Caminhando pela terra
em que te hasteaste pela prima vez
nada vi que pudesse
te fazer mais solar,
não que o sol se negasse -
ali estava, vespertino
colado ao azul do céu
acalmando formigas afogadas
pelo transborde matutino dos canais
depois da chuvarada.
Mas eram de um cinza impiedoso
os prédios, os becos, os murais
não há mais sertão na Caxangá
mas ônibus urbanos
cheios de gente sem urbanidade
gente que não se vê nem se fala
vi meninos e meninas
sua pele que exala convites
contraditos nos olhos perdidos e bocas fechadas.
Não vi crianças
revi, querido, com tristeza,
o autismo da São Paulo da minha infância.
As ruas do teu lugar tem o mesmo nome
a cidade tem o mesmo nome
mas em nada pude ver a Recife
a verdadeira Pasárgada
onde um dia Clarice
imaginou-se abraçada
às Reinações de Narizinho:
era mesmo de felicidade clandestina
a Recife da minha memória.
Talvez fora sempre isso,
e eu, despreparada
caí diante do anti-amar que ora banha o Hell cife,
revolto mar que me inunda ainda agora
e me afaga o coração em desalinho
com suas ondas de medo
e com seus dedos de espinho.
"Uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana." (Huizinga, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ed. Saão Paulo: Perspectiva, 2007)
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
De todos os brinquedos que a vida me deu, o que mais me cativou foi o de jogar com as palavras. O jogo se faz completo quando escrevo e alguém replica, quando replico o que escrevem... É na intenção de reunir jogadores e assistência, que meu blog é feito.
terça-feira, 29 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Paixão-Ator-Menta*
por desejo eu chovo
é senda em que me reinvento
tempestadeio
trovejo, relampeio
e caio:
peço socorro alusivo
em cena não rara:
'sem o que desejo não vivo'
mas é birra mal comportada
de quem da vida apanha
mas encara
se tudo escapa
a coberta dos anos e amores passados
escancara portas proutros ventos
relembra outras dores fatais
é senda em que me reinvento
o exercício de céu azul
vou desanuviando
e sigo em paz
porque paixão
é feitio da vida
e sem paixão
não vale mais.
Para um amigo que troveja e dança comigo
Para um amigo que troveja e dança comigo
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Caosando
me atrai feito peitos brancos
expostos e oferecidos:
me pega pelos flancos,
turva meus sentidos.
ontem toquei manaus por baixo
a pele úmida no calor de um abraço
o ar pesado
que ao amor antigo
cor empresta
em fuga funesta
vi manaus de cima
seus morros ocupados
entrecortados do que resta
de floresta
longe já, por um momento
fecho os olhos para ver
a manaus que aqui de dentro
não desgasta:
seu caos
que de paixão me reinfesta.
sábado, 12 de abril de 2014
Jamaica brasileira
sob azulejadas nuances
vermelhos e verdes
negros retintos
e aquela amarela
breve luz de uma vela
para Jorge, o guerreiro
o mago
com a radiola em controle
me enfeitiçava manipulando sua prole:
elevava compassadas
repetidas,
as notas que invadiam todos os cantos
e eu, embriagada pela fé que em mim se inserta,
no amor, que manifesto, a tudo altera,
vi que o mundo se movia lentamente
vi assim o despertar de uma quimera
provocando-me um intenso desapego:
provocando-me um intenso desapego:
o meu corpo, separado de seus prantos
foi despido de seus demônios e santos
puro encanto e alimento para o ego
puro encanto e alimento para o ego
transe
de suor banhada
a pele empretecida por dentro
não me impressionara mais
que as retinas e ouvidos cheios:
meio demente
sempre, do que há no mundo
me fiz recipiente
era para Jah
que soavam os cantos
e eu, entregando a alma
mantive a calma
ainda que desejasse
com toda a força
que fosse pra sempre cedo
e que praquele suave degredo
o fim não viesse
jamais.
quinta-feira, 27 de março de 2014
Praia ou montanha?
Me olha de longe
morreu
virou monge?
É paisagem dentro em mim inalterada.
