"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Sexuada.


Digo sim
porque quero, porque gosto quando gozo
ninguém dono desse corpo mais que eu
digo sim na noite clara
de segunda
digo sim com minha cara e minha bunda
digo sim com meu sorriso e poesia
sou do tipo que aboliu o não pro sonho
sou do tipo que aboliu o não pra si:
se o que há é só carinho -  e eu desejo -
não me nego de fartar-me, dou sem pejo
e isso é direito meu, eu bem suponho.

Se incomoda o meu querer, é por ser livre
das amarras que quiseram me meter
o meu corpo é meu inteiro e nele vive
livremente o meu sexuado ser.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016


eram turvas as águas,
havia restos de plantas
e sabe-se o que mais
no lodo do fundo.
era imundo
embora a luz brilhasse na superfície
embora o sol convidasse
embora tudo deixasse tão rapidamente
de fazer sentido.
respirou em cada poro
conscientemente incontido
despudoradamente corpóreo
enlevado de desejo e sombra
e jogou-se.

e ainda voa
quando o vento bate
na pele fina da lagoa.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Vício de aço*.

eu não sei se dopamina
se serotonina
e pouco me importa
é um tipo de imã
a atrair pra outra órbita.

e tudo bem que me impeçam
o tempo e o espaço
tudo bem que isso passe
nada disso me é fracasso
nem pode me liquidar

pois sucesso na vida, pra mim
é sim
ser capaz de sempre
me reapaixonar.

*A respeito de um TED Talk com Hellen Fisher sobre o amor.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Proposta acadêmica


proponho comunicação oral
traduzível apenas na sua língua
nada mais.

combinamos posteriormente
a inserção nos anais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Convite pro cinema

Há muito mais pra ver
pra fazer
do que as comédias românticas
que te assustam
te irritam
te afastam.

Há personagens
tão bem compostos
que justapostos
já rendem, por si
lindas histórias.

(E embora eu te queira
por inteiro
pra qualquer tipo de roteiro
não proponho drama, terror nem suspense
pra estrelar com você...
pra começar o ano
podia ser um documentário
sobre amizade
e a poesia do cotidiano
ou - mais imediato e menos raro -
um simples pornô-gourmet.)

sábado, 2 de janeiro de 2016

Trabalho maravilhoso de Matt Blum,The Nu Project. https://thenuproject.com/galleries/in-north-america
moça
não faça troça
aceita e segue essa missiva:
mete-se
atravessa a praça
não faça mesura
não meça as palavras
esmorece esse medo
assimila o selvagem e
esmiúça-me a pele
amassa-me até os ossos
amacia-me o ego
amansa-me

moça
arremete-se
como se me amasse.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Desreflexões sobre começos e fins.

A cultura começou o humano
e terminou a igualdade.
A liberdade é o fim da tutela
e o começo da solidão.
O tropeço é o começo da queda
e o fim do passo.
O fim da castidade
vem no começo do sexo.
O nó é o começo do choro
e o fim do laço.
O começo da amizade
é o fim da solidão. 
O ar está no começo
e no fim da explosão.
O joelho começa na coxa
e termina na perna.
A casca quebrada é o fim do ovo
e início do pássaro.
O trabalho destrói o ócio
e inicia o cansaço.
A muda é o começo da planta
e o fim da semente.

O ódio é o começo do fim
de quem o sente.
A pele é o fim do mundo
e o começo da gente.

O nascimento é o fim da gravidez
o peito finda a fome, até que comece outra vez...
o primeiro passo é o começo do fim do colo
a paixão começa onde termina a paz
e a paz começa... 
enfim, ninguém sabe mais
então para mim, tanto faz.

Pode vir, 2016. 
Com paixão, com começos e fins. 

Sem mais,
Elimacuxi.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Fartou-se no banquete de uma noite
cheirou, tocou, esfregou, arranhou
energicamente
lambeu, sugou,
mordeu, deglutiu.

Raiaram-lhe depois 
as razões e o dia:
e era finda a poesia.

À noite, entretanto,
quando só, no quarto quase escuro,
ainda mete os dedos na boca, 
um por vez
a língua minuciosa, escavando os cantos
em busca de um sabor que revele
um resquício daquela pele.

Consome-se assim, há semanas
dispensou o uso de pijamas
e já não lhe resta nenhuma
de suas falanges distais.

É noturna e disforme essa fome, fome, fome...
dessas que enlouquecem a um homem 
dessas 
que ninguém sente mais.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Re-secando

há aves diversas
vento abundante e poeira em vórtices
velado silêncio sobre a melancolia cotidiana
mangas e limões se decompõem
caídos entre as flores
e eu me recomponho
revirando doces ócios
de amores decompostos.

meu corpo se adominga
lentamente se cava e se suspende
solta-se sem hora nem susto
celebra-se vivo, respira,
ressente.

de repente
suspiros provocados pela pele
saram
arrancados na raiz
por afiadas razões

e severamente
re-secamos.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

 
quando o coração me vem na boca
já não é pouca a emoção que brota
o amor, a gente sabe, a gente nota
quando é faísca e já quer se espalhar
e há um terreno, um campo em que,
se ele nasce
não tem mais freio, não se pode evitar:
peito menino, pouco importando a idade
feito poeta é o meu jeito de amar
e eu bem sei: não tem conveniência
e eu bem sei o quanto ele pode arder
e eu bem sei, mas nada nada disso importa
quando me brota assim
um novo bem-querer.