"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.



sábado, 28 de setembro de 2013

posted by Joe Nuzzolo, www.dali.com
e a ponto de explodir
você percebe então
que bancar a boneca inflável
não será solução
é esse silêncio que te vinca a face
te engorda e faz sumir
é essa boca fechada o que te mata
a fachada de quem se engana
sob luz de anulação

volte a gritar
criança mimada em corredor de mercado
para ser inteira
esqueça o outro e a gentil educação
que tudo rua
que tudo trema
que dance o chão

exploda pois você sabe
que ser a boneca inflável
não é boa solução.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Tecer e te ser

as palavras
feito pedras de sol
brilharam à exaustão

depois cansaram-se do excesso
sentiram-se soltas
sibilando sem razão

quase silenciosas
desfiam sombras
do entretecido coração 





domingo, 1 de setembro de 2013

Inveja da Barbie

bom é não lembrar
que se leva nada dentro
do corpo
bom é ser cabeça e ter
apenas os problemas que ela cria
quando o corpo começa
insistentemente
a dizer que existem
rim, pâncreas, coração
estômago e outras coisas intestinas
por um átimo me some a graça do amor
das meninas
dos gatos e cães
das rosas e camarões.

neste dia
sobre corpo concluo
que bom mesmo é ser vazia

domingo, 18 de agosto de 2013

Ré vertida*

é o verso inverso na canção
o acaso e o destino num refrão?
duas faces da moeda?
uma pedra no caminho?
e será o acaso um destino
que não se revela sozinho?
sei não.
mas caso o acaso seja
um destino que se enseja
antes da interpretação
não será o destino um acaso
em via de dupla mão?

*para Rodrigo Mebs

sábado, 17 de agosto de 2013

Revenge

ave!
uma chuva de olhos
sobre mim
ele pisava em ovos 
e eu soprava breves beijos 
por entre os lábios 
avermelhados

envaidecida
provoquei, me verti
na vaga do tempo veloz
voraz e sem valor
avalio
envileci.

fora vertigem
voo, viagem 
na avareza do instante
não me contive e vi
a vingança virgem
brotando suave no vento
e me valeu viver
por um momento
como quem vela
um inimigo inválido.

domingo, 11 de agosto de 2013

Do meu dia dos pais

Hoje é dia dos pais e eu, planta brotada, amanheci imersa em imagens, pensando e repensando o que sou...

Vi minha mãe, 
no distante oitenta e dois...
era um março? abril? era julho?
no meio da sala da avó
chorava a ida do pai 
tupi de quem herdei o orgulho
perdida raiz do que sou.

Depois,
há exatos vinte e dois anos atrás
num agosto
"mês de desgosto"
e "de cachorro louco"
não foi pouco o susto
quando o doutor me disse
que eram três bebês...

Ainda revi meu próprio pai,
naquele longínquo dia dos pais 
brindando com vinho barato
à minha barriga e seu conteúdo abstrato
(não havia caras nem nomes
nem lindas bochechas de apertar).
Num dia em que tudo foi susto
e dúvida e sombra e espera no ar
meu pai comemorava seus frutos
e os novos braços de sua árvore a brotar.

Saio do mar da memória
cansada de nadar
vou mexer no jardim: 
é domingo, o céu azul
flores novas, terra à vista
coisas que faço por mim.

A vida mais florida
rosas, gérberas, onze horas
e na manhã que parecia sem fim
ressoa a notícia: Geralda falecera.
Meu tempo pára.
Penso em minha mãe perdendo a mãe num dia dos pais,
penso na velha imersa em novos ais
penso na mais funda raiz que eu possuía
e que agora, quase sem função
nessa árvore cheia de galhos e frutos 
larga-se da planta para integrar-se à terra.

Revolvo o coração
as mãos sujas de terra e de lágrimas
por ela, por minha mãe e por mim
por meu pai, pelo pai de minha mãe, pelo pai de minhas filhas
pela vida, que assim sentida
tem-me algum sentido
mesmo quando finda.

Ainda chorando abro um sorriso
lembrando do sobrenome que eu tanto desejei
e que Geralda, minha avó, leva consigo:
Gozzo.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Tristeza passa*

nascera manhã clara:
mas claramente
não sentiu.

nublou-se
reviu o que foi,
o que não foi
olhou no espelho
e não se viu.

depois de noites
em queda torrencial
cheia e grave,
inexorável como um rio
reencontrou-se
e feito um sol
sorriu.


*Para Beatriz e Mirella, por distintos e iguais motivos



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Aventurazinha

mesmo que seja
um voo de galinha
paralisada em mim
a menininha
está sem palavras

talvez porque seja nova a lavra
e, no momento tão ansiado 
- iniciado o salto - 
teme pousar os pés do outro lado.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quando Sampa

quando você me toca,
me entoca a tristeza
quando você encontro
no encanto novo
a raiz que de mim pende
para o chão que suave se fende
dói inteira, feito ferida
porque é avenida o tempo
e larga a lida
e porque mais do que de dinheiro
e cimento
é feita a vida.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Parceria*

quando bem compassa
o passo
e tudo samba
em azul e branco
e em verde e rosa
em seu braço
todo prosa
eu canto.

quando desanda
o passo
e tudo tango
e vermelho e negro
com seu braço
na beleza trágica me alegro.

e quando se pára
e nem há balanço
quando tudo cinza
cansaço e ranço...
só me abrace forte
que eu ainda danço.


*Pra quem sabe dançar junto, mesmo sem saber dançar