O coração pergunta a cada baque:
é noite? venta? neva?
chove? é seco? geia?
não sei
de ausência cheia
observo o amanhecer
na lembrança congelado
antes fosse ar em movimento
mas é amor
numa montanha de sal
sob o mar conservado.
morreu
virou monge?
É paisagem dentro em mim inalterada.
O coração pergunta a cada baque:
é noite? venta? neva?
chove? é seco? geia?
não sei
de ausência cheia
observo o amanhecer
na lembrança congelado
antes fosse ar em movimento
mas é amor
numa montanha de sal
sob o mar conservado.
terça-feira, 25 de março de 2014
Monumento ao 25 de março.
por toda palavra, todo gesto
todo punho fechado
erguido em justo manifesto
por toda discussão, toda política
e toda história
a memória dos irmãos criados, da mãe cuidada
das mulheres adotadas
dos amigos sinceros.
por verdades duras em horas necessárias
e omissões importantes para aliviar a dor
pelo companheiro que fostes
amigo, amante, aluno e professor
pelo sol que te saía dos olhos
pelo sorriso que alargava o dia:
minha poesia,
meu eterno amor.
todo punho fechado
erguido em justo manifesto
por toda discussão, toda política
e toda história
a memória dos irmãos criados, da mãe cuidada
das mulheres adotadas
dos amigos sinceros.
por verdades duras em horas necessárias
e omissões importantes para aliviar a dor
pelo companheiro que fostes
amigo, amante, aluno e professor
pelo sol que te saía dos olhos
pelo sorriso que alargava o dia:
minha poesia,
meu eterno amor.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Sem feliz aniversário*
olha
voltou a chover na cidade
não deve mais ter labareda dançando no campo
e o rio logo cobrirá a praia.
olha
talvez a temperatura caia...
com a telha transparente a cozinha ficou mais clara
e logo os mosquitos invadirão tudo.
olha
sinto falta dos meninos,
o carro precisa de reparos
e na Universidade tenho mais horas de estudo...
olha
tem tanta coisa pequena
dessas que se amontoam pra compor a vida
e se pudesse você me perguntaria
sem interromper a lida
- e daí, minha dramática?
hoje entristeço e sorumbática
já sei de tudo
quando miro pra dentro
teu olhar me mostra a mim.
noite de vinte e três de março
a chuva voltou!
se tudo retorna
por que você não renasce?
o dia seguinte me atesta que é drama a vida que permanece
- pudesse eu e me extirpava o calendário -
antes nunca mais essa dor, o desvario,
o retorno vazio e sem festa
do teu aniversário.
*para Vavá, que ao menos dentro de mim aniversaria de novo.
domingo, 23 de março de 2014
Do tipo que se encanta
feito barranco sob a chuva
lentamente vou me deixando imergir
mesmo sabendo que a corrente embaixo
é feita de um caldo de promessas fáceis
lassa e travessa me entrego
escorrego toda, cabeça e coração
em troca de tolas tardes e vazias palavras
me dou vazão.
mas vou ao fundo
e me demoro
porque tudo em volta é novo mundo
rocha, custo perceber que a correnteza seguiu
que é outro o rio
que pouco ficou
além de meu corpo só
mas sei que estou inteira
quando alguém à beira
me recolhe
me vende como novas
as velhas promessas
me interessa
e joga de volta à margem
do fundo à margem ao fundo
essa é a ameaça:
amar é viagem e a vida é um trago.
Resisto
e se o preço é esse
eu pago.
terça-feira, 18 de março de 2014
Passageira
sábado, 15 de março de 2014
abraço amarelo
quente
depois descemos a ladeira
um do outro ainda rente
era noite e era dia
junto à calçada um veículo
se movia
e sobre nós desabou
mortal
imenso muro
em tijolo e pedra e cimento e cal
foi em segundos o assalto
a visão da ladeira, do veículo, do muro
a solidão profunda do meu peito contra o asfalto
e o escuro total
no último instante
antes de acordar, assustada e arfante
não foi grito nem dor
o que se revelou
mas angustiada descoberta
reconhecimento, torpor
em meio a verdade incerta:
- então foi assim que eu morri!
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