilar-se?
não dava pra emagrecer...
e se o sapato quebrasse
e se a roupa não servisse
e se à noite chovesse
e a rainha nem lhe visse?
e os ses foram crescendo
dentro do seu coração
as horas passavam e ela
ali sentada no chão
a perguntar-se: e se?
tomada de ansiedade
paralisada e aflita
diante da novidade
mais uma vez se escondendo
de gente sendo arremedo
porque era uma menina
uma menina com medo.

"Tenho de ver a rainha"
lembrou então, assustada
olhando naquela hora
para a poeira da estrada
e a menina correu
aprontou-se como deu
não se importou com o que quis
na roupa não tinha cor
porque só usava gris
e ao sair pela porta
viu que já não era cedo
mas sentiu-se protegida
na sombra do próprio medo.

Quando a rainha surgiu
pra receber saudação
a menina foi chamada
no meio da multidão
abriu-se o reino pra ela
que sem saber a razão
seguiu bem timidamente
olhos colados no chão.
Então disse-lhe a rainha:
"retire esse seu chapéu
e olhe na face minha
como quem olha pro céu
pensa que eu não reconheço
essa sua cicatriz?
mocinha, não há ferida
pra te impedir ser feliz...
chegue mais perto e beije
as mãos da sua rainha
e me ofereça o que trouxe
minha doce menininha."
A menina ainda surpresa
já não sabia a que vinha
e prostrou-se no lajedo
mirando sua rainha.

Tinha os cabelos compridos
o rosto seco enrugado
o corpo envelhecido
feito um tronco encurvado
mas o olhar dela brilhava
mais do que o sol no lavrado
e a menina, aquele instante
não pode crer no que via
pensou que estava sonhando
diante do que assistia.
A rainha disse: "ouça!"
e ela então ouviria
um som que lhe acompanhava
mas antes, nada dizia
era um rufar no seu peito,
seu coração que batia
e desse som, o milagre
a menina entenderia...

"Pode respirar profundo
pode se esquecer do mundo,
trouxe o que você procura
para todo esse seu medo
ansiedade e loucura
eu te revelo um segredo
tenho em minhas mãos a cura".

A menina olhou as mãos
engelhadas da mulher
que tocavam sua fronte
fazendo-a ficar de pé
emanando tanto amor
tranquilidade e leveza
que pela primeira vez
a menina viu beleza.
Daquelas mãos uma onda
de grande sabedoria
recobriu toda a menina
a iluminou e foi guia.
Foi assim que a rainha
que à menina acolhia
partiu em muitos pedaços
os medos que ela sentia
deixando-a plena de si
trabalhada na ousadia.

Ao perceber que a noite
já virava madrugada,
na velha que lhe sorria
a menina agradecida
sem então dizer mais nada
só se via refletida.

E muito tempo depois
quando veio me contar
a história que agora
eu resolvi repassar
a menina conhecida
que de tudo tinha medo
tocou também minha fronte
e me contou seu segredo:
que pra me sentir bem viva
pusesse meu medo à margem
e que seguisse serena
compondo nova paisagem
pra ter essa confiança
mesmo antes da ação
me detivesse ao rufar
do som do meu coração
olhasse minhas mãos de velha
me reconhecesse a cura...
como uma noite aprendera
quando então conhecera
a tal rainha em visagem
me ensinou a menininha
contra uma vida mesquinha
que paralisa e espezinha
há que se ter só coragem!


A todas as mulheres que, selvagens, partilham entre si suas estratégias de vitória sobre os medos.

*Camatkarasana é uma pose yogue também conhecida como Wild Thing, em que se abre o chakra da coragem.

















3 comentários:

Adilson Brilhante disse...

- Bonita fábula! Parabéns, Ely, pelo conto/poema.

A.

Rebeca Araújo disse...

Coragem!💟

ॐ lorena disse...

Lindo e encorajador, parabéns!